Presentes do Poeta de Meia-Tigela / Alves de Aquino*

A Cidade. Poeta de Meia-Tigela & Carlos Nóbrega. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016.

 

A CIDADE E AS SERRAS

 

Há nos poetas de outrora

tantas paisagens

mas de mim tão longínquas

como aquelas palavras:

longínquo e outrora

Nasci cresci existo

na cidade

entre edifícios carros assaltos

e cercas de alta voltagem

Das evocações bucólicas

como formularei

– por mais vivas jamais vistas –

precisa imagem?

A mim que não as tive diante

só resta lamentar

delas sequer

restar

a saudade

 

 

Mutirão # 3. Organização: Poeta de Meia-Tigela. Participação: André Dias, Bárbara Costa Ribeiro, Brennand de Souza et al. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2017.

 

UMA VILA DESERTA

 

Nunca mais as lavadeiras,

nem os pescadores.

Agricultores ribeirinhos,

estes também não.

Nunca mais tapiocas,

cafés e conversas.

Onde o rio, apenas o rastro.

Sumiram-se os dias

de plantar e colher,

casar e construir.

Sumiram-se as mães

que davam aromas de milho

às tardes lentas.

 

(Webston Moura)

 

Para Mamíferos. N. 04. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora.

 

Depois da Aurora

 

Ora, quando dei por mim

o mato já estava alto

e minha alma mergulhada

na floresta do insensato

 

Quando quis olhar pra fora

não vi o verde que havia

as janelas se fecharam

sobre a varanda do dia

 

Depois veio a tempestade

não quis saber de alegria

quando a lua me chamava

eu fingia que não via

 

Fazia dos meus poemas

a minha biografia

da minha maior mentira

frase para a laje fria

 

Demorou, ressuscitei

com a chegada de Aurora

o que antes era século

tornou-se fração de hora

 

Depois da noite ela veio

como quem não quer ficar

inconstante, imprevisível

feito as ondas desse mar

 

(poemas de Carlos Vasconcelos)

 

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