Daqui desta torre, também

Rodrigo Malagodi, Campinas – SP, 24/12/10

               Que momento foi esse em que ele parou? Ficou preso? Inerte? Esperando?

                Esperar é a torre, é a dura conclusão maior a qual chego ao ter lido As joaninhas não mentem, da escritora Patricia Tenório. As palavras de Beckett seriam as do príncipe preso na torre? :

                 “Nunca estive noutro lugar a não ser aqui, ninguém nunca me tirou daqui (…) A ilha, nunca deixei a ilha, coitado de mim (…) direi o que sou, para não ter nascido inutilmente (…) direi primeiro o que não sou, foi assim que me ensinaram a proceder, depois o que sou, já está em andamento, só tenho de retomar ali onde me deixei assustar. (…) é preciso que o coração me saia pela boca” ([1]).

                 Por que ele não foi montar em seu próprio cavalo de buscar? Sem resposta, a própria pergunta esclarece Ariana ter montado em seu desejo – nada perdido, pois a busca ajuda a justificar a vida – e, como sempre diz Ferreira Gullar, “a vida não basta”. 

                “Poderia vencer dragões, a menina?”,

                se os homens já não podem mais, os Jorges da geração anterior talvez tivessem podido mais, mas que substância é essa que se dilui a cada geração, os Jorges desaparecendo presos em suas torres, privados de aprender a manejar suas próprias espadas? Afinal, a Lua ainda é a mesma, e ainda

                “levanta marés, enlouquece viúvos e une casais”.

                Mesmo que o “jeito da camponesa permitisse dores”,  

                “longos seriam os caminhos, tortuosos seriam os caminhos, perigosos seriam os caminhos”, essa oração do medo – protege, prende, impulsiona? Patricia me faz repensar as noções de movimento e inércia, pois suspeito que a inércia seja aquela que não percebemos, na ilusão de deslocamento uniforme, confortável, e vem sempre uma Ariana escalando paredes, chegando ao aposento e nos chamando para sair do lugar. Mas ficamos – essa parte ignorada, a outra metade não ciente, débil, morta lamentando com uma mão repousando na janela, de cabeça baixa, indiferente.

                Qual inércia me prende em minha torre? Apenas saltar?

                “O Amor Perfeito seria um grande abismo?”, foi esse o abismo escalado por Ariana, de lá do fundo sonhando, mas “ele não estava preparado”.  Era hora de acordar, talvez viver o sonho acordada e “Ariana afundava pés na Terra”, e para ter os pés no chão e a cabeça no fogo do Sol, só mesmo tendo crescido, sendo grande o suficiente de ter vivido as buscas, batalhas necessárias.

                “E o Senhor Tempo acompanhava com os olhos sábios”, “A missão de amor próprio antes de todos”.

                “(…) inaugurar ou renovar a paixão por si próprio e, consequentemente, por tudo e todos”. ([2])

                Mas o amor também tem que transbordar em encontros, fusões, confusões, “aquele que em minha própria vida deve se perder”. E se os dois buscam, que difícil fica o encontro possível, diante de tantos movimentos, mudanças, deslocamentos, mutações do que se era e do que se vai ser.

                Qual dos dois deve buscar ou esperar?

                Patricia Tenório e As joaninhas não mentem tranquilizam-me também, pois reforçam minha fé de que, homem ou mulher, antes humanos, merecemos a permissão da fraqueza e a compreensão, a compaixão. Afinal, o universo não deve ser um sistema programado para resolver nossos dramas e traumas. Cabe a nós entender que todos têm sua própria história, tiveram suas dificuldades e esse alguém cujo ato ou indiferença parece intencional de nos ferir, ainda não se deu conta disso e apenas dorme em sua torre.

([3])

 

                Ariana aprendeu e reforçou minha fé de que o amor é, antes de tudo, pôr-se no outro, em todos os sentidos.

                “E por que temia?”.

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* Uma leitura de “As Joaninhas não mentem”,  Patricia Tenório, por Rodrigo Malagodi.

(1)  Samuel Beckett, O Inominável.  

Todos os trechos em itálico (exceto especificados) são fragmentos de “As Joaninhas não mentem”, Patricia Tenório.

(2)  Trecho de aos turistas, Cidade Portuária Paixão, Rodrigo Malagodi.  

(3)  Trecho de farol, Cidade Portuária Paixão, Rodrigo Malagodi.

rodgiovanini@hotmail.com