Diálogos – 18/01/11

ALGUM *

– Passa a bolsa e o celular, dona!

– Você pode entrar no carro?

– Ahn?

– Entrar no carro, você pode?

Ela deve ser louca ou vai me aprontar algum.

– Então tá.

O vidro escuro. Ar-condicionado. No rádio, uma música e ninguém cantava. Entrou numa rua, saiu por outra. O revólver, não deixei de apontar pra ela. Sabe lá o que queria? Chegou na avenida, a beira do mar. E eu sabia o que era mar? Acho que adivinhei do que Pinéu contava.

– É um mundaréu de onda, cai na areia, lisa, feito encerado da Igreja do Carmo.

O porteiro olhava o revólver, ensaiou telefonar.

– Não se preocupe, seu Luiz. Ele está comigo.

Entramos no elevador, de cima a baixo era vidro, eu via o céu, as nuvens colando na parede de mármore do prédio; uma planta saía de onde, sabe lá de onde, era o mar subindo, a nuvem baixando, a planta olhou pra mim – me admirava? O que é que ele tá fazendo com o cano do revólver tremendo? Por que ele vai até o último andar?

Abriram a porta, larga, branca, sala azul, tinha árvore, tinha flor por todo lado.

– Maria, prepare a banheira no quarto de Felipe.

Ela queria o quê, me dar um banho? A última vez que vi água foi na saída de onde nasci, no açude quase seco, quase lama. E Pinéu continuava.

– Quando tu vê o mar, vai ser um tudo diferente.

A água morna, cheia de espuma, um pó colorido que ela botou e eu nem queria, nem queria, mas acabei querendo. Não tirei o calção, só a camisa, o grude saindo do corpo todo com a esponja que ela passava nas costas, na perna crescia cabelo, atrás da orelha. Depois pasta, escova de dente, e esfregava, esfregava. Tudo ficando branco.

Em cima da cama forrada, fofinha, uma camisa e uma calça do meu tamanho, sapato e meia. Penteei o cabelo, botei o perfume verde atrás da orelha – vi no filme na casa de Dona Dorinha, quando mãe trabalhava de lavar, varrer, cuidar dos filhos do usineiro.

– Você está pronto?

O cheiro vinha da cozinha e a tal Maria mexia com a colher de pau a panela, batia suco, enchia o copo e o prato fundo. Ia ficando ali mesmo, no chão, mas a dona me pegou no braço, levou até a sala azul, me fez sentar, usar garfo e faca, e que eu comesse devagar, não ia fugir, a comida.

– Está com sono?

Até que estava, mas eu queria ver se nuvem era feita de algodão, e se a tinta rosa pintava o céu no fim da tarde. Na varanda tinha rede, lembrei que dormia eu e meus irmãos tudo agarradinho perto de mãe, e ela chorava porque pai foi pra longe, não voltou mais.

– Quero ir embora.

Ela olhou para mim, feito se olha passarinho que não se quer assustar. Passou a mão no meu cabelo, alisou onde a barba um dia vai crescer. Deu sacola com roupa antiga, a sandália e o revólver estavam lá. O elevador de vidro, nuvem, mármore, plantinha e o mar vindo, vindo, virando onda, caindo na areia lisa. Na mesma esquina parou, pegou o revólver da sacola, me colocou no mesmo lugar, o que era sol, agora a lua, estrela e o olho dela, tremendo, tremendo na minha direção.

Miedo – Lenine & Participação Especial Julieta Venegas

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* Fotografia de uma planta na fachada do meu prédio. Texto extraído de “Diálogos”, Patricia Tenório, 2010.