“Semiose poética”* | Clauder Arcanjo** [et al.]

As imagens surgiam frente a mim, e eu não conseguia sequer respirar. Como se com receio de que aqueles “flagrantes” do poeta-fotógrafo se espantassem com a intromissão de qualquer sinal de “outra vida”.

Alumbrado, eu batia as pálpebras dos olhos, a demonstrar que me encontrava em vigília de êxtase, mas não suprimido da seiva do humano, do que nos singulariza como demasiadamente belos-humanos.

Em seguida, voltei a circunvagar pela casa, e as fotografias, em flashes de preto e branco, relampejavam por entre os meus pensamentos. A memória, cativa das fotos, se intrometia diante da minha visão, ferrando meu juízo, inquietando todo o corpo.

Quase febril, sentei-me diante do computador, e a tela vazia a se borrar de medo do meu verbo. Como, não sei, num caudal de claro e sombras, o verbo se apresentou: tímido, apático, tosco e roto no mais das vezes. Como se a “arte” do escritor maculasse a lírica (in)finitude daqueles instantes revelados (e eternizados).

Contudo, o mister de escrevinhador é ofício de fanatismo. Sim, fanatismo de não querer mudar de ideia, nem muito menos de mudar de assunto. O coordenador do exercício a cobrar-me e a instigar-me a cumprir com o fatal compromisso: apresentar minhas “revelações textuais” do que, antes, instantes antes, eram imagens.

Quis desistir de tudo, defender (com unhas e dentes, contudo sem verbo) que a tarefa de que me (en)carregaram era missão para algum deus do Olimpo encarnado.

Tranco-me no quarto, dispo-me de todas as vestes e tento dormir: vã tentativa de fugir de tudo, de me exilar no escuro profundo da noite longa e vazia. Qual o quê!… A madrugada dispõe-me um laboratório de inquietações, tal qual uma exposição fotográfica (diria dantesca, caso não se traduzisse no sublime) contínua. As dezenas de imagens surgem e ressurgem, ao tempo em que detecto que algumas reminiscências pululam na lente do juízo.

Suado, levantei-me e passei a conspurcar palavras, versos e sentenças (?) no meu computador.

Salvei (e salvei-me?) tudo. Com pouco mais, entreguei-me à paz dos alumbrados.

No crepúsculo, as imagens acalentavam-me no colo do novo alvorecer, enquanto o verbo enfiava-se por entre os espinhos de êxtase da cândida noite repartida.

Quando duas artes se aproximam, aprendi, há sempre um parto de luz, alumbramento, inveja, mistério e dor.

________________________________________

* Semiose poética. Ângela Rodrigues Gurgel… [et al.]. Mossoró: Sarau das Letras, 2017.

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com