“Convalescente”* | Magno Catão

autobiografia.

 

Dizem-me sempre que tenho olhos pretos e expressivos.

Não sei por que, se sempre fui míope,

Miro o tempo como se ele tivesse

Um espelho me concedendo meus segredos de alma.

Há um dilúvio estrepitoso no vagar dos meus olhos:

Tenho a mania de ser um perdido inocente.

Não decoro caminhos, continuo encarando-os

Em pontilhados pretos-e-brancos, pretos-e-brancos.

Quando criança, confundia urubus com galinhas negras

Velando o corpo do bicho podre adormecido;

Imaginava as placas Lombadas,

Nas estradas poeirentas do interior,

Prenunciando cidades montanhescas de mesma alcunha.

Aceitei a contragosto que nuvens não eram luvens,

De onde a “luz vem” e passa, translucidando a luz do sol.

Continuo pródigo de luvem, à deriva, perdido de dentro no tempo.

Amo torto, como se o podre fosse um funeral, amo míope,

Amo todo, perscrutando loucuras do meu reflexo.

 

efêmero.

 

Olhei nos olhos do gato,

Dois riscados num fundo acobreado,

Encarando-me de alma lavada.

Se a alma do gato é famélica,

A minha são dois gumes da mesma faca.

Olhei nos olhos dum gato,

E vi minha forma lampejando ingrata,

Desejando seus invólucros mais mesquinhos.

 

Os olhos do gato num fundo acobreado

Denunciando minha sede de pecado.

Se as minhas dores não são mais eternas,

O que dirá dos amores amordaçados.

Meu amor pecaminoso, do gozo e do guincho,

Das guelras grudadas nas minhas grutas,

Do antegozo antevendo os olhos acobreados,

Despeça-se como esse gato mais vagabundo,

Coma as minhas carnes e dê a volta na esquina,

Para nunca mais voltar.

 

borrão.

 

Vejo-me numa grande estrada.

Mas nessa atribulada vida,

Elas são muitas e intermináveis.

Por isso, eu me perco pungentemente:

Sempre vivo no subjuntivo.

Vejo carros conhecidos e fugazes passarem.

Meu olhar, feito flecha, atravessa-os.

Enxergo pelo vidro faces cansadas:

Viagens pelo asfalto cinzento e descuidado

E a extorsão de sorrisos verdadeiros consternam-me.

Deparam-me com pobres criaturas lamentando o passado.

Eu, então, aceno: olhem para mim!, sou eu

Mas eu só pareço um espectro distante.

Ninguém me atravessa o olhar.

Nenhum brilho tinge o meu.

Vou me contaminando pela opacidade.

Vou sobrevivendo ao clima de partidas.

Muitas partidas, e nenhuma parada.

Da beira da estrada, essas pessoas me conhecem

Mas elas não me olham.

Sinto-me um eterno borrão.

 

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Poemas extraídos de Convalescente. Magno Catão. Mossoró: Sarau das Letras, 2017.