Diálogos – 25/01/11

 

 

Oráculo*

 

Levaria uma hora de carro entre Belo Horizonte e Sete Lagoas. Cíntia uma vez foi de ônibus, precisava misturar-se com o suor de um dia de trabalho, o aroma das frutas e verduras nas sacolas de feira, a tontura das curvas fechadas; no volante o motorista jovem.

– Adélcio.

Perguntei várias vezes enquanto caminhávamos até o estacionamento do aeroporto. Lembrei de uma maneira de se gravar um nome.

– Quantos minutos para chegar a Sete Lagoas, seu Adélcio?

– Está muito frio estes dias, seu Adélcio?

– O senhor pode desligar o rádio, seu Adélcio?

Saímos no outro dia bem cedo para Cordisburgo. A cidade do coração.

Existe uma cidade onde nosso coração se instala? Ou seria aquela onde depositamos sonhos de criança, esperando um outro que nos reconheça?

– O senhor é aquele ator da novela das oito?

Ajeitei os óculos escuros, abri a janela do carro, fotografei as nuvens.

 

As nuvens.

Nuvens que me abraçam, nuvens calmas, nuvens silenciosas. Elas queimavam ontem ao pôr do sol. Hoje sussurram segredos, provocam mistérios.

– A estação de trem defronte à casa de Guimarães Rosa.

Será por isso sua busca por outras paragens? Viajar abandonando a si para ser o outro? Na pele do personagem, a minguilim Polyana recita trechos, musica palavras.

– Somente na voz de um mineiro essas palavras brilham.

(Polyana pediu um autógrafo.)

Na venda de seu Fulô, encontro cavalinhos de madeira, bacias de alumínio em que minha avó Rita juntava as mangas-rosas e distribuía com os vizinhos; fazia suco, peito de velha – um picolé dentro de um saquinho comprido.

Visitei as bordadeiras. Comprei uma colcha para mamãe, uma colcha com palavras e imagens do Grande sertão: dali por diante poderia navegar nas veredas de outro João e não me cobrar visitas constantes enquanto papai viajava.

Os cupinzeiros, barro açúcar-e-canela à luz do sol, espalhados pelos campos

Nas estalactites vejo os castelos de areia ao contrário, quando pingávamos, eu e Paola, irmãos de carne e sangue, pingávamos areia e água do mar formando torres altíssimas de onde eu a salvaria de ogros e dragões de fogo. Paola ganhou o mundo na garupa de um vendedor de pulseirinhas e a última vez que soube notícias estava no Paraguai. Não houve Bolo de Casamento, nem o Véu da Noiva, feito de carbonato de cálcio, enquanto aquela em forma de Abóbora é de magnésio de ferro.

– Estamos num leito de rio.

Edson Alixandre.

– Há quanto tempo trabalha aqui?

– Ah, faz tempo com força.

(A força daquele olhar.)

– Não tem medo de ficar preso aqui embaixo?

– Não. É só pensar que cada gruta é uma janela.

Da janela do meu quarto no hotel, dá para ver uma das lagoas que são mais de Sete Lagoas. Posso caminhá-la sem pensar em Laura e na briga que tivemos no set de filmagem.

(A falta das palavras.) 

Subindo à Curvelo, deparei com a igreja de São Geraldo e me perguntei por que não falo mais com meu pai. Diante da escultura em papel do Ecce Homo que o santo fez, faço-me uma promessa diante de anjos e querubins que um dia, diante daquele mesmo altar, traria a graça de ter meu pai de novo ao meu lado.

Gosto da comida mineira. Tutu, o feijão tropeiro, lingüiça, couve, carne de porco. Para rebater, uma boa cachaça. Doce de leite e queijo branco para tirar o sal da boca, depois café para tirar o doce, água para tirar o café; depois começa tudo de novo.

Corinto é árida, de uma falta de mel para adoçar meus lábios, verde para colorir os olhos, brisa para aquietar calor. Talvez aqui Riobaldo melhor crescesse. Riobaldo com suas inquietações. No deserto quando cai chuva nasce oásis; em Minas, buritizeiro.

Corri os olhos nas planícies e as árvores me enganavam em buriti quando eram na verdade árvores de coquinhos, ou a Barriguda, ou Ipês roxos, amarelos, vermelho cru.

– É preciso entrar na arte desarmado, sem artifícios.

Então não seria eu um artista, Cíntia? Não seria eu detentor da interpretação divina da Palavra?

Em Morro da Garça finquei o pé entre lágrimas, O recado do morro e o Cruzeiro dos Martírios.

– Daqui só saio se me abençoares!

E uma senhora bem velhinha, vestido branco, carvão na pele, largou panela e fogão à lenha para se declarar.

– Fui muito feliz aqui. Um moço feito o senhor, não devia de estar chorando. Pois eu larguei tudo só para ver essa belezura mais de perto. Olhe, eu me chamo Isabel de Zuína.

Nem me deu graça nem me reconheceu. Dali saí voltando com o seu Adélcio, a noite caindo rápida com as estrelas anunciando a lua cheia.

Lua cheia. Moeda dourada que se prateia e vem cantar

            Não há

            Oh, gente

            Oh, não

            Luar como este

            Do Sertão

 

Na ida a Três Marias, pedi a Adélcio para dirigir. Ele me guiando, ele me dizendo o certo e o errado e de tanto ouvir decorei seus passos, ensinei seu nome.

A chapada. Os buritis. De um instante ao outro todo o mistério se revelava e o que era depois virou presente. As flores guardei para devolver a Laura que me disse antes quem realmente eu era e ainda nem sabia.

Fotos, fotos, fotos. E não dá para captar o meu sentimento de sertão.

– Não vai dar dez minutos e o São Francisco chega.

O mar doce. Pedi em nome do Pai que Ele me batizasse novamente: não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas. Sorri com o frio da água na nuca, os pés descalços, a calça jeans suspendida até os joelhos. De joelhos me refiz e o homem novo levantou-se das pedras e sobre as pedras edificou o seu caminho.

E se Manuelzão não quisesse me receber em Andréquicé? Um novo João a ele perguntava, para entre a barba longa suspirar-lhe algum segredo? Quicé de André, quiçá de Maria. Quem sabe do João que sabia que ele não sabia?

Caçador de Mim, Milton Nascimento

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* Percorrendo o Circuito Guimarães Rosa – Minas Gerais. Texto extraído de Diálogos, Patricia Tenório, 2010.