“O Jardim das Hespérides”* | Daniel Gruber**

amor épico

 

porque o mais terrível no amor, meu bem, é que inevitavelmente sempre chega o momento em que você deseja machucar o outro, e era como a euforia das abelhas em volta de um copo esquecido de refrigerante, naquele domingo de manhã, na cama, quando tu violentamente despertou esta coisa dentro de mim, esta coisa da humanidade simbólica que fere o corpo animal com mil desejos incompreendidos, me mostrou que o coração é um músculo que precisa ser exercitado, eu te falei que tudo isso é a maior transgressão desses tempos pós-qualquer-coisa, um instrumento de resistência contra os destinos medíocres da vida, um organismo cego, surdo e sem artérias, motor de uma engrenagem muito complexa, esse sentimento que então nos atravessaria impiedoso, trazendo a força das coisas que fazem sentido e a dor dos prazeres que teríamos que deixar para trás, porque antes de ser platônico, meu bem, nossa paixão era pré-socrática, cheia daquelas certezas vazias que compõem nossa ridícula intelectualidade pequeno-burguesa ocidental, e como a um reizinho impertinente tu me arrancou desse delírio coletivo, dizendo tudo isso naquela manhã de domingo, que somos uma geração ainda adolescente depois dos trinta, narcísica e parasitária, tão empenhada em se livrar de compromissos que, quando somos jovens, ainda existe excitação nas aventuras alcóolicas, em estar com pessoas poderosas, ter um emprego melhor, todos os conhecidos parecem legais, até que um dia tu acorda e pensa por que mesmo sou amigo desse cara? E assim o homem moderno vai nascendo para morrer sozinho;

quis te escrever in media res, talvez em hexâmetros dactílicos, mas agora prefiro me desfazer dessa afetação toda, como naquela noite em que decidimos morar juntos, erguer nossa Ítaca, quando todo mundo esperava que fossemos apenas individualistas e gloriosos, como se a vida fosse como praticar rafting/trekking/jumping ou opinar sobre filmes impopulares, e descobrimos que viver a dois é aprender a não mentir para si, tu diria agora que estamos estabelecidos, a prova de que é possível envelhecer num mundo tão instável e raivoso, como se tivéssemos nos esquecido dos deuses que desafiamos, dos oceanos que tentaram nos anular, e agora, quando penso nas tempestades, me amarro ao mastro e fecho os ouvidos contra o canto das sereias;

tu ainda se lembra de como a vontade disso se infiltrou em nós? aquele arrepio incontrolável da atração magnética e diabo a quatro dos nossos corpos, a compatibilidade de feromônios e genes e outras porcarias que o consciente coletivo determinou chamar vulgarmente de química, quando tu subiu a camiseta e me mostrou a tatuagem que tinha acabado de fazer, cujo significado ainda me escapa, que tinha até o curativo pastificado na lateral das costas, e quando vi tuas costelas descobertas, deus do céu, tu tentava disfarçar com uma voz grave e um jeito teatral de demonstrar indiferença, mas naquela noite eu vi teus olhos brilharem;

agora andamos cansados de tudo isso, da casa sempre suja porque não temos tempo de limpar, e quando limpamos só limpamos os lugares usados, todo o resto fica acumulando sujeira, e do ralo do banheiro vem um cheiro como se algo tivesse morrido e se decomposto ali, eu já não aguento mais a gata me arranhando ou miando como se estivesse morrendo quando a gente prende ela na área de serviço para transar, não aguento teus olhos me condenando pelo meu jeito, como se eu fosse um escroto que não estivesse nem aí, porque minha cara de natureza morta não reflete a dificuldade que tenho de demonstrar o que penso e espero de ti, e às vezes o brilho nos teus olhos se apaga e por trás deles resta só um profundo vazio e escuro abismo de decepção e indiferença;

isso me assusta, porque sinto que estou te perdendo para as coisas do dia, para o lapso que sobra das nossas conversas quando estamos juntos e na verdade tão longe, tu diz que não te dou atenção e eu digo que tu não respeita meu tempo, tu diz que sou grosso bruto e eu digo que tu é neurótica, até que um de nós se rende, é inegável o quanto isso é imperfeito e real, e hoje tu tá trancada lá no quarto e grita vai embora! e eu quase morro de felicidade, porque se eu ver o vestido agora, nós corremos o risco de ter algum azar, e percebo que nosso amor nunca deixou de ser homérico, nossos dias tão plenos de atitudes heroicas, cômicas, líricas e trágicas, e tu vai descosturando toda a noite esse sudário, esperando eu regressar adulto, para que o tempo vença as horas em que ficamos cativos nessas pequenas ilhas no mar do silêncio.

com amor,

 

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Primeiro conto de O Jardim das Hespérides. Daniel Gruber. Porto Alegre: Daniel Fernando Gruber, 2017, p. 13-15.

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