“Ocaso: contos de entreluz”* | Ricardo Timm de Souza**

Festa

Tudo estava pronto para a festa. Os travestis, envoltos em trajes aveludados, aguardavam ainda os amigos que chegariam de outra cidade. O bolo de aniversário no centro da mesa; recoberto de chantilly colorido, embora ocupasse muito espaço, parecia muito leve, quase irreal; as garrafas e taças que o cercavam eram os súditos daquele rei de açúcar. Alguns panejamentos, revestindo cadeiras e sofás, disfarçavam a pobreza do lugar. A semiobscuridade reinante – a sala ficava na altura dos porões da construção, sem abertura visível ao exterior – enganava quem procurasse saber a hora do dia; era certamente mais cedo ou mais tarde do que se poderia supor. As lâmpadas amareladas, pingentes de fios negros e precários, emprestavam ao ambiente uma espécie de calma pesada.

O aniversariante estava feliz; como regalo especial, haviam lhe atribuído, nas velas do bolo, mais idade do que realmente tinha, e vagas ondas de ilusória maturidade o invadiam de vez em quando. Conversava-se em voz baixa; os amigos não tardariam em chegar. Eram parte essencial da festa: a festa não estaria completa sem eles.

Finalmente, após muitas horas – a noite certamente já caíra – um dos amigos chegou: apenas ele pudera vir. Era o verdadeiro convidado de honra; sua amizade, preciosa para todos ali e ainda mais para o aniversariante, teria naquela festa o ponto alto de seu reconhecimento.

Coube-lhe assim a honra da noite: cortar o bolo de aniversário. Não foi sem relutância que o fez; mas, ao cortá-lo profundamente, como lhe haviam recomendado, pôde entrever, por entre as ondas de chantilly que desabavam e a massa escura, indefinida, amarelada pelas lâmpadas, algumas pétalas de uma rosa murcha.

 

___________________________________

* Festa é um conto extraído de Ocaso: contos de entreluz. Ricardo Timm de Souza. Porto Alegre, RS: AGE, 2009, p. 31.

** Contato: timmsouz@pucrs.br