A automedicação na prática | Mara Narciso*

21 de maio de 2017

A prescrição de medicamentos é ato exclusivo do médico e dentista que são obrigados a fazê-lo de forma legível e sem rasuras. Automedicar-se, isto é, sem receita médica é rotina corriqueira dos brasileiros, sendo comum se ter uma farmacinha no banheiro (o pior lugar para isso). No tempo em que “remédio não vencia”, os armários tinham medicamentos para dor, febre, diarréia, má digestão, colírio, gotas para nariz, linimento, mercúrio cromo e Mertiolate. Não havia regulamentação da propaganda de remédios e o rádio, em sinal de progresso, subentendendo-se que “povo medicado é povo adiantado”, explicava as vantagens das Pílulas de Lussen (vias urinárias), Regulador Xavier (menstruação: Número um, excesso, Número dois escassez) e Vick Vaporub.

Chegaram as regulamentações, lotes, prazos de validade, bulas detalhadas com indicações, contra-indicações, modo de ação, dose, interação medicamentosa (remédios que não combinam entre si) e os efeitos colaterais, citados mesmo quando ocorre um em um milhão, entre eles podem-se ler “morte súbita”. Ainda assim, o exagero é marcante. Há médicos que mandam ler a bula, outros proíbem a leitura. Tem cliente que desiste do remédio e outros ignoram os riscos. Muitos estão doentes e sem diagnóstico, enquanto outros tomam remédios de forma errada ou sem necessidade/eficácia.

O mercado de medicamentos movimenta bilhões, sendo que um novo medicamento demora anos para ser comercializado. A patente é quebrada após 20 anos, quando o genérico pode ser produzido, e durante este período o laboratório cobra o que quer, enquanto cria planos de desconto. Cobrando menos não tem prejuízo, então, por que não generalizar o menor preço?

Correm na internet informações de que o lucro abusivo e a ganância dos Laboratórios Farmacêuticos impedem a divulgação de formas alternativas de tratar e curar. Muitas dessas conversas são falácias, deixando o doente inseguro.

A TV e a internet trazem excessivas informações sobre doenças, exames e medicamentos, mas elas também espalham opiniões como se fossem estudos científicos. Dentro da Medicina há correntes divergentes, enquanto grupos de consenso buscam uma conduta comum. Nessa guerra, acuado, o médico pode perder, algumas vezes agarrado às suas próprias crenças. O cliente mais estudioso acaba levando o profissional às cordas e lhe dando bordoadas, o que o obriga a se atualizar. Por outro lado, notícias mal escolhidas e em profusão podem gerar pânico.

Além das falsas verdades e apavoramento, o prato cheio é o tratamento da obesidade. A toda hora surge notícia de droga milagrosa, para a pessoa emagrecer sem fome, ginástica, esforço ou sacrifício. Comercializadas no exterior via internet e pelos riscos, proibidas pela Anvisa, são mais caras por ser sem receita. Muitos embarcam nessa aventura, depois a medicina tradicional tenta reverter as complicações. No ramo de rejuvenescimento a lista de milagres não tem fim. Em relação aos remédios para outras finalidades, muitos têm uma sugestão de amigo ou parente, sem contar com as mudanças que balconistas de farmácia fazem.

Outro desastre são os remédios controlados, especialmente os viciadores de tarja preta. A ação deletéria do Clonazepam – Rivotril®, anticonvulsivante não danoso por si, mas sim pelo mau uso, tem ação ansiolítica, relaxante e no sono, merecendo destaque pelo baixo preço, quantidade de viciados e manutenção da dependência por médicos não psiquiatras. Acontece também a tolerância, com necessidade de doses cada vez maiores. Em poucas semanas, a dose padrão, que é de cinco gotas, leva ao vício e a retirada rápida causa crises de abstinência.

Pessoas idosas estão tomando 20/30 gotas de Clonazepam há 20/30 anos, e mostram perda parcial da inteligência, raciocínio e capacidade de memorização. Mesmo diante da recusa do médico que não fez a 1ª receita, alguns dependentes exigem uma nova prescrição em talonário azul. Tenta-se reduzir esse abuso, mas, como “são apenas algumas gotinhas” a orgia continua.

 

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