Luís Augusto Cassas* | “A Poesia sou Eu”**

Pensão

 

Habitam comigo há anos

no quarto escuro de mim

dividindo o aluguel

destas trinta e três vértebras

(usando o mesmo banheiro

prato talher e cadeira

palitando os seus molares

logo após a sobremesa)

um estudante de Letras;

um boêmio que recita

Lorca; um funcionário público

que sofre dores nos rins;

um cozinheiro que frita

ovos às três da manhã;

um advogado que no fórum

advoga o imundo do mundo;

um conquistador barato

sem lábia e brilhantina;

e um poeta de esquina

que por vergonha do ofício

não quer se ver declamado

em reuniões sociais

 

Acalanto

 

Mãe quando a senhora me embalar

(como fazia quando criança)

peço por favor imploro de joelhos

não seja indiscreta como toda mãe é

Pergunte pelo meu lirismo meu alcoolismo

minhas rusgas e rugas

indague por tudo:

menos pelo hábito de roer unhas

(Isso não posso lhe responder)

Pode ser apenas o sentimento antropofágico

a solidão onicofágica

de ver tantas crianças pobres

roerem como bichos detritos de latas de lixo

e minha mãe eu não poder fazer nada

absolutamente nada

(Por essa razão minha mãe

não pergunte pelo meu hábito de roer unhas)

Esqueça tudo isso

Fale de brinquedos da cartucheira de cowboy

balanço gangorras e sorvete de chocolate

até de Flash Gordon e de pudim de macaxeira

Agora peço somente à senhora

que me embale

Que eu quero dormir… dormir…

E esqueça por favor o resto

Principalmente as minhas unhas

Deixe-as como estão

 

 

Elegia antiga

 

Dai-me uma janela:

que seja alta e branca

como as sonhosas nuvens e as garças

e que despontem gerânios nos beirais

mesmo quando a primavera não vier

Dai-me uma janela:

– de preferência de sobrado –

de onde se observe o mar o crepúsculo e os barcos

e uma atmosfera colonial de paz e quietude

embale – como os ventos –

os nossos corpos e sentimentos

Que seja bem alta

assim como a nossa vontade de subir ladeiras:

acima de todas as incoerências terrestres

acima de todas as maldades humanas

num lugar onde a tristeza o egoísmo

o desamor e a inveja

não a possam alcançar

Não é obrigatório

que tenha sacada:

mas é necessário

que caiba a amada

Senhores guardiões dos horizontes do Mundo

que controlais vistas paradisíacas

e paisagens alucinantes

dos seus escritórios acarpetados do 101º andar:

ficai com a visão dos lagos artificiais

aurora boreal planetas inacessíveis

arco-íris pré-fabricados

nada disso me afeta ou seduz

Eu quero

apenas uma janela

uma janela aberta para o Mundo:

e nada mais

 

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* Luiz Augusto Cassas é Poesia Pura do Maranhão. Contato: luisaugustocassas@terra.com.br

** Poemas extraídos de A Poesia sou Eu, Poesia Reunida, Volume 1. Luís Augusto Cassas. Rio de Janeiro, 2012.