“Correr com rinocerontes”* | Cristiano Baldi**

O abismo da existência e o terror infinito de estar vivo e de repente eles retornam à sua vida e para isso basta que o telefone toque no domingo pela manhã e então você tem de tomar decisões. Algumas prosaicas, que envolvem malas, roupas, temperatura em Porto Alegre, e que até podem ser negligenciadas, e outras mais importantes, que certamente serão negligenciadas, e que compreendem coisas como a sua namorada e o seu curso de mestrado. De repente o telefone toca e lhe autoriza a pôr de lado tudo aquilo a respeito do que sua vida adulta lhe cobra responsabilidade e bom senso e lá está você, dentro de um táxi, tentando justificar a sua falta de caráter. Você diz para si mesmo que um bom infortúnio coloca a vida em perspectiva e que às vezes ser um canalha é a única opção. Você pensa nessa mentira, pensa nela e em algumas outras, enquanto um taxista de extrema esquerda exige do Estado maiores intervenções na economia, você pensa nessa mentira e os quarenta minutos que separam sua casa do aeroporto de Guarulhos não são o bastante para convencer a si mesmo de que fez as coisas do único modo que elas poderiam ser feitas.

A verdade é que eu estava sendo um sacana por não avisar Bárbara, não contar o que ocorrera em Porto Alegre. Não explicar que eu tinha que fazer aquilo de qualquer jeito, tinha de deixá-la de qualquer jeito, tinha de deixá-la por algum tempo, talvez algumas semanas. Que não poderia levá-la comigo porque não queria atrapalhar sua vida e seus estudos. Não seria justo obrigá-la a desmarcar com os primeiros pacientes do consultório, conquistados com a tenacidade quase viril de uma feminista de vinte e seis anos. Não poderia fazer tudo isso em nome de algo que era um mal-entendido.

E eu estava definitivamente sendo um irresponsável ao me afastar do curso de mestrado quarenta dias antes da entrega da minha dissertação. O curso de mestrado na principal universidade do país. Um bom curso, sob muitos aspectos, mas que por isso mesmo não deixava abertura para a controvérsia. Longe de ser um filisteu, eu apenas perguntava para onde tudo aquilo me levava. As aulas de Estética, de Teorias da Criação Literária, os seminários de poesia. As colegas feias. As colegas não tão feias, mas lésbicas. O sexo quase inexistente, um deserto de sexo, a impossibilidade do coito, que me obrigavam a andar pelos corredores dos prédios vizinhos, a almoçar em suas lanchonetes, a frequentar aulas de outros programas de pós-graduação. Eu seguia com aquilo apenas por seguir, porque evitava dilemas, porque era mais fácil, mais prático e porque, ainda que para a média das pessoas não significasse muito, para a minha família a academia, e o conhecimento de um modo geral, eram algo a se levar a sério. A arte também o era, sobretudo a ficção, e ainda mais o romance. Mas a antiga diligência acadêmica de minha mãe, e do meu avô antes dela, ainda não me atingira. E, como todo mundo sabe, para escrever qualquer coisa – um livro como este ou uma dissertação de mestrado – para escrever qualquer coisa, é mais importante ser diligente do que alfabetizado.

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Abertura de Correr com rinocerontes. Cristiano Baldi. Porto Alegre: Não Editora, 2017, p. 9-11.

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