Mudando paradigmas | Mara Narciso*

9 de fevereiro de 2018

Existem referências inquebrantáveis, petrificadas, tão firmes e concretas que muitos as engolem sem esboçar qualquer dúvida. Apenas pessoas loucas têm coragem de questionar, enfrentar e derrubar tais barreiras, pisoteá-las, triturá-las e colocar algo novo em seu lugar. São os pioneiros, desbravadores, que mudam o ambiente em sua volta. A humanidade anda por causa dessas pessoas, homens e mulheres ousados, que não se conformam com o que está estabelecido, discursam, fazem seguidores, mas agem, jogando conceitos no chão, trocando-os por outro. É o que se chama atitude.

O mundo já deu muitas voltas e tantas coisas aconteceram à humanidade, que parece não haver mais nada a ser achado, inventado e afins. Tudo já foi feito. Ser original hoje parece impossível, pois “nada se cria, tudo se copia”, como dizia, parafraseando Lavoisier, Abelardo Barbosa, o Chacrinha, morto em 1988.

A surpresa é quando o banal choca, cria arestas, destila discórdia. O século XXI já esgota sua segunda década, e ainda há carruagens na rua. Pessoas sonhadoras, que estão fixadas em comportamentos antigos. Há uma volta da censura, com caça à liberdade e à autonomia. O efeito manada predomina, e, outrora comandado pela televisão, hoje as redes sociais o controlam. Quando a ordem é dada, poucos não a obedecem.

Na década de 1960, durante uma festa, uma mulher “desquitada” entrou num clube em Montes Claros. A orquestra parou e o organizador foi ao microfone mandar que ela se retirasse. Quem vê os books românticos de grávidas em estúdio, com suas barrigas polidas de sete meses, nem imagina o rebuliço que Leila Diniz causou quando mostrou o barrigão numa praia do Rio de Janeiro em 1971. O preconceito anda amarrado com a ignorância. Quando a AIDS surgiu, no começo da década de 1980, numa piscina lotada de um clube, um moço gay pulou, inocentemente. As pessoas desocuparam o lugar.

Estranhamente, há um retorno aos comportamentos de décadas atrás, um moralismo sem sentido ditado por pessoas que não têm moral, como bem ressaltou em seu discurso na época do impeachment, Dilma Rousseff. Outros pregam a liberdade de pensar e se expressar, individualmente, assim como quebram paradigmas – as referências, os exemplos típicos, os modelos a seguir, os padrões -, ainda que sejam fortes no Congresso Nacional os grupos da Bíblia, do boi e da bala, ou seja, evangélico, ruralista e militarista.

“Uma comunidade científica consiste de pessoas que partilham um paradigma”. Estudos e contradições, num certo momento podem dar origem a um novo paradigma para aquela comunidade. O escrutínio científico demonstra que aquelas verdades estão antigas e superadas e novos conceitos são apresentados. Acontece isso na Medicina, por exemplo. Houve um tempo em que o diagnóstico de Diabetes Mellitus era dado com glicemia igual ou maior que 140 mg/dl em jejum. Como pessoas abaixo desse parâmetro apresentavam complicações típicas da doença, o número caiu para 126 mg/dl.

Quebrar referências sociais é para poucos, e nem sempre significa transgressão, mas, de alguma forma é a saída da zona de conforto e a busca de algo melhor, mais livre, sem as amarras do pré-julgamento.

Deixar o preconceito dormir e não acordá-lo não é coisa de desocupados que pregam o politicamente correto. Só acha isso perda de tempo, quem não foi vítima dele e nem teve prejuízos com a discriminação. Então, se munir de coragem e ir atrás do justo e adequado socialmente é coisa de malucos sim, e que ficam às voltas com ideias pré-concebidas, desprezos e pedradas dos vizinhos. Desconfortáveis, mas tranquilos. Quando o novo comportamento é aceito e se assenta, quando vira “normal”, os que a princípio o rejeitavam, o abraçam, e mesmo calados veem que foi melhor assim. Exemplos? Que cada um pense em um e veja o que ganhou com a mudança. Ainda que nem tudo que mude, seja para melhor.

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