Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 25/12/16 | Com Bernadete Bruto, Elba Lins & Anjos de Teatro

Patricia (Gonçalves) Tenório

22/12/2016

 

O desejo de viagem tem sua confusa origem nessa água lustral. Tépida, ele se alimenta estranhamente dessa superfície metafísica e dessa ontologia germinativa. Ninguém se torna nômade impenitente a não ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arredondado como um globo, um mapa-múndi. O resto é um pergaminho já escrito. (ONFRAY, 2009, p. 9)

 

Tudo começou em Agosto, 2016. Um encontro em uma Dança Circular. Três amigas que se propõem a estudar juntas, a navegar juntas pelo mundo das palavras, a viver juntas a Poesia e a Teoria de maneira inexorável e inseparável…

Incompreensível, irracional, mas sólido…

Foram essas palavras que me assombraram a madrugada de ontem para hoje, dia que me propus escrever sobre a experiência de 5 meses, 10 encontros e dezenas de textos críticos, poéticos, ficcionais que brotaram de Bernadete Bruto e Elba Lins no Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

Por que me proponho a compartilhar nossa experiência, quando já existem tantas Oficinas Literárias, cursos de Escrita Criativa, acadêmicos ou não, pelo país, pelo mundo afora?

Lembrei esses dias da experiência com a adaptação de As joaninhas não mentem para o Teatro em 2011. O diretor Jorge Féo nos ensinou algo muito forte e presente até hoje nos meus estudos, na minha vida: aquele grupo, composto por aqueles atores, com aquela adaptação, era único. Foram 6 meses lapidando o texto, a vivência de cada personagem – não era interpretação nem representação – para germinar em 50 minutos de espetáculo.

Algo semelhante aconteceu com o GEEC. Nos servindo de teóricos tais como Christopher Vogler, Joseph Campbell, Carl Gustav Jung, Cecília Almeida Salles, Roland Barthes, Umberto Eco, até chegarmos aos teóricos do deslocamento, entre outros o autor da epígrafe Michel Onfray, e músicas, e pinturas, fotos, filmes, filmes e filmes, fomos nos alimentando e nos provocando a ponto de gerarmos inúmeros textos, dos quais selecionei do mês de Dezembro alguns a seguir. Textos que, como afirma Michel Onfray no seu Teoria da viagem, nos requisitam: “Não escolhemos os lugares de predileção, somos requisitados por eles” (ONFRAY, 2009, p. 20).

Certa vez, um repórter auspicioso perguntou a Ariano Suassuna se o que ele escrevia já estava na cultura popular, o que ele fazia afinal? Ariano respondeu brilhantemente:

– Você quer saber o que eu fiz, se tudo já estava aí, não é, rapaz?

O repórter mudo.

– Eu escrevi!

Então, tentando responder à pergunta que eu mesma fiz acima: “Por que me proponho a compartilhar nossa experiência, quando já existem tantas Oficinas Literárias, cursos de Escrita Criativa, acadêmicos ou não, pelo país, pelo mundo afora?”, e parodiando o saudoso Mestre Ariano Suassuna:

– Eu vivi!

 

Referências:

ONFRAY, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

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(“O violeiro”, Almeida Júnior, 1899, óleo sobre tela, 141 x 172 cm) 

 

A viola fala Alto

 

            Toda vez que se senta na janela e toca sua viola, algo me chama e largo tudo que estou fazendo,  encosto na sua janela para cantar. Canto com todo o coração:

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos
É que a viola fala alto no meu peito, humano
E toda mágoa é um mistério fora deste plano
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pruma visitinha
Que no verso ou no reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me num cateretê(*)

Não sei o que se passa com aquele casal… Ele sintonizado com sua viola e ela seguindo a canção. Vejo que são UM na música. Dois artistas fora do palco, na mais pura expressão da arte, na vida cotidiana, em pleno interior de uma cidade qualquer. A viola é quem fala. Fala alto em qualquer peito humano quando seus acordes tocam no coração de cada um de nós. Eu mesma reconheço essa canção!

 

Recife, 4 de Dezembro de 2016

 

(*) Vide vida marvada de Rolando Boldrin

https://www.youtube.com/watch?v=9lw5EXnqOYc

 

(Câmara e edição: Bernadete Bruto)

HÁ SEMPRE UMA LUZ NO FINAL DO TÚNEL

Vós não sabeis de que espírito sois! O Filho do Homem não veio para perder, mas para salvar as almas” (Lucas 9:54).

Embora estejamos neste quadrado, embora tudo indique que não resta saída, somente a fé faz com que a vida seja amena. Ela perdeu seu ideal de família. Ele se perdeu da família. Ambos caminham aprisionados na alma. Ele e ela no fundo maldizem seu destino… São Tiago vela pelos peregrinos. Há uma rota que conduz a um túnel. É o túnel de fuga! Que maravilha!

Um túnel que lembra aquelas histórias de lugares mágicos! Um portal de luz! Por este túnel muitos escaparam. Por este mesmo túnel também passou em direção à morte Frei Caneca. Talvez ele e ela não tenham respostas mágicas. São Tiago, aquele do campo da estrela, foi até martirizado… A grade está fechada com um cadeado! Ele sabe bem o que é isso de estar preso… Ela sabe bem o que é ter um coração fechado. Deu de cara com sua chance de oferecer o perdão e virou-lhe as costas…

Mas há uma luz no final do túnel.  É preciso ter fé em meio à escuridão da alma. São Tiago aceitou o desafio e pregou o evangelho até o fim. Ainda hoje é patrono da Espanha e tem um caminho de peregrinação desde o tempo medieval que é feito pela pura fé.

Por aqui, na atualidade, Maria passa na frente e vai abrindo estradas e caminhos, abrindo portas e portões, abrindo casas e corações. (*) Ele está aprendendo a ter fé e ela precisa chegar no final do túnel e abrir a porta do perdão para ser realmente livre. Mesmo assim, ela envia uma mensagem para aquele menino de olhar vazio encoberto pela muralha. Uma linda mensagem, que tanto amparou outra alma que por 27 anos passou aprisionada. Um poema de William Henley que diz: EU SOU O DONO E SENHOR DE MEU DESTINO. EU SOU O COMANDANTE DA MINHA ALMA!(**) E um pequeno filme para acalentar o sonho de libertação.

Ela é mais velha e sabe seu dever de resgatar almas, mesmo que a sua ainda esteja evoluindo no  tempo e espaço. Ela tem fé que um dia a porta se abra e uma vida completa chegue para ambos. Pois sempre há uma luz no final do túnel e o segredo é tão simples há séculos: Fé e Esperança!

Recife, 15 de novembro de 2016.

 

(*) oração MARIA PASSA NA FRENTE

(**) Poema de William Henley

 

(Câmera e edição: Bernadete Bruto)

PASSAEANDO PELO POÇO DA PANELA

Num recanto bucólico e sombrio

Onde atenua a marcha o grande rio

À sombra de recurvas ingazeiras

Batem roupas, calejadas, lavadeiras

Trago ainda nos olhos: é bem ela.

            A passagem do Poço da Panela (…)

(Trecho da poesia  Poço da Panela de Olegário Mariano)

 

Neste domingo, assim como meus pés, meus olhos passeiam por esta parte da cidade. Entram no antigo arrabalde conservando resquícios de séculos passados, chamado de Poço da Panela. O seu nome se deve ao fato de lá ter sido construído um poço de agua potável em formato de panela.

Procuro o que resta do passado nesta rua que me dirijo a pé e o caminho chega até uma Igreja. Li que esta Igreja também foi erigida por Capitão Henrique Martins, que interessante! Aquele senhor devia ser um homem muito importante. Como era imenso o espaço para tão poucas pessoas! Hoje ao menos, este é dividido com mais gente. Caminho pelo mesmo espaço que Capitão Henrique já caminhou. Aquele senhor  que também construiu a Capela da Jaqueira. Caminho em direção  desta igreja chamada N.S. da Saúde. A Igreja foi construída em agradecimento pela melhora de sua esposa que se encontrava doente, dona Ana Clara. O amor de Henrique por Ana Clara toca meu coração. Duas igrejas construídas ficam como prova desse amor profundo. Vou caminhando pelos arredores, como talvez costumasse fazer Henrique há séculos atrás.

Pego o carro e me dirijo mais para frente e mais um pouco  chego na Rua Antônio Vitruvio. Já frequentei aquela rua nos anos 90, quando fazia Aikidô. Sabia que o final  dela chegaria à beira do rio. Queria olhar o rio. Aquela via, pois no passado o rio era muito usado e estou em busca do passado. Esse mesmo rio que nunca usei… Dois guardiões  encontram-se protegendo aquele lugar, esta parte do Capibaribe, coitado, hoje tão desprezado! A vista me dá essa impressão de que aquela área é especial e quem sabe seja um portal que nos leve de volta há outros tempos… Vejo um avô de bicicleta levando seu neto para conhecer o rio…O velho com o novo  olhando para o rio e sinto esperança. Me despeço dos guardiões pego o carro para conhecer mais do Poço da Panela.

Passo por esta rua de casarios antigos coloridos, rua onde mora Luzilá Gonçalves e penso que ela fez uma excelente escolha de moradia. Que local mais agradável! Fiquei até com vontade de ligar para ela e que me esperasse na porta, onde seria protagonista desta parte do filme, mas escolhi passar sem incomoda-la no domingo, um dia de descanso. Outro dia eu paro. Assim dirijo por  este caminho de casas antigas em direção ao futuro. Como é visível a mudança de construções e de ares! Tenho a impressão que o passado se despede e que o futuro não é tão romântico.

No fim do caminho, já beirando o bairro do Monteiro, volto a me encontrar com o Capibaribe. Deparo-me com uma vida diferente do outro lado do rio. Vida totalmente contraste com aquela que vejo no Poço da Panela atual. Uma comunidade muito pobre, sem infraestrutura adequada, à beira de um rio malcheiroso! Fico besta com esse afronte à vida.

Meus olhos enxergam aquele homem e a história que ele tem para contar.  Uma história que já estou até curiosa para ouvir. Vou perguntar. Tenho quase a certeza que ele poderá me apresentar à vida que existia ali antes e agora. Pois esse é o sentido da minha busca, neste domingo de manhã.

Nem sabia que do outro lado do rio era o bairro da Iputinga! Nem que havia aqui tão perto, um meio de transporte ligando Poço da Panela à Iputinga. O barco de seu José. Obrigada, Patrícia, por sugerir este passeio, ao Capitão Henrique pelo presente amoroso do passado, aos guardiões apontando para a esperança de sobrevivência do velho com o novo e ao senhor José por terminar minha história.

O final não é feliz, mas é verdade tudo que ele me diz. Até outro dia, Seu José!

 

Recife, 14 de novembro de 2016.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

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A partir da leitura do volume “Viajantes Contemporâneos” da Pinacoteca de São Paulo, surgiu a intenção de sentir Cartagena a partir do meu “olhar estrangeiro”.

Me imaginei chegando à cidade sem nada conhecer de sua história – via de regra, é o que acontece, chego ao destino sem nenhum preparo adicional ao que porventura já exista em mim. Vou sem muitas informações e  até juro fazer diferente na próxima oportunidade.

Desta vez, o desconhecimento, me proporcionaria uma maior legitimidade para fotografar ou descrever o sentimento advindo de olhar a cidade pela primeira vez.

Tal não foi minha surpresa quando ao sentar na poltrona do avião encontrar no bolsão à minha frente a revista de bordo com o artigo Cartagena: As Cores de Cartagena da Índia. A capa da revista me abraçava a partir da parede azul celeste misturada com verde piscina, se descascando para mostrar-me uma cor terra, original. E a pequena sacada pintada em cor lilás com muitas flores por trás das grades de madeira, me trazia o primeiro abraço, o acolhimento típico das cidades cujas vidas se traduzem através das cores.

Ao terminar de ler o texto no qual Cartagena se apresentou para mim nas suas cores e sabores, levanto o olhar já não tão estrangeiro e na tela à minha frente vejo o movimento da cidade que me convida a sentir o sabor dos seus frutos, dos seus sorvetes gelados bem conhecidos por todos que a visitam. Seus peixes, crustáceos, passeios em mercados me convidam a sentir seus sabores, a respirar as fragrâncias do seu povo, das suas flores e frutos e sentir as cores de Frida Kallo saírem do México para me receberem em Cartagena ao som da Rumba.

Referências:

* Viajantes Contemporâneos” da Pinacoteca de São Paulo.

* As Cores de Cartagena da Índia – Revista de bordo da LATAM, Novembro, 2016.

 

 

(Encontro com Cartagena – 25.11.2016

Para o GEEC – Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

Escrito durante o vôo Recife-São Paulo que dali me levaria a Bogotá e posteriormente a Cartagena o objetivo principal da viagem.)

 

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(Lua do espetáculo “As joaninhas não mentem”)

 

Ontem dormi sozinha

A maior lua do século

Me deixou esperando

Sentada à beira-mar

E se escondeu por entre nuvens

 

E enquanto eu

Sentia nas pernas

As carícias do mar

Que na verdade não eram para mim

Tu lua

Te deitavas com estrelas…

Sim, com todas as estrelas.

 

Era isso que eu conseguia ver

Cada vez que o vento

Soprava e abria

As cortinas de nuvens,

Espessas,

Que guardavam, tua intimidade…

 

Mas hoje é um novo dia

E talvez te lembres de mim

Talvez te lembres do mar

Talvez hoje

Não nos deixes a esperar.

 

………………

 

 

(DE LUA E DE MAR – 17.12.2016

Para o Grupo de Escrita Criativa – G.E.E.C.)

 

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(Foto: Elba Lins)

Acordei e me vi sozinho, ou melhor, acompanhado do irmão, que quase siamês esteve comigo todos os dias da existência. Mas onde andaria aquele, com quem até o momento, caminháramos juntos?

A eternidade foi se tecendo, o tempo refazendo a realidade, e nosso aspecto se alterando. O lodo se alojou na nossa carne, na nossa pele; agora somos abrigo, refúgio de passarinhos que chegam e parecem fazer parte da nossa história. Durante todo o tempo esperamos em vão pelo retorno do nosso companheiro.

Algumas vezes, pensamos que O Esperado seria Manoel de Barros já que numa alegoria ao mestre estamos possuídos de lodo, algas, pássaros e plantas. Outros dias na nossa pele se desenharam os traços de Magritte. Também lembrei Van Gogh e me pergunto porque não me levou no seu caminho, para trilhar com ele sua loucura e solidão?

Assim me vi transformado em barro, e me questiono se o mesmo aconteceu ao Esperado.

Junto a mim, só chegam os pássaros que me fazem companhia e deixam em mim sementes de vida que brota no barro e me faz esquecer de tudo; esquecer até de ansiar pelo retorno de quem possívelmente já se fez barro.

 

(O Esperado –

Elba Lins 16.11.2016

Para o GEEC – Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

A partir de uma experiência real criar o universo ficcional.

Lembrando a foto tirada na Casa Cor, Van Gogh, Magritte e Manoel de Barros)