Elba Lins | Impressões sobre o livro “O amante”, de Marguerite Duras

———- Mensagem encaminhada ———-
De: “Elba Lins” <elbalins@gmail.com>
Data: 7 de jan de 2017 14:05
Assunto: IMPRESSÕES SOBRE O LIVRO – O AMANTE, de MARGUERITE DURAS
Para: <confrariamulheres@googlegroups.com>
Cc:
Olá, amigos da Confraria,

Aproveito para mandar minhas impressões sobre o livro O AMANTE, de MARGUERITE DURAS

Já havia lido A Dor e O Amante há muito tempo atrás, sem no entanto, ter dedicado tempo a saber mais sobre a autora ou analisar a obra com profundidade.

Volto a ler O Amante e me encanto com a densidade do texto de Marguerite Duras. Nele existe tanto sentimento, tanta dor, tantas coisas não ditas, quase ditas ou enfim ditas; que me sinto transportada para um clima diferente. De repente estou escrevendo sobre tensões, sobre mágoas, medos e dores e buscando dentro de mim os meus próprios demônios interiores, tão forte o contexto do romance.

Ao escrever impressões sobre um livro procuro me restringir ao texto, fazer minhas próprias avaliações, constatações e somente depois buscar as críticas e comentários na Internet de forma a não me deixar “contaminar” por ideias que não são minhas. Depois de fazer isto, verifico quão divergentes ou alinhadas estão, em relação às demais. Ao ler O Amante para nossas discussões na Confraria, não resisti à curiosidade de logo buscar mais informações sobre a obra e a vida de M. Duras. É incrível e instigante tudo o que consegui ler sobre ela. É o  tipo de escritora que nos leva a querer ler toda a sua obra e pesquisar o que se escreveu sobre ela; mesmo sabendo que um mergulho nesta vida de tanta densidade irá influenciar os nossos  próprios sentimentos.

Consegui na Internet alguns textos para ajudar no entendimento da obra de Duras e coloco os títulos para quem se interessar:

* SILÊNCIO E REVELAÇÃO NA ESCRITA DE MARGUERITE DURAS – Karina Ceribelli ROY*

* O TEXTO DE MARGUERITE DURAS (1) -Celina Moreira de Mello – Universidade Federal do Rio de Janeiro

* A ESCRITURA CORRENTE DE MARGUERITE DURAS*- Celina Moreira de Mello -Universidade Federal do Rio de Janeiro

Destaco alguns pontos que me chamaram atenção nestes artigos:

– É dito que a obra de Duras pode ser dividida em uma fase da Indochina e outra fase da Índia.

– Mesmo apresentando diferentes histórias, no fundo o enredo básico das obras de Duras são sua infância na Indochina, sua família e os romances de casais em crise. Existem muitos pontos de confluência entre suas obras.

– Uma curiosidade – ela não gostou da versão cinematográfica do seu romance, O Amante.

–  Ao longo do tempo, muitas verdades vão aos poucos sendo explicitadas em seus romances, como se ela fosse retirando véus e mais véus de assuntos censurados. Finalmente, em O Amante, escrito após a morte da mãe e dos seus dois irmãos, Duras consegue falar de temas até então escondidos. É dito que alguns destes tabus só serão revelados no romance O Amante da China do Norte. Estes dois livros são caracterizados como suas obras mais autobiográficas. Entre estes tabus, estão o caso do amante com o qual M.D. se relacionou na adolescência e o suposto relacionamento incestuoso com seu irmão mais novo (no romance O Amante da China do Norte). Mas isto é assunto para o futuro. Também é questionado se houve algum evento incestuoso envolvendo o irmão mais velho.

– São feitos comentários sobre a forma contraditória com que ela fala da mãe, pois ao mesmo tempo que a cultua, a critica. Como, quando ela diz “…a porcaria da minha mãe, meu amor…”. ” acho que falei do amor que sentíamos por nossa mãe, mas não sei se falei do ódio…”

Depois de transitar pelas muitas opiniões sobre a obra de Duras teci alguns comentários sobre o livro O Amante.

– Logo no início do romance, é muito forte o texto onde ela fala sobre a mudança que ocorreu no seu rosto por volta dos seus dezoito anos. Comenta que tem um “um rosto destruído”. Na minha opinião tem mais correlação com seu irmão mais velho do que com o romance com o chinês. Sobre o trecho “Não, aconteceu alguma coisa quando eu tinha dezoito anos que fez surgir este rosto. Devia ser a noite. Eu tinha medo de mim, tinha medo de Deus. De dia, eu tinha menos medo, e a morte parecia menos pesada. Mas ela não deixava. Eu queria matar meu irmão mais velho (…) e sobretudo para salvar meu irmão mais moço (…) dessa lei representada por ele, decretada por ele, um ser humano, e que era uma lei animal …” Senti que existe ainda muita coisa não dita, muitos fantasmas noturnos que ainda não viram a luz do dia. Não sei se serão finalmente abordados n’ O Amante da China do Norte.

– Quando volta a falar no seu rosto e no papel que o álcool e o desejo ocupou na sua vida mesmo antes de conhecer o gozo, ela diz ” Tudo começou para mim, por este rosto visionário, extenuado, esses olhos pisados antes do tempo, antes da experiência.” Me pergunto, que experiência foi esta que no texto ela chega a colocar em itálico, dando uma conotação de mistério.

– Parece que existia nela uma extrema segurança sobre o desejo que, já na faixa dos doze anos sabia despertar nos homens. ” Faz três anos que os brancos também me olham (…) e os amigos de minha mãe me convidam (…) na hora em que suas esposas estão jogando tênis no Clube Esportivo. Eu poderia me iludir, acreditar que sou bela (…). Mas sei que não é uma questão de beleza (…). Eu pareço o que quero parecer…”

É contraditório o comportamento da mãe, seja quando o diretor da escola diz que sua filha é a primeira em francês e ela fica “descontente porque não são os filhos os primeiros em francês”, seja quando “percebe o chapéu masculino e o sapato de lamê dourado (…) ” e mesmo assim ” não só aceita essa palhaçada, essa falta de decoro (…) como esta falta de decoro lhe agrada”. Quando a família sai para jantar com o chinês tudo é contraditório, eles saem, jantam, bebem, dançam sem entretanto dirigir a palavra ao anfitrião. No pensionato, ao mesmo tempo que pede que as saídas da filha não sejam controladas a mãe lhe bate por desconfiar que está se relacionando com o chinês.

– Já que não espera dos filhos homens a solução dos problemas financeiros, a mãe fecha os olhos para a atitude da menina e para sua forma de vestir-se. “Resta essa menina que cresce e que talvez um dia saiba como fazer entrar dinheiro em casa. É por esta razão, e ela não sabe disso, que a mãe permite que a filha saia com esta roupa de prostituta infantil”. 

Sobre os sentimentos pelo chinês – acho que além do desejo e do interesse financeiro, existia, embora não explicitada, uma identificação, um gostar de ficar perto, de conversar (embora nunca sobre eles próprios), uma certeza de se sentir acolhida. O choro da jovem no navio de partida e na cena final, nos dá a ideia deste amor  “…aquela irrupção da música de Chopin sob o céu iluminado de cintilações. (…) E a jovem tinha se levantado (…) e depois havia chorado porque tinha pensado naquele homem de Cholen e de repente não tinha certeza se o havia amado com um amor do qual não se apercebera porque ele tinha se perdido na história como a água na areia e agora ela só o reencontrava nesse instante em que a música se lançava ao mar”. Este, entretanto, foi um romance natimorto. Sentimos que ela foge para não se sentir aprisionada a um amor que tiraria toda independência. Um outro agravante, o chinês é fraco e embora se dissesse apaixonado por ela, estava preso ao dinheiro do pai. “Ele chora muito porque não encontra forças para amar além do medo. Seu heroísmo sou eu, sua servidão é o dinheiro do pai”. Estas várias percepções certamente pesaram nas suas escolhas para o futuro, já que desde cedo sabia o que queria – ser escritora, deixar a família para trás, fugir de todo aquele pesadelo familiar.

– O quarto em que ela encontra com o chinês está sempre cheio de personagens, os irmãos, a mãe, o pai, Hélène Lagonelle… e a todos eles, ela parece envolver durante o sexo com o chinês. Vai ser um prato cheio para as psicólogas e psicanalistas do grupo, já espero ansiosa por seus debates.

É um livro que a cada leitura descobre-se novos pontos a serem analisados.

Tomo a liberdade de enviar para vocês um dos textos que escrevi durante a leitura do romance O Amante:

A Solidão encontrou o Amor e sem saber que ele era o falso amor, se deixou seduzir e ser invadida pela Paixão.

A partir daí, ela não era mais a Solidão, era um ser apaixonado, escravizado.

Por medo de perder o estado de graça, de cair na desgraça, se deixou massacrar.

Se fez dependente, de uma palavra, de um gesto…

Suplicava amor,
Mendigava paixão,
Se tornou loucura.

E onde ficou seu orgulho, que a deixava aqui, ouvindo impropérios?

Que não lhe permitia fugir da vergonha, da loucura,

De percorrer ruas vazias em busca do que pensava amor

Ela agora trazia no corpo e na alma as marcas deste Amor/Desamor.
Que durou dias, meses, anos…
Até que a força do hábito a fez optar

E mudar outra vez o seu nome, para Solidão.

( “Da Loucura” – Elba Lins, 02.01.2017. Durante a leitura de O Amante, de Marguerite Duras)