“Bífida e outros poemas”* | Alexandra Lopes da Cunha**

Amanhã

 

Amanhã é possível, penso,

e fecho-me para o dia de hoje,

morto pelo contar das horas.

Não serei sua viúva,

nem chorarei seu passamento.

Um dia que se foi, apenas…

Verei outros dias,

parece-me.

 

Amanhã será, digo e repito,

o alento ao desalento rotineiro.

Adormeço, por fim, exausta.

As palavras, entre os lábios,

dormem também…

 

Deixo-me levar pelas horas,

no intervalo entre dia e noite,

vida e morte,

inexistir e sobreviver,

sonhar e perseverar.

 

Amanhã, apenas amanhã,

Saberei alguma coisa.

Ou saberei coisa alguma,

mas isso será quando o amanhã chegar.

Enquanto isso, coube-me dormir.

 

Bífida

 

Dividida de nascença,

bipartida na origem,

o meu centro, um vazio,

vazo fértil, expectante,

pulsante

hospedeiro de breves sementes.

 

Mulheres são sempre casas:

Abrigam em suas fendas,

envolvem em seus abraços,

saciam sedes e fomes,

de seres unos, indivisíveis,

carentes de seiva e açúcar,

famintos ao nascimento.

 

Bífida, meu corpo uma falta,

ausência ávida,

convite permanente

à invasão firme e potente

de investidas bruscas e doces

de final certo e já sabido:

Explodir em gozos,

alegria em gritos.

 

Enquanto escrevo

 

Enquanto escrevo, permaneço.

Mesmo que tudo o mais desapareça,

eu mesma a esmaecer, envelhecer,

enquanto escrevo,

finco o pé na vida,

gravo em tinta escura o presumido sangue

da minha humanidade.

Arranho a superfície do papel

com os garranchos inábeis de minha mão direita,

algo torpo, presa aos limites

da matéria de que é feita.

Nas palavras riscadas, revolvo, sádica,

as dores de enjeitada, de filha bastarda,

todos nós, filhos de pai desconhecido,

de um deus inexistente,

ou monstruosamente indiferente.

Escrevo a carta ao pai que nunca a lerá,

destilo em versos a minha dor, a tua, a nossa,

as crianças abandonadas, as mulheres mutiladas,

os filhos mortos em guerras, colhidos em campos de batalha,

arrancados do solo pela explosão de obuses obesos.

Enquanto escrevo, permaneço.

Finco os pés na vida e brado,

bato no peito e brado,

o grito surdo do poeta insano,

o grito inútil como tudo o mais em nossa vida.

 

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* Bífida e outros poemas. Alexandra Lopes da Cunha. Fotografia: Raul Krebs. São Paulo: Kazuá, 2016.

** Contatosalexcunham@gmail.com e http://cindereladescaida.blogspot.com.br/