“Entre a neve e o deserto”* | Gisela Rodriguez**

1.

Hoje começa a terapia. Quanto tempo?, pergunto como se voltasse para o lugar de onde não saí, e outra vez ouço: o necessário. Uma corrente invisível me prende nessa situação e como um recém-nascido dependo dos mais velhos para sobreviver. Condenado às regras da imensa burocracia por uma vida plausível. Uma guerra invisível, sem baixas nem feridos e sem medalhas, no entanto, com tudo de psicologicamente assustador. Bilhões de pessoas sobrevivem nessa hora. Cada ser humano, um por um, com detalhes de uma intimidade irreconhecível para outros, formando um número absurdo de vidas. Eu também tenho de sobreviver.

Uma bandeira de três cores vibrantes com o emblema patriótico foi erguida no pátio. Imenso orgulho tremulando. Deve ser ano de copa mundial de futebol; neste país ninguém exibe a flâmula senão por motivos de disputa em jogos. Mamãe pergunta se preciso de carona. É um momento importante. Vai definir todas as próximas tardes. Penso em quebrar o vidro do extintor de incêncio, revirar a carteira da sala de aula, fugir da aula de matemática, botar a língua para fora na sala do inspetor; depois fazer uma careta estrambólica, bancar o mal-educado, chutar o lixo no corredor do banheiro das meninas e no dos meninos e seguir porta afora; embora não esteja mais na escola. Digo que sei bem o que me espera, e bebo o café. Forte e quente esse café. Decido ir só e absorver a cidade com suas limitações num golpe apenas. Uma cidade conhecida e desconhecida agora.

 

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Abertura de Entre a neve e o deserto. Gisela Rodriguez. Porto Alegre: Libretos, 2014, p. 7-8.

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