“Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos”* | Sidney Nicéas**

Prólogo: Um Diálogo para o Fim

Ela abrigava na própria boca um silêncio juvenil. Dandara. Seus ouvidos enchiam-se de senilidade.

– Você acha que conhece a solidão.

Era argamassa que saía de uma fenda. Uma parede em forma de boca, desgastada pelo tempo que só a velhice permite. Era um gotejar que fazia a noite cair mais cedo emitindo sons de despertar. O velho continuou.

– Já fui trovão, menina minha. O problema é que a chuva nunca cessa.

– Já fui sol, velho.

– Quem ousa falar de sol? Não queime os muitos ladrilhos que ainda te restam, menina minha.

– Pensei que você também tivesse nascido luz.

Era só o vento movido pela ânsia da chuva. Hálito refrescante da boca do céu escuro. Era um significativo hiato de vivências que unia o improvável. Cinquenta e um anos de um muro que os distanciava, mas que ali tendia a unir – apesar de tantos tijolos que o pareciam fragmentar.

– Luz…

Foi um sorrir entristecido que escorreu da boca encarquilhada do velho. Juvenal.

– Abre as pernas, menina…

Foi um sorrir encarquilhado que escorreu da boca delicada da jovem. Era mesmo o improvável repetido. Escondido. Vilipendiado. Ignorado. Eram antagonismos afins escrevendo sangue, derramando solidão unida em lençóis encardidos. A língua era o “é”.

– Nunca… ah… Sou…

O alfabeto nunca foi tão trôpego. Era língua. Agora outro “é” foi.

– Sempre… uh… Em mim… Será…

Um estremecer sacudiu o velho. Não havia mais palavras naquele momento. Ele abriu-se como página. Ela fechou-se em dicionário. Um silêncio d’água ecoou. E persistiu por minutos naquele casebre muito mais simples do que a época que os abrigava – a vida, que ia ficando mais complexa naquela beirada de novo milênio, era contraste com toda a simplicidade do lugar. Mãos a se encostar. Quatro olhos não mirados entre si. Muitos silêncios emitidos que não se tocavam. Ambos numa mudez de nádegas encostadas. Mas toda quietude frágil tente a ruir.

– Nunca sou.

– Será, menina?

– Nunca serei. Não há futuro, velho.

– Não mesmo. Somos só um passado que nunca chegará a lugar algum.

Dandara alisou-se.

– Todo passado perdura, menina minha. Teus 20 ainda não te entregam, mas pode chamar isso de futuro.

Juvenal falou com palavras de ventre. E continuou.

– Não se apaga letras assim. Tudo é um assumir de ações.

– Mas eu não queria.

– Isso. Queria. Passado. Não se apaga.

– Mas agora eu quero, velho. Eu quero.

Mãos em forma de barriga. Costas com costas. Palavras tocadas pelo éter.

– Querer é futuro, menina minha.

– O futuro não existe, velho.

– Eu sei…

 

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Prólogo de Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos. Sidney Nicéas. São Paulo: Scortecci, 2016, p. 14-16.

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