“Contos de areia”* | Chico Alves d’Maria

JOÃO DA SEREIA

 

João da Sereia era um humilde pescador de um povoado praieiro no município de Areia Branca, no Rio Grande do Norte. O povoado consistia em no máximo uma centena de casas, não mais; e boa parte delas construída de palhas de coqueiro, como era o caso do casebre de João. Outra boa parte era feita de taipa e uma outra de tijolos. Havia ainda uma bodega que, além de cachaça, servia as mercadorias básicas da população: farinha, feijão, arroz, açúcar, sal, etc.; uma pequena capela, onde o padre aparecia uma ou duas vezes ao ano para rezar uma missa, e um pequeno cemitério. O povoado era cercado de alvas dunas que frequentemente se deslocavam de lugar sob o uivante vento marinho, com seu doloroso lamento, que principalmente à noite arrepiava as palhas dos coqueirais que, em noites sem luar, pareciam fantasmagóricos dançarinos.

A sua casa de chão de terra consistia em três cômodos: uma sala, um quarto e uma cozinha. A área de serviços ficava numa latada na parte de trás e o banheiro ficava do lado de fora. Na cozinha uma velha e pequena mesa com quatro tamboretes, um pote com água e um fogão de barro que cozinhava à lenha – e na parede da cozinha algumas panelas penduradas. No quarto, uma rede de casal e uma bacia para asseio.

João era casado com Francisca Silva, que recebia o apelido de Chica, e tinham dois filhos pequenos, Manoel e Raimundo, de nove e sete anos respectivamente, e ainda dividiam a casa com um pequeno cão, Duque.

A maioria dos moradores vivia da pesca. Além da pesca, algumas mulheres faziam renda e também ajudavam os maridos na confecção de redes e tarrafas. Havia ainda um ou outro que cultivava pequenos roçados de sobrevivência, onde se plantava principalmente feijão, melancia e jerimum.

João era conhecido por sua bondade com os vizinhos, menos favorecidos, como Dona Carmelita, viúva que tinha um casal de filhos pequenos e uma saúde frágil e cuja renda obtida com os trabalhos de rendeira nem sempre era suficiente para sustentar os filhos; e era comum João dividir com esse povo o produto de sua pesca. Mas João era famoso também por suas histórias de pescador. Histórias essas em que a maioria da população não acreditava.

A pesca era realizada em pequenas jangadas, em redes colocadas ao longo da praia, tarrafa ou linha. João pescava de tarrafa numa tarefa diária, que se iniciava de madruga, em extensa caminhada ao longo do litoral.

Um dia João chegou de volta da pescaria com um enorme tubarão que trazia arrastado nas costas com imensa dificuldade, pois se tratava de um peixe com mais de dois metros. Descarregou o peixe na frente da bodega de Alfredo sob o olhar curioso e espantado dos demais.

– Meu Deus, onde é que você arranjou esse peixe, João? – perguntou Alfredo espantado.

– Pesquei, depois de duas horas de luta!

– Mas, homem, que história é essa, não está vendo que você sozinho não tem condições de lutar com uma fera dessas? Conte essa história direito! – ponderou outro pescador.

– Mas é a pura verdade!

Outro pescador que observava mais de perto o tubarão questionou:

– Olhe, tem um buraco de arpão nas costas do peixe, João, e você não tem arpão!

– Tenho, sim! Encontrei outro dia um arpão velho na beira da praia e guardei. Ainda bem que estava com ele na hora que o tubarão quis me pegar!

– E onde está esse arpão?

– Homem, deve ter se largado no mar, na hora em que eu consegui prender o peixe com a tarrafa!

– Mas esse peixe já está fedendo. Esse peixe não foi morto hoje!

Outro pescador acudiu em favor de João:

– Tudo pode ser. Ouvi dizer que em Areia Branca um pescador conhecido como Chico Nogueira também pegou um tubarão enorme sozinho, com uma tarrafa, à beira da praia.

E enquanto a discussão se acalorava em torno do peixe, João botou o bicho nas costas e partiu a caminho de casa. Se o tubarão foi para a panela ou se foi enterrado em algum lugar, devido, segundo alguns, ao estado avançado de decomposição, ninguém sabe. Nem a pobre da viúva Carmelita, que dessa vez não recebeu nenhum naco do peixe.

Certo dia, depois da pescaria, João chegou a casa com alguns peixes diferentes.

– João, e esses peixes, tu arrumaste onde?

– Eu pesquei!

– Mas tu pescaste como, se esse tipo de peixe só dá em alto mar?

– Ah! Esse segredo não posso contar!

– Mas por quê?

– Se eu contar quebra o encantamento e eu não vou poder pescar esse tipo de peixe!

E vez em quando João chegava com uns peixes diferentes. Passaram-se uns dias e certa tarde um pescador passou em frente à casa de João, e Dona Chica estava sentada em um banquinho que existia na frente.

– Bom dia, Dona Chica!

– Bom dia, Seu Amaro!

– João está?

– Não, ele foi comprar umas bolachas na bodega de Alfredo!

– E a senhora, nunca mais foi tomar banho de mar de madrugada?

– Eu?

– Mas não era a senhora que eu vi mergulhando com ele lá perto das pedras?

– Mas que história é essa?

Seu Amaro gaguejou e tentou desconversar.

– Então eu acho que me enganei, estava escuro. Deviam ser outras pessoas e eu confundi com João e a senhora.

Quando João chegou a casa, Dona Chica estava num pé e noutro.

– João, que história é essa de você estar mergulhando na praia com uma mulher de madrugada?

João, pego de surpresa, ficou um tempo paralisado e, depois de titubear um pouco, questionou por fim:

– Mas quem lhe disse isso?

– Não importa quem me disse, eu quero é que você explique!

João sentou-se no tamborete e falou com a voz um tanto engrolada.

– Descobriram o encantamento!

– Mas que diabo de encantamento é esse?

– Eu lhe conto: Já fazia tempo que, quando eu estava pescando lá perto das pedras, eu escutava um gemido nos ouvidos que até parecia uma mulher cantando; e quando eu me virava para o lugar de onde vinha a voz, ela silenciava. Eu achava estranho, mas pensava que devia ser o vento – João parou pouco para respirar, olhou para o horizonte e continuou. – Outro dia, quando ainda estava meio escuro, eu escutei o gemido novamente e quando olhei eu vi a água se mexendo, como se alguma coisa tivesse mergulhado lá no local. Daí não despreguei os olhos do local e foi quando eu vi uma mulher branca que nem um peixe e vestindo uma roupa que parecia feita com escama de camarupim e um cabelo esverdeado que parecia feito de algas saindo da água. Ela botou os olhos em mim e os seus olhos brilhavam que nem duas pérolas. As minhas pernas pesaram e eu não conseguia nem me mexer. E aí ela apontou para um lugar no mar e eu não entendia o porquê. De repente começaram a pular uns peixes no lugar para que ela estava apontando, daí eu entendi. Criei coragem e joguei a tarrafa no local. Foi quando comecei a pegar os peixes que só dão em alto mar.

Dona Chica ouviu aquela história fantástica e não sabia o que dizer. Certamente, pensou que devia ser mais uma das histórias de João. “Mas, e os peixes, como explicar?”, ponderava.

Chica não dormiu bem à noite. No outro dia comentou com a vizinha que achou a história muito estranha. “Mas, e os peixes, como explicar?”, ponderou.

A história se espalhou rapidamente e a partir desse dia João passou a ser conhecido como João da Sereia.

Passaram-se uns dias, quando, certa vez, Dona Chica recebeu a visita de uma comadre que morava no outro extremo do povoado. Conversa vai, conversa vem, quando em certo momento a comadre comentou:

– Eu soube da história da sereia – e alertou Dona Chica. – Toma cuidado, Chica, com teu marido. Estão dizendo por aí que a mulher de Zé Manso anda se encontrando nas altas horas da madrugada com ele, depois que o marido vai para o alto mar pescar, e é ela quem leva para ele os peixes que o marido pesca.

O mundo desabou na cabeça de Dona Chica. – “Ah! Desgraçado!”, pensou possessa.

Quando o marido chegou do mar encontrou Chica emburrada.

– O que houve, mulher?

– Nada! Só uma dor de cabeça! – nisso, Dona Chica estava pensando já no dia seguinte em fazer um flagra nos dois.

De madrugada, enquanto João da Sereia arrumava a tarrafa para partir, começou a trovejar e relampejar, o vento uivava forte. Logo que João da Sereia saiu, começou a chover. Dona Chica pensou que seria melhor esperar que o tempo melhorasse para poder sair, mas o tempo fechou: chuva, vento, relâmpagos e trovoadas.

Amanheceu o dia e o céu clareou. E, à medida que o tempo passava, a raiva de Dona Chica transformava-se em preocupação. “E João que não chega!”

Cansou de esperar e pediu a um vizinho para procurá-lo. Uma hora depois o pescador trouxe a notícia: havia encontrado o corpo de João da Sereia sem vida na areia da praia.

A notícia se espalhou. Comentários, lamentações e o inevitável preparo para o sepultamento. Improvisaram um caixão. Chica se lembrou do desejo de João de, quando um dia morresse, ser velado em frente ao mar aberto. Decidiram que o corpo seria velado numa latada à beira do mar que os pescadores usavam para o descanso e a guarda de alguns materiais. O enterro seria no dia seguinte.

Chegou a noite e os visitantes do velório foram se despedindo. Ficaram Dona Chica e mais dois amigos de copos do falecido. As rajadas de vento começaram a aumentar e no horizonte já se podia ver o relampejar.

– Dona Chica, vá para casa descansar. Pode deixar que a gente fica aqui velando o corpo até amanhã.

Dona Chica aceitou o conselho e os dois pinguços ficaram a velar o corpo e a secar o copo. E, à medida que a garrafa secava, o vento, os trovões e os relâmpagos aumentavam. O mar se agitava e as ondas cada vez mais avançavam com violência.

Meia hora depois adentraram os dois na bodega de Alfredo. Olhos arregalados e sem fôlego, esfalfados da carreira que deram da praia até a bodega.

– O que foi que houve? Parece que viram assombração!

E os dois contaram sem muita clareza do vulto que viram se aproximar da latada e da aparência que tinha.

– Era uma mulher branca que nem um peixe e vestindo uma roupa que parecia feita com escama de camurupim e um cabelo esverdeado que parecia feito de algas… Nós corremos e ela ficou lá velando o defunto!

Comenta-se que os dois abandonaram o defunto quando acabou a cachaça e a tempestade aumentou, então inventaram aquela história.

No outro dia pela manhã, quando levavam o caixão de João da Sereia pela praia, de repente alguém gritou:

– Olha, gente, o que eu encontrei enterrado na areia da praia!

E mostrou para todos um velho arpão que trazia nas mãos.

Até hoje, sempre que o vento uiva no povoado durante a noite, os mais antigos costumam dizer que é o lamento da Sereia.

 

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Extraído de Contos de areia. Chico Alves d’Maria. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2017.