“Exercícios literários: Café & Poesia” | Com Célia Medeiros* & Clauder Arcanjo**, entre outros

Cinzas

Célia Medeiros

 

Nessa ânsia desenfreada para desaparecer e reviver

Depois dos sonhos que ficaram antes do pôr do sol

Cerra os olhos, pende o corpo, e em estado latente

Vê-se estática, num estado de deplorável morbidez.

Não tem forças, não consegue sequer mirar o horizonte

Que era cinza e agora é azul vibrante,

Não tem alma, não tem olhos, nada vê

Embora traga um desejo revestido de esperança.

Nada muda, tudo continua como está.

O sol sumiu, a chuva cai, e cresce a sua embriaguez.

Quer sumir por outros campos, por outros tantos caminhos,

Que não precise pisar firme nesse chão, que não se esforce,

Pois todo esforço nesse instante é vão.

Apenas quer alçar voo, e depois de algum tempo, renascer

Como a Fênix, que ressurge das cinzas e volta a viver.

 

Cinzas

Clauder Arcanjo

 

– Foi tudo tão ligeiro…

A fumaça ainda anunciava a força das labaredas.

– Você está preso!

Os olhos lhe ardiam, dadas as cinzas que a tudo cobriam.

Quase dois anos, desde a tragédia até o júri popular.

Hoje, o juiz a anunciar:

– Crime: homicídio premeditado. Trinta anos, em regime fechado.

– Foi tudo tão ligeiro…

 

Remissão

Célia Medeiros

 

Depois que se fez noite em meus dias,

Sob o véu negro do pecado, o meu rosto disfarçou

Aquela lágrima dorida que embaçou o meu olhar.

O pensamento feito um turbilhão

Voou para aquele templo abençoado

Onde me vi aos pés da cruz ajoelhada,

Refletindo sobre a minha vida,

Guiada pelo livre-arbítrio;

Quanto fiz certo e quanto fiz errado…

Ali clamei ao Senhor, nosso Deus!

Ó Pai, bondoso e justo, a Ti peço clemência,

Embora não seja merecedora, pois sou alma errante.

Venha em meu auxílio; perdoa os meus pecados,

Fazendo-me mais leve, consciente e amorosa,

Apagando de minha mente todos os rancores,

E, do meu coração, os desamores.

Como nos ensina o Vosso mandamento

Maior, sobre a lei do amor,

Quando enviastes Teu amado Filho,

Como ser perfeito a ser seguido,

Que se doou por completo para nos salvar.

Concede-me, enfim, a remissão de meus pecados,

Fazendo-me digna de amar e ser amada,

Um ser de luz, por Ti abençoada.

 

Remissão

Clauder Arcanjo

 

– Perdeu a língua, foi?

Na penitenciária, ninguém sabia da sua voz. Apenas, do seu silêncio.

Era o mais antigo prisioneiro. Há quase trinta anos, sempre sozinho, a mão numa fotografia e a outra a debulhar um terço. Infinitas contas. Dia e noite, noite e dia. Na cela e no pátio.

– Perdeu a língua, foi?

 

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* Contato: cely.marry.love@hotmail.com

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com