Encontro entre poetas: as cartas de Geraldino Brasil e de Jaime Jaramillo Escobar* | Organização Beatriz Brenner

Ponto de partida

 

Em 13 de novembro de 2010, assistia à conversa do autor convidado, Benjamin Moser, sobre a biografia que escrevera de Clarice Lispector, intitulada Clarice,. O momento fazia parte da programação da VI FLIPORTO – Festa Literária Internacional de Pernambuco, que acontece, anualmente, na cidade de Olinda.

A vibração de Moser, enquanto respondia as perguntas que lhe fazia o interlocutor, era tão forte, que me alcançou na plateia. Fui tocada.

Naquele instante, decidi escrever também uma biografia. Mas logo a pergunta: sobre quem? Gerou-se um certo esforço para que a resposta viesse à tona. Os sons das palavras vibrantes de Moser se misturavam aos meus pensamentos embaralhados. Finalmente, a luz! O biografado seria o poeta Geraldino Brasil, pensei quase em voz alta… Ele que esteve meu pai, enquanto seu período na terra. Nada mais justo.

Senti-me preenchida de certezas e profunda alegria, já que à minha vida, a partir daquele momento, havia sido acrescido mais sentido psicológico. E que sentido!

Alguma explicação ao leitor, no entanto, é necessária, para que compreenda sobre como foi possível prosseguir com a ideia. Em 1996, logo após a partida de papai, contratei a bibliotecária e amiga Lúcia Moura para catalogar o vasto arquivo do poeta. Quis evitar qualquer extravio do material de valor inestimável. E, como era e ainda sou a única representante da família no Brasil, senti-me redobradamente responsável.

Para iniciar a pesquisa, pensei em ir a Alagoas, aos lugares por onde passou, no Engenho Boa Alegria, onde nasceu. Até fiz alguns contatos. Porém, em meio às minhas elucubrações (que não foram poucas”, “algo” me levou até as cartas, em especial as que meu pai trocara com o também poeta e seu tradutor colombiano, Jaime Jaramillo Escobar. Lendo-as por cima, percebi que as informações de que precisava estavam ali. Acheia-as preciosas por estarem, claro, escritas na primeira pessoa. Ou seja, eles mesmos desvelariam suas próprias histórias:

– Em 1933 tinha eu 7 anos. Nasci no campo, vim para a cidade quando você nascia. Morei em muitas ruas em Maceió…

 

– Region escarpada y pobre, en Antioquia – donde nascí – la vida es violenta y azarosa. La aridez y la avaricia de sus gentes y su utilitarismo corresponden a la psicologia de un país de asesinos y ladrones…

Que maravilha! Só faltava organizar meu tempo e mergulhar na leitura, agora atenta, das cartas. Leitura que me permitisse selecionar trechos cujos assuntos se inter-relacionassem. Até aí, não tinha a menor ideia de como iria compor o livro.

A correspondência com o poeta Jaime havia sido arquivada em duas pastas distintas: “Cartas masculinas/Emitidas – Jaime Jaramillo Escobar” e “Cartas masculinas/Recebidas – Jaime Jaramillo Escobar”. As “Emitidas” eram em cópias-carbono, costume que papai adotava sempre que escrevia a alguém. No total, foram consultadas 131 cartas: 73 enviadas a Jaime e 58 recebidas de Jaime; inúmeros postais e bilhetes.

Bem, para evitar ferir os valiosos originais, providenciarei a reprodução de todo esse material.

À medida que lia, me deslumbrava. Os assuntos abordados eram atualíssimos e de grande alcance, além de serem expostos com transparência, abertura e humor! Mas, para que esse deslumbre não viesse a interferir em meu trabalho, precisei ter um diálogo comigo mesma. Inquietava-me pensar que, o que quer que eu fosse produzir, não deveria ser movido por qualquer excesso de emoção. Geraldino e Jaime fluiriam livremente. Afinal, foram 16 anos – de 1979 a 1995 – de troca de cartas. Um longo período que lhes foi agraciado, para que amadurecessem. Amadurecessem ao ponto de se tornarem amigos e confidentes, motivo que os levou a ultrapassar os limites do campo da poesia, razão maior pela qual o destino os uniu.

Nunca se viram pessoalmente, porém a sensação era de se conhecerem há muito tempo – e sobre isso se expressa papai em sua carta de 24 de agosto de 1982:

Já te disse tantas vezes, não nos conhecemos apenas desde 1979.

Para não ocupar o tempo do leitor, tampouco espaço, neste livro, com questões corriqueiras, selecionei trechos que viessem a instigá-lo a uma reflexão, ou mesmo que viessem a surpreendê-lo pela originalidade das percepções dos poetas.

Outra decisão importante foi a de conservar as missivas com o mesmo frescor dos idiomas com os quais eles se comunicaram em suas respectivas línguas-mãe.

A decisão surgiu a partir da crença de que os que fossem ler este livro seriam capazes de compreender não apenas os idiomas em si, mas, principalmente, teriam a possibilidade de penetrar nos sutis meandros das expressões dos poetas. Sim, a pontuação, ortografia e eventuais erros gramaticais também foram respeitados.

Muitas outras cartas foram catalogadas por Lúcia em pastas diversas. Cartas de/para poetas, leitores, jornalistas e críticos literários, entre tantas outras. Material tão rico, que poderia se tornar um compêndio literário, caso optasse em dedicar o resto de minha vida para fazê-lo…

Uma lástima, no entanto, que esse modo de nos correspondermos esteja em extinção com o advento e a supervalorização da tecnologia. A sensação gostosa da expectativa da chegada do carteiro – e como curtíamos a vibração do nosso pai! A renovação que as cartas lhe traziam. A alegria de escrever a alguém e de imaginar este alguém recebendo, tocando, abrindo e até querendo sentir os cheiros do outro, não há comparação. Essa dinâmica humana está longe de ser resgatada…

Foi graças ao intercâmbio epistolar entre meu pai e Jaime que cada uma de nós – mamãe, a mana Moema e eu – pôde vivenciar uma experiência de poucos. Experiência essa que até hoje repercute e que ao longo da elaboração desta obra, me emocionou por várias vezes.

Por meio de alguns relatos, cheguei a sentir as dores que meu pai sentira quando menino, jovem e adulto, algumas das quais eu ainda desconhecia, como as suas alegrias também. Em outros momentos, sorri, até gargalhei. Xinguei, falando alto com algumas das situações e com quem nelas estava envolvido. Conversei com ele, e até me surpreendi com certas observações que fez sobre mim em particular. “O que, papai?! Você pensava assim!?”, exclamei várias vezes…

O mais incrível foi que, ao ler as cartas, revisitei momentos de grande intensidade e significado de minha própria vida. Jovem, sonhadora, atenta ao futuro e, ao mesmo tempo, contida e eufórica diante das descobertas do presente. Foi a esse meu ambiente psicológico que a experiência de meu pai se somou e dela tirei uma das mais puras, plenas e sinceras lições de vida.

Por isso, e muito mais, tenho pelos poetas Geraldino e Jaime uma gratidão enorme, sem contar com a afinidade e amor que sinto por ambos. Eles me ensinaram que uma verdadeira e rica amizade pode ser, sim, fortemente mantida, nutrida e perpetuada mesmo com a dificuldade assinalada por uma distância física de cerca de 4600 quilômetros.

Com amor,

Beatriz Brenner

Bairro das Graças, Recife

Janeiro de 2014

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Extraído de Encontro entre poetas: as cartas de Geraldino Brasil e de Jaime Jaramillo Escobar. Organização: Beatriz Brenner. Recife: Cepe, 2016.