Diálogos – 11/01/11

Para Patricia Galindo

httpv://www.youtube.com/watch?v=JC9A_E5kg7Y

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Gato de Schrödinger

Anderson Fonseca

Revista Confraria – N. 1 – Setembro/Outubro/2009

 

            É quase impossível dar nome e até estudar com minúcia artística um bicho que não se vê totalmente nem se percebe com clareza sua presença e que vive incomunicável, pois isola-se em seu mundinho, embora às vezes dê uma escapada para dizer-me frases enigmáticas; atenho-me, portanto, a sua descrição, pois esta é que me cabe no momento.

            Este bicho tem cabeça e corpo de gato com chapéu de copa, listras de zebra, mente de camundongo, língua bifurcada – o que faz sua voz parecer-se com a da serpente do éden – e orelhas humanas. No entanto, tem um comportamento muito estranho, pois parece um louco com seus olhos a toda hora revirando-se como se buscasse uma razão de fora para sua natureza bizarra.

            Ele não está nem neste mundo nem noutro, mas no universo do meio, aí o motivo de ser tão incomunicável, ou seja, encontrá-lo quando você bem desejar é impossível, somente quando a ele parecer necessário. Ao aparecer para você, ele sorri, retira o chapéu, inclina-se para a frente e diz “Estou sempre diante de mim”, depois continua com longas frases repetindo o que parece ser aquilo que você no momento está pensando, mas ele costuma sempre levantar uma segunda questão à primeira que havia colocado abalando todas as minhas certezas. Ele inicia com a palavra “se”, terminando com “ou”, para negá-las em seguida com “não”.  Isto me perturba profundamente. Assim que acaba de dizer para que veio, desaparece, deixando seu largo sorriso no ar.

            Quando ele se manifesta, sinto uma estranha vontade de pegá-lo e aprisioná-lo numa caixa; eu, na verdade, já tentei isto, mas por ele não estar nem aqui nem acolá, sua essência torna-se tão etérea que se desmancha nas mãos; ele, ao ver minhas tentativas, ri debochadamente. O que me impossibilita de conquistá-lo para meu mundo, este gato sábio e imbecil, que me incomoda com suas sutilezas, suponho ser o fato dele existir diante de um espelho. Este espelho divide o meu mundo e o outro em duas esferas distantes e distintas, pondo-o no meio como um intermediário divino. Se o espelho que lhe atribui poderes oníricos fosse quebrado, o gato seria obrigado a cair num dos mundos com o qual brinca dia e noite. Mas para isso, uma criança deveria ser convidada por ele, passar um tempo em seu reino fantástico, depois quebrar o espelho com uma pedra ou uma palavra de feitiço invertido. Embora isto um dia venha a acontecer, o gato, por ter um pensamento de camundongo, logo logo encontrará outro universo que não seja nenhum dos que estamos acostumados a desvendar para se esconder, podendo assim vir a nos incomodar sem por sua vez ser incomodado.

            Com esta brincadeira de esconde-e-acha-e-esconde ele pôs dúvidas assustadoras em minha cabeça, fez-me acreditar que sou sua imaginação mais simples e que o motivo de eu existir é satisfazê-lo com meus constantes questionamentos e minhas buscas nas mais recônditas fantasias que deverão também ser suas. Um amigo disse-me que eu deveria fazer a pergunta certa e assim terminar com o encanto, mas tenho quase certeza de que qualquer pergunta que eu vier a formular ele já formulou muito antes. No fim das contas me tornei o rato com o qual ele se diverte sempre. Mais estranho é que um bicho tão bizarro e ao mesmo tempo adorável se atarefe em incomodar-me; será que ele não tem outra coisa de que se ocupar? Talvez, quem sabe, ele tenha inveja de mim e deseja tanto ser eu que o único meio que encontrou para contornar sua frustração é cutucando minha mente com seus caprichos.

            Atualmente ele está bastante ausente aqui de casa; não o vejo mais em canto algum, nem na cozinha, nem no quarto, nem na escrivaninha. Creio, e isto me faz rir, que ele deve estar ocupado com alguém pior que ele mesmo, alguém que surgiu em seu mundo para o importunar, algum rato muitíssimo intrigante para pôr questões tão assustadoras quanto as que ele provocou nos últimos anos.

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Em busca do gato de Schrödinger*

Patricia Tenório

(Extraído de Diálogos, 2010)

 

Hoje não fui à missa, não rezei rosários, nem picotei jornais velhos: propus a mim encontrar o gato de Schrödinger.

Uma amiga tentou uma vez e ficou com as mãos tortas de tanto apalpar o dia inteiro para ver se o gato estava no umbigo ou debaixo do travesseiro. Pensei que ela não procurou direito, porque às vezes vejo rabos de gatos e camundongos com suas patinhas fugindo pela fresta da janela em noites de lua cheia.

Pode ser que os lobos não uivem mais depois que eu encontrá-lo. Mas para que me servem nuvens escuras escondendo luas e o sangue escorrendo no pescoço se não sinto mais o palpitar nas próprias veias?

O gato saberá, decerto. E se não responder, corto seus bigodes longos e os faço de espanador de estrelas para que elas realizem logo os meus desejos.

Casar, ter filhos, morar numa casinha de campo? Quem saberá o que se esconde sob os meus sonhos? Vai ver o gato me perguntando o que não respondo pode atravessar o espelho que me impõe e fazer companhia. Poderá deitar-me nua sobre a relva e arranhar-me as costas? Lamber pescoço? Provocar arrepios?

Este gato, assim manhoso, se enrolará entre as minhas pernas e fará moradia. E nem que a lua saia detrás das nuvens escuras, o sangue estanque, os lobos uivem, arrancarei minhas raízes da sua terra úmida – me farei novelo de lã vermelha para que ele me desfie.

 

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Diante do texto Gato de Schrödinger, Anderson Fonseca