O café* | Cilene Santos**

E mãe Terezinha botava a lenha no fogão.

Na trempe, já se encontrava o tacho,

Cheio do açúcar preto,

Onde eram  jogados os grãos maduros do café.

Com o calor, aquela mistura borbulhava

Como se bolinhas de sabão fossem.

Vez ou outra, a avó mexia

Com uma colher de pau,

O que parecia um doce de café.

Até formar uma calda homogênea.

Estava dado o ponto.

O café era colocado na pedra

Para esfriar

Dali ia para o pilão,

Onde era massacrado até virar um pó fininho.

Pronto! Estava pronto o café.

Era só jogar na água fervente

E saborear ao redor do fogão a lenha,

Acompanhado do bolo de milho, ainda morno,

Feito pelas tias.

Aquele era momento solene.

Celebravam-se o trabalho e a união.

Pai Tonho aproveitava para contar

As histórias do seu dia a dia.

E exagerava ao falar dos seus feitos

Na lida com os animais.

As crianças riam e acreditavam.

Os adultos olhavam-no de soslaio.

Foram bons os meus tempos de menina.

 

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* Texto lido por Cilene Santos no III Encontro dos Estudos em Escrita Criativa de Recife, temática A viagem, em 12/05/2018.

** Cilene Santos é professora aposentada e grande poetisa. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com