Um conto e um poema de Alexandra Lopes Da Cunha*

Pedido de Natal

A mãe diz: temos sorte de estar vivos. Que espécie de sorte é essa, pensa Anna, cheia de fome, toda ela transformada em falta. Privações, tempos duros, tempos tristes, intermináveis. A sua vida mal começara e parecia já tão gasta: olhava as próprias mãos, cobertas de frieiras, os cabelos a caírem em tufos, os joelhos ossudos. Chega a duvidar que já vivera outra vida, uma vida: com alegrias, comida farta. Lembra-se de que havia bolos, leite, ovos e natas. Geleias, abundância. Até a palavra agora lhe parece untuosa, rica em gorduras, e sente a boca se encher de água, o estômago vazio dar voltas sobre si mesmo e doer. Com os dedos de unhas roídas, escava o solo, à procura de algo para comer. Leva torrões de terra à boca e chora. Quando pensaria, quando cogitaria comer terra? E o reboco das paredes, para acalmar a língua. O inverno piorou tudo. Antes, Piotr conseguia trazer alguma caça: uns coelhos, pombos. Tudo parece haver morrido, pela guerra ou pelo frio.

Frio, frio e fome, duas constantes. Com as mãos cobertas de frieiras, analisa um verme que achou na terra. Cogita comê-lo, pensa que seria fácil fechar os olhos, colocá-lo na boca e mastigar depressa para não sentir. Mas não pode. Ela e Andrezj usavam os vermes para a pesca, para as carpas. Pensa que irá ao rio, levará o verme e, quem sabe, tenha sorte. Quem sabe pesque uma carpa para consumirem no dia de Natal. Terá de suportar a linha entre os dedos, se fisgar o peixe. Hão de doer as feridas, mas a fome dói mais.

Vai até ao estábulo vazio de cavalos, de cabras, de vacas. Encontra a vara de pesca, a sua, ao lado da de Andrezj. Uma fisgada na altura do peito. Lembra-se de anos passados: ela, o irmão a pescar, seus gritos de alegria quando sentia a linha retesar. Olhavam-se cúmplices. Era ali que se iniciavam as celebrações de Natal, com o peixe a puxar a linha.

Caminha arrastando o cabo da vara e o saco de estopa vazio. Os olhos colados no chão. O vento empurra-a para frente, torna seu esforço menor. Não fosse o frio, as poucas roupas que veste, estaria até feliz, mas a falta de alimento, de roupas quentes, a falta que lhe fazem o pai e o irmão, a ausência de notícias deles há tanto tempo, obscurecem o seu espírito. Tem esperança, apesar de tudo. De pescar um peixe. De que, neste Natal, estejam em casa o seu pai e seu irmão.

A barranca do rio já não é como antes. Nada é como antes. Desapareceram as árvores. Encontra carcaças de animais, madeira incinerada. Não percebe nada vivo em lugar nenhum. Não se aproxima muito, mas vê restos de homens. Os restos ainda vestem uniformes, não pode dizer se eram polacos ou alemães, os tecidos perderam as cores. O que era aproveitável: as armas, as botas, os casacos, foi levado pelos vivos.

Ao chegar ao rio, sem esperanças, prende o verme ao anzol, atira-o à água agora turva e pede, não sabe se a Deus, ao Demônio, ao que seja, pede um único presente de Natal; se não for possível ter o pai e Andrezj à mesa, que venha o irmão, que venha o irmão para estar junto dela, junto dela e da mãe, de Maria e de Anton. Haverá o de sempre, os nabos e batatas e, quem sabe, o peixe, se ela conseguir pescá-lo sozinha.

A linha retesa, Anna grita. De alegria e de dor. Esforça-se para puxar a linha, as mãos enregeladas não obedecem. Vai perder o peixe. Grita: Andrezj!

Sente alguém lhe tomar a vara das mãos. A princípio, não reconhece aquela sombra. O quepe cai sobre os olhos, a aba do capote cobre o restante do rosto. As mãos, as mãos tão brancas e frias, o formato das unhas azuladas. O seu irmão.

Imobilizada pela alegria, pela graça concedida, Anna não consegue se mover, não consegue fazer nada mais que admirar a facilidade com que o irmão fisga e traz a carpa à superfície,  liberta-a do anzol sem feri-la e a coloca no saco.

Só então ele a olha. Ou melhor, olham-se os dois. Andrezj veste o mesmo uniforme que levava quando esteve ali pela última vez, há tanto tempo. Seu rosto não mudou, é apenas sua palidez de estátua que denuncia seus sofrimentos de soldado. Isto e as olheiras fundas. Seus olhos, agora turvos como a água, refletem grande tristeza, ou Anna os vê assim.

Anna abraça-o. Não desejava chorar, mas chora. Era tanta a dor a corroer seu peito, que, ao entregar-se a ela, perde o controle das pernas. Abraça-se ao corpo rígido do irmão, chora e grita, chora e soluça. Chora e chora, enquanto ele segura o peixe dentro do saco, teso, incapaz de interrompê-la, incapaz de consolá-la.

Anna estranha a atitude do irmão, mas pensa que ele viu demais nos campos de batalha. Anton já havia lhe dito: um soldado que retorna da guerra fica para sempre ferido. Anton era coxo, perdera parte da perna. Anna sabia que pernas amputadas não mais cresciam. O irmão parecia inteiro, mas talvez lhe faltasse um pedaço. Um pedaço que Anna não atinava qual seria.

Quer levar Andrezj para casa, vamos Andrezj, a mãe há de ficar tão feliz, diz a menina.

Não posso, Anna.

A luz que habitava o corpo da menina abandona-o ante a negação. Por que, deseja saber.

A mãe não suportaria, ele responde. Ela se assustaria, agrega.

Mas havia de ser um susto bom, Anna insiste.

“É impossível”, ele mantem-se firme. “Devo voltar para o meu batalhão. É lá onde devo estar”.

“Deve ser assim, Andrezj?”

“Deve ser assim, Anna”.

“Onde está o seu cavalo? Como chegaste até aqui?”

“Apenas cheguei. Para atender o seu chamado, irmã”.

“Saberás voltar?”

“Eu já estou lá”.

Andrezj entrega-lhe o saco com o peixe. Coloca o capote nos ombros da irmã. Ela quase se perde debaixo de tanto tecido, mas sorri, aquecida.

“Tenha coragem, Anna”.

“Eu terei, Andrezj”.

Ela beija o rosto do irmão, tão frio está que lhe pergunta se não lhe fará falta o casaco, se não vai ser penalizado por voltar sem ele.

“Não me fará mais falta”.

“Quando a guerra acabar, Andrezj, poderás então voltar?”

“Uma parte de mim nunca deixou de estar aqui, Anna”.

Andrezj coloca o quepe na cabeça da irmã e este afunda sobre a pequena cabeça. A menina sorri. Quando o levanta, o irmão já não está mais.

Anna retorna para casa. Anda com dificuldade. Pelo peixe que se debate dentro do saco, pelo peso do capote que leva aos ombros, pelo quepe que equilibra sobre a cabeça. Quando a mãe perguntar como conseguiu: o peixe, o casaco e o quepe. A menina já sabe o que responder:

“Foi Andrezj, mamãe. Meu pedido de Natal”.

 

Patrimônio

 

O que tenho de meu é esta dor

calada e queda,

esta dor silente e funda,

dor fundação,

cimento e pedra,

como os ossos que me sustentam

o corpo

(se não os ossos do meu corpo).

 

É esta dor que me acompanha

desde sempre, irmã-siamesa

ou apêndice supurado,

onipotente,

iluminando, com raios tórridos,

o céu exangue de minha boca

sempre cerrada com um sorriso.

 

O que tenho de meu é esta dor,

somente ela,

apenas ela.

Sou eu, minha dor,

o meu silêncio

de catedral vazia]

e um sorriso de cadeado.

 

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