Náufragos de uma Paixão

Patricia Tenório

22/12/2010

             Entro com febre na Cidade Portuária Paixão. Febre física se acumula em febre de engolir páginas até não ter fim.

             Rodrigo Malagodi me faz uma pergunta frase “entre dois pontos no oceano”: qual o caminho a seguir após o primeiro livro de um escritor? O que aborda? Qual o gênero? As fronteiras?

             Me assusto com a pergunta reticências pois a mim mesma faço e a mim mesma não respondo ponto vírgula travessão. Apenas deixo-me navegar pela “busca fuga” de Rodrigo no emaranhado de contos poemas rabiscos desenhos de seu livro inaugural. Aquele que deve ter lhe saído das entranhas, como tento agora dar um sentido aos meus sentidos.

             Por que me atordoa a sua leitura? Talvez por me encontrar ali nas surpresas sustos do “Eu me esconderei por trás das descrições discrições”, ou porque “Importava para Apolo surfar nos olhos de Ícaro”; quem sabe “O Talvez é sempre mais segura balsa que transita entre duas costas, a consciente e a inconsciente grosseiramente exploradas”.  Agarro a última frase e lanço o barco à vela em busca de meus irmãos de mar e poesia e vou me encontrar com Rainer Maria Rilke saudando o novo poeta, no peso de encaminhar uma vida para além do Bem, além do Mal.

             Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. ([1])

             Não tema o medo ao desconhecido, ao navegar livre solto sonhador pelos limites da estória, o prazer da literatura. A criação envolve riscos, do se entregar, do se encontrar, mas não abandone a si mesmo por causa de regras que não lhe pertencem porque o artista precisa visceralmente criar para sobreviver.

             Meu pobre amigo, nossa neurose, etc., vem também de nosso modo de vida um pouco artístico demais, mas também é uma herança fatal, pois na civilização, de geração em geração vai se debilitando. Se queremos encarar o verdadeiro estado de nosso temperamento, é preciso classificar-nos entre aqueles que sofrem uma neurose que já vem de longe. ([2])

             Existe um momento em que o outro não cala a nossa voz. Sentimos que algo ou alguém que nos habita resolve assumir o espaço que lhe foi entregue por séculos e séculos. Neste exato momento o artista se faz. Ele nasce para si quando se assume, com toda a responsabilidade que esse assumir traz.

             “… (e o não silenciar o desejo odeia a inércia de esperar pelo outro)…”

            Cada conto poema desenho rascunho da Cidade evoca reminiscências, não minhas, não suas, reminiscências das palavras que pairavam a procura de alguém que as imaginasse sós à procura de quem se imaginasse só e uma Paixão os atraísse feito “o fogo entre nós” e os costurasse em signo e Sol dos meus olhos.

            “As pessoas que vêem não apreciam tanto as caminhadas por terem a visão entupida de tanta grande luz?”   

            Até onde deve caminhar, Rodrigo? Que paragens buscar? Prenda-se ao que tomar-lhe o coração, é um conselho; navegue, perca-se, encontre novamente a sua Luz, que por vezes parecerá menor, mais branda, quase extinta Luz de sonhos, fazendo a mesma pergunta há tanto demandada…

            Pois rompa o que romper! Quero saber da minha Semente, e pouco importa se esta for mesquinha! ([3]) 

            Abarque o incerto, navegue o infinito. Ser poeta é bem mais que viver, é sobrevoar a vida, o ser terrestre e humano, é ser pedaço divino, ser ar, água, fogo. Música.                                                                                                                                

            “Mas uma frase também é um acorde”.

             Mas cada frase planta um livro que não são maçãs, são grãos de poesia que crescerão e incrustarão milênios…

             “Carregando um coração pesado de desejo oculto e culpado e cantando a música confusa que aprendera, apenas caminhou entre mar e terra e não voou para contemplar terra e mar juntos e deixar nascer de improviso a canção de nome Coragem, pela simples lógica de que, mesmo com toda sua imensidão, o mar nunca afogaria quem o desejava sobrevoar para sempre”.

            Tenho fome. Rodrigo me inspira a continuar com os pés no chão das palavras, o manejar consciente do papel e lápis, o estudo dos clássicos, do que é Bom e não é para mim. Porque esta busca, a busca de todo artista, somente acaba no fim dos dias, no fim dos séculos… Amém.

            : há palavras que revelam o melhor que possuímos; outras, o pior. ([4])

                “Meus braços seriam fortes o bastante para puxar a mulher afogada de dentro de ti?

            Qualquer esforço seria inútil, desde que começou a tímida garoa que devagar me arrastou ao redemoinho desta única opção: abrir a porta para baixo, aprender a mergulhar de cabeça e afogar-me de vez na enchente dos teus olhos.”

Pétala, Djavan

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*  Sobre Cidade Portuária Paixão, Rodrigo Malagodi.

(1) Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke.

(2) Cartas a Théo, Vincent Van Gogh.

(3) Édipo Rei, Sófocles. 

(4) A mulher pela metade, Patricia Tenório.