“O amor é um lugar estranho”* | Luís Roberto Amabile**

Isso tudo

 

            Nossa, nunca senti um alívio tão grande como ao entrar neste ônibus. O Carlão acabou de morrer, até eu vir pra rodoviária o corpo nem tinha sido liberado. Ainda bem que me livrei da choradeira do velório e do enterro. Porque queriam que eu ficasse, acho que todos queriam, e vieram me dizer pra mudar a passagem. Mudar a passagem uma ova, eu disse que precisava estar em São Paulo no dia seguinte. Compromisso de trabalho. Inadiável. Uma desculpa que sempre funciona, as pessoas no interior ficam orgulhosas de alguém da cidade ser imprescindível na capital. Não se discute com um compromisso de trabalho em São Paulo. Desta vez foi diferente e me pressionaram até o limite.

Culpa do Carlão, isso sim. Ele tinha de morrer bem quando eu estava na cidade? Parece que fez de propósito, só pra me complicar. Mas eu nem quis saber. A verdade é que a morte do Carlão não me dizia respeito, não era problema meu, e se ninguém entendia isso, paciência. Fiz a minha parte: abracei a família e tomei um táxi pra rodoviária. Sob pressão.

“Você não vai mesmo ficar pro enterro?”, insistiam. Não, nenhuma chance, a passagem já estava comprada. “Nem uma passada no velório?”, me encaravam arregalados e sérios. Eu só respirava fundo, apertava os lábios e negava com a cabeça. Eles também apertavam um condenador “Você que sabe”.

Eu que sabia mesmo. Devia pegar o ônibus, isso sim. Não que estivesse apenas fugindo. É que não tinha um motivo razoável pra eu ficar, ficar seria hipocrisia. Odeio velório e enterro, e claro que faria um esforço, como já fiz, se fosse de alguém que eu considerasse. Mas do Carlão? Quanto tempo que não mantínhamos contato? Eu já não fazia questão de vê-lo quando diagnosticaram.

Há uns meses, o Carlão de súbito perdeu os movimentos de um dos braços. No pronto-socorro, acharam que era a coluna, aplicaram uma injeção e o mandaram pra casa. Ele melhorou, porém algumas semanas depois a situação se repetiu. Dessa vez fizeram exames. A coluna estava boa, a coluna estava ótima. O problema era um tumor no cérebro.

Então, com a desculpa de saber se eu tinha recebido pelo correio o convite pro casamento da Silvinha, o tio Jorge me ligou. Falou dos preparativos, que seria uma festa humilde mas animada, confirmou minha presença e tocou no assunto Carlão, ele seria operado, quem sabe eu não fosse visitá-lo antes?

“Se ele pedir eu vou. Acho que ele não pediu e não vai pedir”, eu disse.

“Na situação em que ele está, nem tem condições de pedir”, disse o tio Jorge.

Eu concordava que o Carlão não tinha condições, não por causa da doença. De acordo com o próprio tio Jorge, ele estava consciente. Mesmo depois da operação, falava e devia pedir coisas. Mas não pediria pra que eu fizesse uma visita. Porque se eu fizesse uma visita ele teria de me pedir desculpas, e o Carlão nunca teve condições é de pedir desculpas, nem à beira da morte. Foi o que eu disse pro tio Jorge. E ele respondeu: “Teve aquela vez que ele te deu a mão no Natal e você recusou”.

As pessoas teimam que o Carlão tomou a iniciativa de me cumprimentar numa ceia de Natal, eu realmente não me lembro. É provável que ele tenha inventado e espalhado que me deu a mão e eu recusei. Nem adiantava discutir com o tio Jorge, ele até diria que tinha visto a minha recusa. Eu disse apenas: “Dar a mão não é pedir desculpa”.

“Faz tanto tempo que vocês brigaram. Isso tudo já passou.”

 

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Abertura de O amor é um lugar estranho. Luís Roberto Amabile. São Paulo: Grua, 2012, p. 9-11.

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