“A Cidade Universitária”* em “A menina do olho verde” | Patricia Gonçalves Tenório***

A CIDADE UNIVERSITÁRIA*

 

Foram derrubados os muros da cidade, o Muro Alto não existia mais. Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler. Era bom aquele começo, com a esperança no coração. Inventaram para o Barulho Extremo músicas dessas para relaxar. Ouviam baixinho antes, durante e após as refeições. Conseguiam fazer suas tarefas mais difíceis, das que precisam de uma concentração profunda, usando aquelas músicas que aquietavam.

O filho do prefeito, era João o seu nome, inventou uma outra ferramenta para ao Barulho abafar. Era o Riso, ele dizia, que se mal não faz, bem então fará. No princípio, todos riam assim forçados, todos riam desanimados só para agradar ao menino. Mas depois descobriram que rir era mais fácil que imaginavam e rir fazia imaginar. Imaginavam dias luminosos, coloridos, as árvores cheias de folhas, as abelhas retornando às colmeias, o néctar de flor em flor.

E foram aos poucos e persistentes, exercitando aquele Riso, e transformando o pensamento em positivo cada vez mais. Se reuniam na pracinha da cidade, debaixo da sombra do Carvalho, e riam uns dos outros, de si mesmos e dos animais, que passeavam livremente, meio espantados no começo, por verem aquele sorriso contínuo. Sentiam-se ridículos, é verdade, os habitantes da cidade. Mas sentiam-se jovens, intrépidos, relaxados, e brincavam uns com os outros, e faziam cócegas uns nos outros para o Riso fomentar.

Voltavam para casa cansados, o rosto vermelho, os olhos brilhantes. E nem mesmo na hora da refeição, conseguiam parar o Riso – ele já contagiava. A cidade era assim transformada, de uma cidade comum que vivia nas cinzas, no Barulho Extremo, em uma Cidade Universitária.

As disciplinas estudadas pelas crianças na Escola, levadas em tarefas para casa eram multidisciplinares. Sabiam entre si estudar das mais fáceis às mais difíceis, e retornavam às mais fáceis para melhor aprender. Os adultos começaram a sentir necessidade em retornar aos estudos, para aos filhos ajudar, para aos filhos fazer admirar, do menorzinho ao mais velho.

Mas professora Mariana alertou que não era esse o caminho. Que não deveriam estudar somente para aos outros agradar. Precisavam encontrar um propósito, um propósito original, um sentido essencial, que agradasse a si próprio em primeiro lugar. Para então, aos pouquinhos, às crianças ajudar, aos seus filhos ensinar com o Aprendizado pelo Afeto.

Era o Aprendizado mais eficiente, aquele que perpassa o Tempo, transpõe Espaços e quem recebe carrega para a vida inteira. Ninguém do aluno ou da aluna pode retirar. Quando se entrega um Ensinamento coberto de Carinho, esse Carinho se entranha no Ensinamento, se entranha em quem recebe para nunca mais acabar. A Memória permanece fiel ao Ensinamento, pois com o Afeto se tornaram irmãos. Irmãos gêmeos, siameses, e espelham um no outro o que o Carinho envolveu, o que o Afeto transmutou em ondas de Aprendizado perpétuo.

 

La Città Universitaria**

Furono rubate le mura della città, il Muro Alto non esisteva più. Piantarono giardini comunicanti, scrissero libri per leggerli gli uni agli altri. Era buono quell’inizio, con la speranza nel cuore. Inventarono per il Frastuono Estremo musiche, di quelle che rilassano. Le ascoltavano piano all’inizio, prima e dopo i pasti. Riuscirono a svolgere i compiti più difficili, quelli che avevano bisogno di una concentrazione profonda, usando quelle musiche che quietavano.

Il figlio del sindaco, il suo nome era João, inventò un altro strumento per placare il Frastuono. Era il Riso, diceva, che se non faceva male, allora avrebbe fatto bene. All’inizio tutti ridevano forzatamente, tutti ridevano tristi, solo per far piacere al ragazzo. Ma poi scoprirono che ridere era più facile di quel che immaginavano e ridere faceva immaginare. Immaginavano giorni luminosi, colorati, alberi pieni di foglie, api che ritornavano agli alveari, nettari di fiore in fiore.

E a poco a poco, persistevano nel praticare quel Riso, trasformando il pensiero in positivo, ogni volta un po’ di più. Si riunivano nella piazzetta della città, sotto l’ombra della Quercia, e ridevano gli uni degli altri, di loro stessi e degli animali, che passeggiavano liberamente, un po’ spaventati all’inizio, nel vedere quel sorriso continuo. Si sentivano ridicoli, è vero, gli abitanti della città. Ma si sentivano giovani, intrepidi, rilassati, e scherzavano gli uni con gli altri, e si facevano il solletico gli uni con gli altri per fomentare il Riso.

Tornavano a casa stanchi, il viso rosso, gli occhi brillanti. Nemmeno all’ora del pasto riuscivano a fermare il Riso – che subito li contagiava. La città così era trasformata da una città comune, che viveva sulle sue ceneri, nel Frastuono Estremo, in una Città Universitaria.

Le materie studiate dai bambini della Scuola, i compiti a casa, erano multidisciplinari. Sapevano studiare per conto loro le cose più facili e quelle più difficili, poi ritornavano a quelle più facili per impararle meglio. Gli adulti cominciavano a sentire il bisogno di riprendere gli studi, per aiutare i figli, per farsi ammirare dai figli, dal più piccino al più grande.

Ma la maestra Mariana avvisò che non era questa la strada. Che non avrebbero dovuto studiare solo per far piacere agli altri. Dovevano avere uno scopo, un proposito originale, un senso essenziale, che facesse piacere a se stessi in primo luogo. Per poi, a poco a poco, aiutare i bambini, insegnare ai propri figli l’Apprendimento dell’Affetto.

Era l’Apprendimento più efficiente, quello che trapassa il Tempo, trascende lo Spazio, e che chi riceve, porta con sé per tutta la vita. Nessuno lo potrà togliere dall’alunno o dall’alunna. Quando si dà un insegnamento pieno d’Affetto, questo Affetto si introietta nell’Insegnamento, si introietta in chi lo riceve per non distaccarsene più. La Memoria rimane fedele all’Insegnamento, perché  si è affratellato con l’Affetto, è diventato un Fratello Gemello, siamese, così che si rispecchiano uno nell’altro come ciò che il Sentimento ha legato, ciò che l’Affetto ha trasformato in onda di Apprendimento perpetuo.

______________________________________

foto 5
****

______________________________________

Capítulo de A menina do olho verde. Patricia Gonçalves Tenório. Recife, PE: Raio de Sol, 2016. Primo Premio Assoluto – Libro edito in portoghese – Accademia Internazionale Il Convivio, Outubro, 2017.

** Capitolo de La bambina dagli occhi verdi. Patricia Gonçalves Tenório. Traduzione: Alfredo Tagliavia. Milano, Italia: IPOC, 2016.

*** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em Outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em Outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da prof. dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Doutoranda em Escrita Criativa (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), sob a orientação do prof. dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

**** Possível ilustração de DS Tenório para A menina do olho verde.