Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2017 | Com Bernadete Bruto & Elba Lins

A experiência do mês de Maio, 2017 do Grupo de Estudos em Escrita Criativa é tecer uma comparação entre o ensaio “A Filosofia da Composição” (1846) do escritor, poeta, crítico e editor estadudinense, nascido em Boston, Massachusetts, Edgar Allan Poe (1809-1849), e o Diário dos Moedeiros Falsos (1927), no qual o escritor francês, nascido em Paris, André Gide (1869-1951), analisa a construção do seu único romance Os Moedeiros Falsos (1925).

A criação é inerente ao ser humano, já dizia em Criatividade e processos de criação (1977 in (1987)) da artista plástica e teórica de arte, nascida em Łódź, Polônia, e residente no Brasil a partir de 1934, Fayga Ostrower (1920-2001). Em cada ato, reflexão, verso escrito, pincelada, ou lapidação do mármore, na construção de um romance, o artista enfrenta a tensão psíquica necessária para que exploda a Criação.

Vejamos o que têm a nos dizer, neste mês de Maio, 2017, os escritores e poetas, de hoje, de ontem, de amanhã, André Gide e Edgar Allan Poe, Bernadete Bruto e Elba Lins.

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

 

Meu corvo da sorte

No meio do caminho

Diferentemente do poema

Num repetido fonema

Falando de morte

 Ver um animal de poder

Bem na minha frente

Propiciando-me a sorte!

                                                                                    

O que podia causar horror

Pousava esta alegria 

Em poder até dizer 

Ao invés do nunca

Para sempre

Sempre mais

Mais e mais

Para sempre

 Viva!

(Bernadete Bruto, 01 de Maio de 2017)

 

André Gide e Edgar Allan Poe : dois exemplos de escrita criativa

 

Muitos escritores produzem e acompanham sua produção por meio de algum registro. Analisamos aqui a criação dos escritores André Gide e Edgar Allan Poe.

O escritor André Gide escreveu um romance chamado os Moedeiros Falsos e, ao mesmo tempo, criou um diário enquanto escrevia esta obra: O Diário dos Moedeiros Falsos. É muito interessante acompanhar o desenvolvimento do raciocínio feito por Gide no decorrer do seu diário, que também foi publicado.

Por outro lado, Edgar Allan Poe nos presenteia com um estudo do seu famoso poema “O Corvo” no capítulo “A Filosofia da Composição” do livro Poemas e ensaios. Neste, Allan Poe decompõe sua ideia demonstrando que elaborou o poema nos mínimos detalhes, no sentido de causar o efeito que causa em que o lê.

Observamos duas formas diferentes dos escritores apresentarem o esboço de sua obra. O primeiro escritor parece que foi anotando consecutivamente no seu diário as observações de suas ideias para chegar à construção do livro. O segundo parte do poema já construído e nos informa como ele concebeu a sua obra, passo a passo.

Imagino se esses escritores fossem construtores, nós teríamos com Gide uma descrição detalhada de todo o processo da construção da sua obra e no caso de Allan Poe, teríamos uma obra pronta com comentários sobre como ela foi edificada.

A princípio fico imaginando que temos muito mais riqueza no Diário dos Moedeiros Falsos, que é um processo gradativo do método criativo do escritor e de sua obra.  Pois, ponderaria que no caso de Allan Poe teríamos muito mais uma descrição do autor de como ele formou a ideia de preparar o poema “O Corvo e de que modo a conceber elementos que atingissem ao público, sendo um poema bem arquitetado. Talvez por isso, noto que Allan Poe explana um processo nada próximo à inspiração, contudo de uma construção proposital. O poema é magistral! Na história, na sonoridade, como no prenúncio de sua própria história futura (alguém que perde a adorada e fica sem conseguir deglutir este dor – a perda da pessoa amada).

Com Gide, observamos o sentimento mais presente na organização da sua obra, assim nos sentimos ao ler o diário. Muito embora, penso que, provavelmente, também o diário foi reorganizado em formato a ser publicado, ou talvez pela história que André Gide conta no livro, quem sabe fosse esta a intenção desde o início? O que igualaria os dois no papel de construtores bem racionais das obras aqui analisadas.

No entanto, não há garantias… Ambos nos entregam um trabalho sobre um trabalho, com toda certeza foram elaborados e reelaborados.  Nisso vemos que em ambos havia a preocupação em explicar seu processo criativo. Talvez como forma de ensinamento a outros que pretendam escrever, ou porque era de ambos a profissão de critico literário? Ou na certeza de que seus trabalhos valiam tanto, que seria importante deixar mais essa contribuição sobre a concepção da obra.

Destaco aqui algumas observações de outros sobre cada um dos escritores, com a finalidade de uma opinião diversa enriqueça esta análise.

Sobre Allan Poe, temos entre várias, esta observação de Filipe V. Almeida:

“Nessa obra poética, assim como em seus trabalhos em prosa há um elemento de estranheza que gera o clima de melancolia, medo e suspense. Embora tudo esteja no limiar entre fantasia e realidade improvável, nesse ensaio ele esclarece que o seu intuito é o de nunca ultrapassar aquilo que é realmente possível. No poema ele imagina o estudante dialogando com um corvo que só sabe repetir “nunca mais”, todavia essa disposição do estudante em ouvir as respostas que ele já prevê e fazer perguntas que se encaixem vêm, de acordo com Poe, da “sede por se torturar” e “em parte por superstição”. Ainda assim, ele entende que essa abordagem calculada e distanciada pode comprometer a qualidade artística da obra.”(1)

Sobre Gide temos o comentário de Luiz Horácio Rodrigues:

“Edouard, assim como Gide, escreve um diário. As semelhanças entre esses escritos permitem ao leitor a percepção de um livro dentro do livro. Diário dos moedeiros falsos permite visualizar a construção dos personagens e deixa nítidas as marcas meta-literárias.” (2)

Por fim, sobre o processo criativo dos escritores em geral temos a seguinte observação:

“Não gostaria de afirmar que sempre, mas, às vezes até na contramão, o diário do escritor revela alguma coisa sobre sua postura criativa. Blanchot argumenta que Virginia Woolf  escreve seu diário para “não se perder naquela prova que é a arte, que é a exigência sem limite da arte”. Isso diz muito da poética de Woolf, de seu rigor com relação a sua própria literatura. Mas o diário não explica um romance, por exemplo. A “Gênese do Dr. Fausto” de Thomas Mann, que é um relato sobre a construção da obra, não aumenta nossa compreensão do livro. Nem o Diário dos moedeiros falsos de Gide ilumina a obscuridade da ficção. Ao, aparentemente, tentá-lo, Mann e Gide escrevem novas obras, não explicam as anteriores.”

O certo mesmo é que gostei de ambos os trabalhos, porque cada um me proporcionou um ensinamento diferenciado. Pude ler algo mais sobre eles e sinto que ambos foram muito criativos e meticulosamente artífices de excelentes obras da literatura, portanto estou muito agradecida!

Merci, André Gide! Thank you, Edgar Allan Poe!

 

Texto elaborado em Recife, 9 de Maio de 2017, reformulado em 15 de Maio de 2017 e efetuada correções após a aula em 20 de Maio de 2017.

  1. Almeida, Filipe V. http://www.pantagruelista.com/blog/poe-como-escrever-o-corvo
  2. Rodrigues, Luiz Horácio. http://omundodeligialopes.blogspot.com.br/
  3. Ávila, Myriam. http://qorpus.paginas.ufsc.br/%E2%80%9C-a-procura-de-autor%E2%80%9D/edicao-n-21/entrevista-com-myriam-avila/

 

        OBS: Em cada link tem muito mais!!!!

 

 

Elba Lins

elbalins@gmail.com

Poesias.

Não exigem planos,

Planejamentos, planilhas,

Como num trabalho de engenharia.

 

Ela nasce do impulso,

Vem pronta.

Não aceita correções,

Revisões,

Edições 1, 2, 3…

 

Brota inteira

Brota ligeira

E vive por si só.

(POESIAS 04.02.2004 15:30h)

 

Comparação entre a análise do poema O Corvo de Edgar Allan Poe em A Filosofia da Composição e o processo de construção dos Moedeiros Falsos por André Gide a partir do Diário dos Moedeiros Falsos.

Recife, 17 de maio de 2017.

 

Para atender à solicitação do Grupo de Estudos em Escrita Criativa a partir d’“A Filosofia da Composição” e d’O Diário dos Moedeiros Falsos esboçei as semelhanças e diferenças na forma de escrever de Edgar Allan Poe e André Gide.

Antes mesmo de iniciar minhas impressões gostaria de chamar atenção para um ponto: enquanto no Diário dos Moedeiros Falsos, André Gide vai escrevendo sobre a construção do seu Os Moedeiros Falsos seguindo a cronologia da criação, Poe escreve sobre uma obra já realizada, embora diga que nunca teve a menor dificuldade de relembrar os passos progressivos de nenhuma de suas obras.

Desde os primeiros parágrafos, Edgar Allan Poe deixa clara a importância de que, na criação de um texto ou poesia, primeiramente sejam elaboradas todas as intrigas, antes de se iniciar a escrita. Daí devem se direcionar o enredo e os fatos de tal forma que seja atingido o fim projetado.

“Nada é mais claro do que deverem todas as intrigas, dignas desse nome, ser elaboradas em relação ao epílogo, antes que se tente qualquer coisa com a pena. Só tendo o epílogo constantemente em vista, poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de consequência, ou causalidade, fazendo com que os incidentes e, especialmente, o tom da obra tendam para o desenvolvimento de sua intenção.” (Ref.3, pág.101).

André Gide por sua vez, fala logo de início que tem muita matéria para um livro e por este motivo fez o Diário. Pelo que fica claro Gide vai escrevendo sobre vários assuntos, para só depois encaixá-los ou não no romance.

 “Acredito que haja matéria para dois livros e estou começando este caderno para tentar deslindar os elementos de tonalidade demasiado diferentes. ” (Ref.4, pág.18).

Embora a princípio estas duas colocações não pareçam tão divergentes, vamos observando as diferenças a partir das diversas colocações dos dois autores.

Sobre a condição de analisar a construção de uma obra, Poe afirma não ter o menor problema e escolhe “O Corvo” por ser mais conhecida e diz que nada na sua composição foi obra do acaso ou intuição. Afirma que a construção do poema foi planejada com rigor matemático que o levasse ao final, ao clímax esperado. Para o resultado perseguido, pouco houve de insight ou inspiração, mas muito esforço e pesquisa.

“… não se deve encarar como falta de decoro de minha parte, o mostrar o modus operandi pelo qual uma de minhas obras se completou. Escolhi “O Corvo”, como mais geralmente conhecida. É meu desígnio tornar manifesto que nenhum ponto de sua composição se refere ao acaso, ou à intuição, que o trabalho caminhou, passo a passo, até completar-se, com a precisão e a sequência rígida de um problema matemático” (Ref.3, pág.103).

Edgar Allan Poe chega ao ponto de fazer uma cronologia dos aspectos considerados na elaboração do poema (Ref.3, pág. 103 a 107) de modo a obter o efeito desejado:

A intenção – compor um poema que agradasse à crítica e ao público;

A extensão – ele optou por uma extensão de cerca de cem versos e o poema ficou com cento e oito versos;

Uma impressão ou efeito – A beleza como efeito, para a excitação ou elevação agradável da alma;

O tom – Escolheu a Tristeza, pois entende a melancolia como o mais legítimo dos tons poéticos;

– Um efeito artístico agudo, uma nota-chave, “um eixo básico sobre o qual toda a estrutura devesse girar”– escolheu o Refrão /monotonia do som/refrão breve/refrão sonoro/ uma única palavra, Never More (Nunca Mais). Com esta combinação de elementos ele decide por usar como motivação dois amantes afastados pela morte da jovem, além da melancolia e do lúgubre representado pelo corvo para traduzi-los na poesia planejada.

Com as decisões tomadas acima, Poe tem em mãos todas as ferramentas e cria o poema a partir do final “por onde devem começar todas as obras de arte”.

Enquanto Poe afirma sem pudor todo um controle sobre a obra, Gide vai anotando tudo o que surge como possibilidade, mas se mostra indeciso da atratividade do assunto quando se aproxima o momento da execução da obra.

“Sempre chega um momento, que precede bem de perto o da execução, em que o assunto parece despojar-se de todo atrativo, de todo encanto, de toda atmosfera; (…) ao ponto de que, desapaixonados dele, amaldiçoamos essa espécie de pacto secreto ao qual estamos presos, (…). Gostaríamos de abandonar a partida…” (Ref.4, pág.21).

Enquanto Poe caracteriza sua poesia com um caráter de precisão matemática, vê-se na construção de Guide uma certa organicidade, onde o material coletado por ele vai se transformando, se moldando ao texto final como se fosse um organismo vivo. Tanto que em certo ponto ele coloca no seu diário:

“O livro, agora parece às vezes dotado de vida própria; dir-se-ia uma planta que se desenvolve, e meu cérebro não é mais que o vaso cheio de terra que a alimenta e a contém. Até me parece que não é conveniente tentar ‘forçar’ (em parênteses na referência 4) a planta; que é melhor deixar seus brotos se incharem, as hastes se estenderem, os frutos se adoçarem lentamente; pois que procurando antecipar a época de maturação natural, compromete-se a plenitude do seu sabor. ” (Ref.4, pág.89 e 90).

Para se ter uma ideia do caráter orgânico e não definitivo do projeto de Guide para os Moedeiros Falsos relaciono algumas colocações feitas ao longo do diário:

– Mesmo tendo iniciado o projeto do livro anotando cenas, diálogos, personagens, que podem vir a ser aproveitados no romance, alguns pontos não são a princípio definidos por Guide, como a época da ação,

“Por certo não é oportuno situar a ação deste livro antes da guerra, e incluir nele preocupações históricas; não posso ao mesmo tempo ser retrospectivo e atual. ” (Ref.4, pág.18).

– O personagem Lafcadio não chega a ser usado no romance, entretanto as suas características e até situações anotadas vão ser usadas para compor mais de um personagem.

– Caracterizando a constante otimização do seu romance

“Profitendieu deve ser redesenhado completamente. Não o conhecia suficientemente quando se lançou em meu livro. Ele é muito mais interessante do que eu sabia. ” (Ref.4, pág.98).

Finalizo com os mesmos argumentos usados no seu início. Tendo em vista que a análise feita por Poe é posterior à obra, na minha percepção ficou mais fácil para ele colocar certas peças, ou as peças certas, no quebra-cabeça. As anotações de Guide por outro lado, são feitas durante o processo, o que dá mais legitimidade ao registro, onde se consegue captar, com o fervilhar de sua mente criativa no dia a dia, durante a preparação e execução da obra. Entramos em contato com o que despertou seu interesse, com as suas expectativas sobre certa cena escrita que muitas vezes nem será utilizada ou será de uma forma diversa da planejada. É como ter à sua disposição muitas peças de quebra-cabeça com características tais que podem ser usadas em diversas posições, até mesmo pelo lado contrário, ou podem até mesmo ser subdivididas, de modo a dar uma melhor imagem ao quadro.

A partir de tudo que já foi colocado eu diria que Poe privilegia a FORMA enquanto Gide privilegia o CONTEÚDO. Poe planeja a forma ideal e vai inserindo o conteúdo.  Gide vai coletando/esboçando o conteúdo para dar posteriormente a forma ao romance.

 

Referências:

 

1  –  “O Corvo” (Edgar Allan Poe). Tradução Fernando Pessoa em Fernando Pessoa – Obra Poética – Editora Nova Aguilar. Páginas 631 a 633.

2 – “O Corvo” (Edgar Allan Poe). Tradução de Milton Amado.   http://www.casadobruxo.com.br/poesia/e/edgar06.htm.

3 – A Filosofia da Composição – do livro Poemas e Ensaios de Edgar Allan Poe. Tradução Oscar Mendes e Milton Amado. Editora Globo.

4 – Diário dos Moedeiros Falsos – André Gide. Editora Estação Liberdade.

5 – Os Moedeiros Falsos – André Gide. Editora Estação Liberdade.