Vinte e um* | Patricia Gonçalves Tenório**

 

Ele perguntou o que era terça;

ela, perigosamente, não respondeu.

 

O que não se sabe sobre os terroristas é que eles levam uma vida perfeitamente normal. Se apaixonam, desiludem, se iludem com as promessas de vida eterna e dezenas de virgens flutuantes.

Oham sabia das virgens, cria nas virgens como ao próprio corpo armado, coberto com a túnica preta e o turbante branco. O que Oham não sabia era que uma das virgens atravessava o seu espaço no exato instante em que iria disparar as bombas.

– O senhor sabe quando é terça?

Ela lhe perguntou. Com tantos ao redor. Com olhos de pantera, ela perguntou. Será que sabia? Será que lhe adivinhou?

Yasmine era filha única, neta única de marajá. Ela poderia estar em casa, com as tantas amas, os muitos escravos, a pensar em nada, a não pensar. Mas para que deixar de viver a vida, experimentar a vida no seu sabor, nos aromas, no calor do mercado, o colorido das especiarias, que sabor tem o açafrão para Yasmine?

– O que tem na terça-feira?

O rapaz lhe perguntou. O rapaz de olhos vivos, mais vivos que os seus, mais vida nos lábios grossos e os dentes de marfim, o turbante branco emoldurando o rosto, a túnica preta cobrindo o corpo alto, esguio.

Ele não desconfiou que o perigo ali se achava. Naqueles dedos finos. Naquele véu de púrpura. Os olhos de pantera adentravam os olhos seus, sondavam a alma por mistérios, e ali, no centro, no âmago do espaço seu, Yasmine o desvendou, Yasmine lhe sentiu a cintura, sentiu as bombas, o disparador.

– O que tem na terça-feira?

– É o dia.

– O dia?

– Do meu aniversário.

– Quantos anos?

– Vinte e um.

– Também tenho vinte e um.

– Por que então as bombas?

– Por que então o véu de púrpura?

Yasmine ali sentou. No chão. Na calçada do mercado. Onde Oham já devia ter disparado, já devia ter se entregado à vida eterna e às virgens prometidas.

Mas as lágrimas de Yasmine o atraíram para o chão. Na calçada do mercado. Tocou a mão de Yasmine. Ela não se esquivou. E assim permaneceram, o tempo da explosão, o tempo da fuga de casa de Yasmine, do paraíso de Oham.

Porque, se quiser, se vive tantas possibilidades, muitas vidas, muitas virgens num mesmo instante, num mesmo toque, num único beijo da virgem Yasmine e do homem-bomba Oham.

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Veintiuno

Elle preguntó qué era martes;

Ella, peligrosamente, no respondió.

 

Lo que no se sabe sobre los terroristas es que llevan una vida perfectamente normal. Se enamoran, se decepcionan, se ilusionan con las promesas de vida eterna y decenas de vírgenes flotantes.

Oham sabía de las vírgenes, cría en las vírgenes como en el propio cuerpo armado, cubierto con la túnica negra y el turbante blanco.

—¿El señor sabe cuándo es martes?

Le preguntó ella. Con tantos alrededor. Ella preguntó con ojos de pantera. ¿Será que sabía? ¿Será que le adivinó?

Yasmine era hija única, nieta única de marajá. Ella podría estar en casa, con las tantas amas, los muchos esclavos, a pensar en nada, a no pensar. Pero para dejar de vivir la vida, experimentar la vida en su sabor, en los aromas, en el calor del mercado, el coloreado de las especias, ¿que sabor tiene el azafrán para Yasmine?

– ¿Y que tiene el martes?

El muchacho le preguntó. El muchacho de ojos vivos, más vivos que los suyos, con más vida en los labios gruesos y los dientes de marfil, el turbante blanco amoldado al rostro, la túnica negra cubriendo el cuerpo alto, esbelto.

Él no dudó el peligro se hallaba allí. En aquellos dedos finos. En aquel velo de púrpura. Los ojos de pantera penetraban sus ojos, sondaban el alma por misterios, y allí, en el centro, en el núcleo de su espacio, Yasmine lo desveló, Yasmine le sintió la cintura, sintió las bombas, el disparador.

– ¿Y que tiene el martes?

– Es el día.

– ¿El día?

– De mi aniversario.

– ¿Cuántos años?

– Veintiuno.

– También tengo veintiuno.

– ¿Por qué entonces las bombas?

– ¿Por qué entonces el velo de púrpura?

Yasmine se sentó allí. En el suelo. En la calzada del mercado. Donde Oham ya debía haber disparado, ya debía haberse entregado a la vida eterna y a las vírgenes prometidas.

Pero las lágrimas de Yasmine lo atrajeron al suelo. En la calzada del mercado. Tocó la mano de Yasmine. Ella no se esquivó. Y permanecieron así, el tiempo de la explosión, el tiempo de la fuga de casa de Yasmine, del paraíso de Oham.

Porque, si se quiere, se viven tantas posibilidades, muchas vidas, muchas vírgenes en un mismo instante, en un mismo toque, en un único beso de la virgen Yasmine y del hombre-bomba Oham.

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* Extraído de Vinte e um / Veintiuno, Patricia Gonçalves Tenório. Tradução: Alexandra Viscrian, David Pérez García. Madrid: Mundi Book Ediciones, 2016.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br