Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2017

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Um mês e parece um ano… Quanto aconteceu desde o último encontro do Grupo de Estudos em Escrita Criativa… Novas participantes. Novas leituras e inquietações.

Seguimos no rastro da Crítica Genética com a intuição de quando investigamos o nosso próprio processo criativo nos abrimos mais para investigarmos o do outro – assim como o cisco no olho do irmão que “vemos”, ao invés de “enxergarmos” a trave em nossos olhos nublados pela vaidade e prepotência, tão comuns nos escritores, nos artistas de uma maneira geral… Mas, principalmente: para melhor nos conhecer e sermos mais conscientes na nossa escrita.

No mês de abril, nos detivemos no esboço. O esboço que encontramos em O museu imaginário (1965), do escritor francês, nascido em Paris, André Malraux (1901-1976). Descobrimos que, além do Museu Imaginário ser aquele que insere obras desconhecidas em um contexto mais abrangente, o esboço, em certas obras, é infinitamente maior do que as obras ditas finalizadas. Outro teórico que analisa o esboço e que podemos acrescentar às nossas pesquisas chama-se Louis Hay, quando, em “Autobiografia de uma gênese”, investiga a gênese passo a passo de Os moedeiros falsos, do escritor francês, nascido em Paris, André Gide, a partir do seu Diário dos Moedeiros Falsos.

É com esse desafio que as participantes do Grupo de Estudos em Escrita Criativa “por vir” apresentam seus questionamentos sobre o próprio processo criativo, nessa tentativa de conciliação entre a Teoria e a Poesia, a Crítica e a Ficção, a Vida e a Arte, tentativa que acredito ser alimento à Criação.

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

CRÍTICA GENETICA DE TEXTO PRODUZIDO PARA O GRUPO DE ESTUDO DE ESCRITA CRIATIVA

Um texto são palavras imobilizadas no papel pela química da tinta.

O visível é apenas uma linha discreta que sugere o invisível,

o sem nome, o que não pode ser dito.

Estórias são como poemas. Não são para serem entendidas.

 (RUBEM ALVES in Lições de feitiçaria)

Passaremos a analisar, com base na Critica Genética, o primeiro texto que produzi para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa, Jornada Rumo à Poesia da Vida, cujo esboço apresentamos abaixo:

jornada rumo a poesia da vida .cg_1 (1)

jornada rumo a poesia da vida .cg_2

jornada rumo a poesia da vida .cg_3

 

Observa-se que, no primeiro momento, após a ideia surgir em mente, ela foi transcrita para um caderno de anotações. Em primeiro lugar, nota-se o parágrafo inicial escrito com um tipo de caneta, para no seguinte ser escrito com outro  (provavelmente pela facilidade de escrita com caneta de ponta mais fina, a preferência da escritora). O que recordo é que o texto foi escrito num só momento. Nota-se que o titulo foi escrito após o encerramento do texto, pois a cor da caneta revela esta situação e é comum acontecer esta dinâmica no meu processo produtivo. As alterações observadas no texto são seguramente fruto de uma segunda leitura, reorganizadas em um segundo momento, inclusive aquela marcada por um asterisco (também me recordo desta ocorrência).

A elaboração do texto apresentada acima é indicada por Roberto Zular (1).

“Essas interferências entre um sistema e outro, da mesma forma que o diálogo entre texto e pensamento, entre notas de leitura e obra lida, embarcam o pesquisador em uma nova aventura: a estética da criação. Porque, ao comparar dois processos, já não estamos estudando o processo de criação de uma obra literária ou artística determinada. Estamos tentando encontrar matrizes da criação, ou diferenças, procurando entender o funcionamento dos processos criativos como um todo.”

Partindo desta análise, podemos constatar as palavras que foram trocadas, corrigidas, substituídas ou até mesmo suprimidas e podemos entender o processo criativo do escritor, como diz Cecilia Moreira Salles (2):

“O foco de interesse, portanto, é o valor que o artista dá aos diversos momentos da obra em construção, levando a optar por esta ou aquela versão. Ficamos conhecendo, assim, os valores (ou alguns valores) estéticos daquele artista que conduzem a construção de suas obras e não os valores do crítico.”

Ou seja, ela (2) afirma que: “O papel do crítico genético é, portanto, acompanhar o processo criador a partir de uma determinada perspectiva crítica, na busca por explicações sobre o ato criador.”

Afirmação confirmada com o primeiro olhar sobre o texto que analiso, quando me debruço sobre a observação do texto escrito e suas rasuras, fica aqui bem exemplificado quando Cecília (2) diz:

“Além disso, o crítico genético vê que o processo criativo não é feito só de insights inapreensíveis e indiscerníveis, como romanticamente alguns gostam de pensar. Há, sim, esses momentos sensíveis da criação, aos quais não temos acesso; momentos que são fonte de ideias novas, ou seja, momentos de criação. O crítico genético assiste à continuidade, no fluxo do processo criativo, desses instantes iluminados. A pesquisa genética concentra-se na continuidade do pensamento que se vai desenvolvendo em direção à concretização desses momentos de descoberta.”

Visto isso, passamos a analisar o texto digitado, percebendo que já é fruto de uma nova elaboração, decorrente das correções efetuadas da leitura em grupo, e ação da própria digitação que proporciona as correções devidas. Esta é a vantagem de fazer uma análise critica sobre uma obra própria. Poder recordar de algo que influenciou o texto e não se encontra registrado no papel. Talvez por isso, deduzo que num estudo de outro autor, fosse interessante uma entrevista sobre o seu processo criativo, antes de proceder à análise.

No caso em particular desta análise, houve o texto anterior escrito à mão. Muito embora não havendo, também se poderia pelos recursos da informática observar as modificações sofridas no texto digitado conforme bem explica Philippe Willemart (3)… 

“Destaca também o objeto da crítica genética que não é necessariamente o que antecede a obra, mas os processos de criação e, enfim, ressalta o lugar essencial da crítica genética na era do computador, já que o disco rígido mantém todas as mudanças provocadas pelas rasuras ou substituições se tiver o software adequado.”

Com relação ao processo histórico de nosso texto, notamos que foi digitado com data de 28 de julho de 2016, época em que foi produzido manualmente, pois a escritora tem o costume de colocar a data que realizou a produção escrita. O arquivo digital está salvo com a data de 20 de agosto de 2016, data em que foram efetuadas as últimas modificações do texto conforme veremos a seguir, podendo observar que houve um acréscimo de um pensamento antecedendo o texto, pensamento que foi incluído no sentido de enfatizar o dom de contar uma história e também foi modificada a ordem do título do texto ao final, modificação sugerida pela organizadora do grupo de estudos. Eis o texto final:

“O dom essencial da história tem dois aspectos: que no mínimo reste uma  criatura que saiba contar histórias e que, com esse relato, as forças maiores do amor, da misericórdia, da generosidade e da perseverança sejam continuamente invocadas a se fazer presentes no mundo .

(Clarissa Pinkola Estés in O dom da história)

 

“Eram uma vez palavras mal feitas, desordenadas à procura de um significado próprio que lhes concedesse uma estética ideal no profundo vazio da caneta e do papel submetido ao intrínseco inconsciente do Escrevinhador.

Um dia, a mente do Escrevinhador de tanto rodar à cata do ideal, mergulhou no universo íntimo das palavras, pronto para o desafio lançado pelo mundo exterior e, de repente, foram surgindo todo tipo de palavras!

As primeiras vieram manifestando-se no peso do negativismo assim: ”não sei!”, “não vai dar certo!”. Não! Não! Eram palavras que voam daquele universo esbarrando de encontro à mente do Escrevinhador.

Por algum tempo foi dessa maneira, até que timidamente foram surgindo alternadamente as palavras estrelares. Apareciam como luzinhas fracas, contudo de um brilho intenso a piscar e transformar-se em palavras coloridas, brilhantes que foram aumentando sua irradiação, aumentando, aumentando até capturarem aquelas cheias de negativismo no laço da verdade que lhes dizia: “vocês são mera ilusão”! “Por trás tudo é bom, belo e afirmativo!”

A partir daquele vislumbre consciente, como que por encanto, as palavras negativas, Puff! Sumiram! Podendo o Escrevinhador dizer com firmeza: “eu agora digo sim! Sim às palavras boas, criativas”. E foi nessa vibração que as palavras boas, as mesmas que os indígenas chamam Porã Hei, desceram em forma de um cocar multicolorido coroando a imaginação do Escrevinhador.

Daí então ele escreve cheio de energia palavras que brilham no papel. Não sabe ainda que essas palavras se organizam direito para fazer a prosa, no entanto, há algum tempo, vive cheio de alegria porque encontrou um caminho na vida e toda a sua poesia!”

(Jornada rumo à poesia da vida – Bernadete Bruto,- 28/Julho/2016)

Verificamos ainda que o texto foi digitado em uma fonte imitando a letra cursiva, no sentido de dar uma personalidade maior ao texto e aproximá-lo mais do leitor (torno a confirmar esta ideia). Tudo isso é objeto da Crítica Genética.

Da mesma forma poderíamos acrescentar à análise algumas observações da grafologia, no sentido de enriquecê-la. Para ficar menos tendenciosa a minha análise, foi solicitado a outra pessoa que identificasse as informações grafológicas  referenciadas na Internet (4). Assim a pessoa constatou haver uma pressão média na minha escrita, revelando uma pessoa relativamente calma e centrada (naquele momento, observação nossa). Também, ainda por esse motivo, há indicação de que a escritora pode ter uma boa percepção ou memória. Foi identificada uma leve inclinação para a direita no texto escrito, indicando que a escritora está ansiosa para escrever ou escrevendo de maneira rápida e enérgica (concordo com a maneira rápida). E em relação ao espaçamento do texto escrito, no caso, há um bom espaçamento entre as palavras, fator apontado por alguns grafólogos como indicativo de pessoa que demonstra pensamentos mais claros e mais organizados. Essas observações da grafologia podem servir como mais um estudo para contribuir à Crítica Genética, mas esses indicativos devem ser utilizados com muita ponderação, pois como o estudo informa, trata-se de uma indicativo, não uma certeza.

Inclusive, porque há uma tendência de no futuro tudo ser muito mais digital, havendo mais facilidade de investigar as modificações dos textos digitados, assim como destaca Philippe Willemart (3):  

“A primeira etapa de qualquer estudo genético com manuscritos – decifrar, datar, classificar e transcrever de um modo legível os textos – será dispensável. Nem precisará do estudo das filigranas, da análise da tinta e do papel para ajudar na datação das versões.”

No entanto, ainda se faz necessário este estudo para compreender melhor o processo criativo, pois no caso em particular, ainda houve o texto escrito.

Por fim, verifica-se com esta análise que, ao procurarmos seguir o raciocínio sugerido pelos geneticistas das palavras, que é o método de destrinchar o texto escrito e digitado, constatamos que na Critica Genética a real importância é o que diz Almuth Grésillon (4):

“Não é a psicologia do autor nem a biografia da obra que importaria narrar, mas é um antetexto, com o conjunto das marcas conservadas, que se deve estabelecer. A partir de então, o geneticista, assumindo sua própria subjetividade (portanto sem procurar imitar a do escritor), construirá hipóteses sobre a trajetória escritural do processo em questão.”

O que posso afirmar ao final desta análise, é que foi extremamente interessante observar na prática o que a teoria indicava. Comprovar na prática muitas das observações da Crítica Genética, o que possibilitou um entendimento muito melhor da parte teórica e um conhecimento do que seja Crítica Genética. Além de possibilitar outro olhar sobre mim, do meu processo criativo. O resto foi puro divertimento! Até as três frases de Rubem Alves, propositalmente escolhidas e apresentadas na abertura desta análise, brinca com tudo que foi dito. Como agora, ao assinar este texto nesta data, corroborando minhas conjecturas, além de ter arquivo digital como minha testemunha.

Recife, 1º de Abril de 2017.

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  1. Zular, Roberto. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-106X2003000200012
  1. Salles, Cecilia Almeida. Crítica genética: fundamentos dos estudos genéticos sobre o processo de criação artística. 3ª ed. revista. São Paulo: EDUC, 2008.
  1. Philippe Willemart: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-106X2008000100010
  1. Grésillon, Almuth: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141991000100002
  1. http://pt.wikihow.com/Analisar-Caligrafia-(Grafologia)

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

DA LOUCURA –

Análise a partir da Crítica Genética

 

A proposta do GEEC para este mês é elaborar a Crítica Genética de um pequeno texto ou poema.

 

Algumas vezes a gênese de um texto e em especial dos poemas,  acontece na cabeça do escritor e já vai tomando  corpo, antes mesmo que se pegue o lápis ou computador. Eles são construídos, quase que completamente, a partir de uma ideia ou frase que surge não se sabe de onde. Depois que se  passa para o papel ou digita-se no computador, alterações julgadas necessárias vão sendo inseridas no texto original. Outras vezes já se inicia a digitação ou a escrita a partir da primeira fagulha que chega à mente. Rosa Monteiro em A Louca da Casa faz referência ao processo de criação que acontece com todo ser humano e suas lembranças, “É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça”. Sobre a Crítica Genética na construção de seus textos identificamos na pág. 12 “Já redigi muitos parágrafos, inúmeras páginas, incontáveis artigos (…) na minha cabeça vou deslocando as vírgulas, trocando um verbo por outro, afinando um adjetivo”.

 

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Escolho fazer a Crítica Genética do poema Da Loucura, escrito inicialmente como prosa, a partir da leitura do livro O Amante, de Marguerite Duras.

 Após concluir o texto manuscrito, marquei algumas palavras para escolha e substituição conforme assinalado na revisão 0:

Na parte do texto “…mas sem saber que era o falso Amor…” , fiquei inclinada a substituir mas por e, mas não o fiz e alterei para “…mas sem saber que ele era o falso Amor…”.  Fiz esta mudança para dar ao sujeito (falso Amor) mais personalidade.

Marquei vários verbos (perdia, deixava, suplicava, mendigava, se tornava, deixaram, traziam, duraria e fizesse) para decidir se alteraria o tempo verbal e na maior parte deles optei por uma ideia de término, de passado, de finalização e assim substituí o pretérito imperfeito para pretérito perfeito.

No caso específico dos verbos suplicar, mendigar deixei no pretérito imperfeito dando uma ideia de um calvário, e tornar deixei no pretérito perfeito fechando o resultado das duas ações acima.

As mudanças no texto original (rev. 0) foram feitas diretamente no computador mas incluí a revisão 1 para deixar mais didático as várias alterações que trouxe para a versão final digitada.

A revisão 1 nos mostra como ficou o texto a partir das decisões tomadas acima. Vale ressaltar ainda que :

O texto foi criado inicialmente como prosa mas alterado para poesia (ou prosa poética) para dar melhor ritmo na leitura.

Substituí “A partir daí já não era mais ela” por “A partir daí ela não era mais a Solidãopara caracterizar a situação da personagem antes de se envolver com o Amor.

Retirado do texto “se permitir”, “agora” e feitas mais algumas pequenas alterações para otimizar o poema.

 

“A Solidão encontrou o Amor e sem saber que ele era o falso amor, se deixou seduzir e ser invadida pela Paixão.

A partir daí, ela não era mais a Solidão, era um ser apaixonado, escravizado,

Que por medo de perder o estado de graça, de cair na desgraça, se deixou massacrar,

Se fez dependente, de uma palavra, de um gesto…

Suplicava amor,
Mendigava paixão,
Se tornou loucura.

E onde ficou seu orgulho, que a deixava aqui, ouvindo impropérios

Que não lhe permitia fugir da vergonha, da loucura,

De percorrer ruas vazias em busca do que pensava amor.

Ela agora trazia no corpo e na alma as marcas deste Amor/Desamor.
Que durou dias, meses, anos…
Até que a força do hábito a fez optar

E mudar outra vez o seu nome, para Solidão.”

(“Da Loucura” –
Elba Lins
02.01.2017
Durante a leitura de O Amante, de Marguerite Duras)