I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco

13 a 15 de Outubro, 2017

Auditório Círculo de Ideias – Centro de Convenções, Olinda – PE

XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco

 

Foram 3 dias intensos de Escrita Criativa. Escritores de todo o Brasil e do exterior participaram intensamente do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco. Com as mesas “A importância do ambiente estimulante na Criação Artística”, “Era das narrativas e o herói cansado”, “Quem tem medo da Literatura Fantástica?”, e oficinas do “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”, “Mercado editorial e autopublicação”, “Devaneios Fílmicos, Cósmicos e Poéticos”, “Estimulando a Leitura na Escrita Criativa”, “Oficina de Poesia”, “Oficina de Contos e Roteiros”, contamos com a honra da presença dos escritores e professores Luiz Antonio de Assis Brasil (PUCRS), Lourival Holanda (UFPE), Maria do Carmo Nino (UFPE), Robson Teles (UNICAP-PE), e dos escritores e poetas Adriano Portela (PE), Alexandra Lopes da Cunha DF/RS),  André Balaio (PE), Bernadete Bruto (PE), Cida Pedrosa (PE), Carlos Enrique Sierra (Colômbia), Daniel Gruber (RS), Daniel Perroni Ratto (SP), Elba Lins (PB/PE), Fernando de Mendonça (SP/PE/SE), Guilherme Azambuja Castro (RS), Gustavo Melo Czekster (RS), Igor Gadioli (PB/SE), Luísa Bérard (AL/PE), Luiz Roberto Amabile (SP/RS), María Elena Móran (Venezuela/RS), Patricia Gonçalves Tenório (PE), Sidney Nicéas (PE), Talita Bruto (PE), Valesca de Assis (RS).

Temos a alegria de apresentar trechos de obras de alguns dos participantes dessa Festa Literária que foi o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco!

Que venham outros!

 

Patricia Gonçalves Tenório

 

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Adriano Portela

“Olinda, 07.07.2017

A dor é o estágio da glória e o desabafo é o vômito dos inocentes.

Aqui, neste meu leito de quase-morte, lembro que o meu ardil é a vida e que depois dela todos os meus segredos podem ser jogados na cara da sociedade, assim como os nobres jogam o lixo aos porcos, mas esses resíduos só podem vir à tona se eu te contar e, no futuro, alguém te encontrar e te sugar ao máximo. […]”

(“O Beijo da Morte”. Adriano Portela. In Recife de Amores e Sombras. Recife: Gráfica Flamar, 2017)

 

Alexandra Lopes da Cunha

“[…] Mulheres são sempre casas:

Abrigam em suas fendas,

envolvem em seus abraços,

saciam sedes e fomes,

de seres unos, indivisíveis,

carentes de seiva e açúcar,

famintos ao nascimento. […]”

(“Bífida”. In Bífida e outros poemas. Alexandra Lopes da Cunha. Fotografia: Raul Krebs. São Paulo: Kazuá, 2016)

 

Bernadete Bruto

“[…] Olívia vai crescendo e, quando o tempo se veste de branco, estação que chamamos de Inverno, as folhas caem e a árvore fica sequinha.

Olivia was growing up while nature was getting dressed in white. All the leaves fall from the trees. It is Winter season. […]”

(Trecho de A menina e a árvore. The girl and the tree. Bernadete Bruto. Ilustrações: André Bruto. Tradução: Dulce Albert. Prefácio: Salete Rêgo Barros. Recife: Ed. do Autor, 2017)

 

Cida Pedrosa

“ela lava a calçada

como quem lava o mundo

 

[…]

 

cecília lava a calçada

e a espuma em pedra

é breve morada em seus pés

 

portas se abrem

olhos espiam

a vassoura se apressa

e varre a agonia

vivida durante a noite […]”

(“cecília”. In as filhas de lilith. Cida Pedrosa. Design: Jaíne Cintra. Rio de Janeiro: Calibán, 2009)

 

Daniel Gruber

“porque o mais terrível no amor, meu bem, é que inevitavelmente sempre chega o momento em que você deseja machucar o outro, e era como a euforia das abelhas em volta de um copo esquecido de refrigerante, naquele domingo de manhã, na cama, quando tu violentamente despertou esta coisa dentro de mim, esta coisa da humanidade simbólica que fere o corpo animal com mil desejos incompreendidos, me mostrou que o coração é um músculo que precisa ser exercitado, eu te falei que tudo isso é a maior transgressão desses tempos pós-qualquer-coisa, um instrumento de resistência contra os destinos medíocres da vida, um organismo cego, surdo e sem artérias, motor de uma engrenagem muito complexa, esse sentimento que então nos atravessaria impiedoso, trazendo a força das coisas que fazem sentido e a dor dos prazeres que teríamos que deixar para trás, porque antes de ser platônico, meu bem, nossa paixão era pré-socrática, cheia daquelas certezas vazias que compõem nossa ridícula intelectualidade pequeno-burguesa ocidental, e como a um reizinho impertinente tu me arrancou desse delírio coletivo, dizendo tudo isso naquela manhã de domingo […]”

(“o amor épico”. In O Jardim das Hespérides. Daniel Gruber. Porto Alegre: Daniel Fernando Gruber, 2017)

 

Daniel Perroni Ratto

“O Tempo é efêmero

quando cabe na solidão

 

O Espaço é finito

quando sabe de antemão

 

Que o amor é

o espaço-tempo

além dessa dimensão

 

Maluquices

Viagem ao

Superaglomerado

Perseus-Piesces!”

(“Supercordas”. In Vozmecê. Daniel Perroni Ratto. São Paulo: Patuá, 2016)

 

Elba Lins

“Sintonia

Não é paixão…

Não é tesão…

 

Encontro-te!

E no espelho

Vejo

Meu próprio retrato.

 

Universos concêntricos

Num salto quântico

Atinjo outro nível

Encontro minha TRIBO

 

Encontro-te!

E o que vejo

É um espelho

É o meu próprio retrato.”

(“Tribo”. In Do outro lado do espelho: O feminino em estado de poesia. Elba Lins. Prefácio: Patricia Tenório. Recife: Ed. do Autor, 2017)

 

Fernando de Mendonça

“[…] – (…) Mas, pela primeira vez, sinto que esbarro em algo realmente grande. Sabe estes livros que nos marcam de um jeito especial? Estes que parecem ter vindo com um remetente para nós? Estou até assustada com a pertinência deste para mim.

– Conte-me algum dos contos. O que mais gostou.

– Acho que não consigo. Não é apenas pelo que acontece nele. Vai mais fundo. E aqui eu sei que não estou confundindo gosto com costume, pois já os li, reli, e não me acostumei a eles.

– Aos melhores livros, a gente não se acostuma, mas sobrevive. […]”

(Trecho de 23 de Novembro. Fernando de Mendonça. Recife: Grupo Paés, 2014)

 

Guilherme Azambuja Castro

“[…] O Bebeto.

Mas por que seria famoso eu? Aí eu disse:

– Não sou famoso.

E ele:

– Ah, és… Muito famoso.

Disse isso afagando minha cabeça enquanto entrava no chalé, que é minha casa e de onde eu vi meu pai ir embora num dia calorento: saiu levando nosso carro e eu ali, sentadinho na varanda, os olhos baixos, matando formigas com os chinelos. O motor de repente desapareceu na BR e nunca mais.

Pois aqui ele chegou, o Bebeto, dizendo que eu era famoso. […]”

(Trecho de “O cheiro triste das bergamotas”. In O amor que não sentimos e outros contos. Guilherme Azambuja Castro. Recife: Cepe, 2016)

 

Gustavo Melo Czekster

“[…] Certo dia, Anton Lopez desapareceu. Restaram somente os seus desenhos de homens formados por moscas, obras que, pela simetria e noção do corpo humano, assemelhavam-se aos esboços de Leonardo da Vinci e aos quadros de Archimboldo. A última pessoa que viu Anton Lopez foi o homem que levava a comida uma vez por semana ao sítio. De acordo com a sua versão: “O senhor Lopez estava vestido, o que não era normal, e as moscas estavam dentro da sua roupa, mexendo de um lado para o outro. Às vezes, uma saía da boca, outra do nariz, outra da orelha. Ele não parava de andar e não dizia coisa com coisa”. Infelizmente, a veracidade do depoimento nunca foi confirmada: dias depois, encontraram a testemunha dentro de um valo, coberta de moscas. […]”

(Trecho de Um mundo de moscas. Gustavo Melo Czekster. In O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011)

 

Luisa Bérard

“[…] A luminosidade do dia clareava o ambiente. Os tons azulados dos estofados das duas poltronas, próximas às altas janelas de esquadrias brancas do quarto, agora tinham uma cor vibrante. Os lençóis rendados e as colchas da aconchegante cama de dossel dourada, inclusive os matizes coloridos das flores, diligentemente organizadas num vaso de opalina sobre a cômoda encostada na parede, também estavam bem perceptíveis, em face do adiantado da hora. Não restava dúvida: eu estava terrivelmente atrasada![…]”

(Trecho de Nas montanhas do Marrocos. Luisa Bérard. 1ª ed. Recife, PE: Ed. do Autor, 2017)

 

Luís Roberto Amabile

“[…] O senhor K. seria um sonhador, mas, como sonhava apenas pesadelos, era mais um pesadelador. Podia fazer, o senhor K., esse uso do idioma, agregando palavras, porque o falava de um modo alternativo, sobretudo incomum. Na verdade, não era o seu idioma, e não o era duplamente. O senhor K. pertencia a um outro país, a um outro povo, e apenas por falta de opção, e por coerção, praticava aquele idioma.”

(Trecho de O livro dos cachorros. Luís Roberto Amabile. São Paulo: Patuá, 2015)

 

Patricia Gonçalves Tenório

“[…] Eu fiquei muda, sozinha com as minhas palavras silenciosas. Por que elas não falavam? Por que não manifestavam o que eu sentia, o que eu pedia, meu desejo mais profundo? De tanto pedir caí no sono, ali, na sala de visitas, ali, no colo da babá.

E sonhei com um outro espaço. Onde tudo que eu tocava falava por conta própria e eu não precisava mais falar: a cadeira, o sofá, o tapete reclamava todo passo que eu dava. E o Pedro pulava de alegria, pois não ia mais assustar a tia Clara com as palavras que nem mesmo ele quis falar. As coisas por si falavam, as coisas por nós falavam e todos nos entendiam, babá, a cozinheira, tia Clara, mamãe, papai… […]”

(Trecho de “Alice no espelho”. In Vinte e um/Veintiuno. Patricia Gonçalves Tenório. Madrid, España: Mundibook Ediciones, 2016)

 

Sidney Nicéas

“[…] Um estremecer sacudiu o velho. Não havia mais palavras naquele momento. Ele abriu-se como página. Ela fechou-se em dicionário. Um silêncio d’água ecoou. E persistiu por minutos naquele casebre muito mais simples do que a época que os abrigava – a vida, que ia ficando mais complexa naquela beirada de novo milênio, era contraste com toda a simplicidade do lugar. Mãos a se encostar. Quatro olhos não mirados entre si. Muitos silêncios emitidos que não se tocavam. Ambos numa mudez de nádegas encostadas. Mas toda quietude frágil tente a ruir. […]”

(Trecho de Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos. Sidney Nicéas. São Paulo: Scortecci, 2016)

 

Valesca de Assis

“É do silencio e da perda da voz que se revela / desvela a história do casal Marga e Rudy Treibel, trinta e três anos de casados, moradores de Cruzeiro, uma cidade 50 mil habitantes, pais de Vivian e de de Walter, avós de Renate e de Rudinho (Rude Neto). O enredo tem como ponto de partida o capítulo “Do fim ao começo”, antecedido pelo “Depois do almoço”, texto de abertura, que sinaliza para aquele que é o tema central do quarto romance de Valesca de Assis: a violência doméstica e o silenciamento da(s) vitima(s) femininas – “No melhor dos casos, a menina sentiria, no rosto, a mão ardente do pai. Deus foi muito bom, fazendo-a calar-se a tempo. […] Tinha vontade de gritar a notícia: não morreu […] Então gritou apenas para dentro de si.”

A ponta do silêncio. Valesca de Assis. Porto Alegre: BesouroBox, 2016.

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