Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 30/10/16 | Bernadete Bruto & Elba Lins

O punctum

No meio do mundo

Mordeu minha língua

Extravasou

Meu ser imundo

Lavou-me a alma

Aquietou a calma crescente

De solidão

E dor

Queria ser

Aquele ponto

Onde tudo começou

Mudar o destino

Da minha humanidade

Da mãe

Do pai

Dos meus irmãos

Fazendo-nos ser

Família

Fazendo-nos ser

Respeito

Fazendo-nos ser

União

O punctum

No meio do mundo

Nunca mais será o mesmo

Nunca mais verei o mar

Tombar os braços nos meus braços

Enxugar as lágrimas de sal

Em ondas no meu rosto

Inundar o peito

De esperança

E cor

Para dar luz

A uma nova era

Sem laços

Sem fronteiras

Sem guerras

Nem religiões

Deus passando por mim agora

Fez tudo isso

E disse que era bom

(“Punctum”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 07/06/12)

 

O escritor, semiólogo, crítico literário, filósofo francês, nascido em Cherbourg, Roland Barthes (1915-1980), já dizia em A câmara clara[1] que o punctum de uma fotografia “é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere)”.[2]

A partir de um exercício de ekphrasis dupla – relembrando, ekphrasis é a representação verbal de uma representação visual –, em que haveria uma representação verbal de uma(s) fotografia(s) tirada(s) pela participante, e a escrita de um texto poético/ficcional provocado pela(s) mesma(s) fotografia(s), apresento as produções das escritoras-poetas Bernadete Bruto e Elba Lins do mês de outubro de 2016, no Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

 

Patricia (Gonçalves) Tenório

 

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

pitanga-1

pitanga-2

Estava tão madurinha… Alguém iria me colher, saborear com todo gosto, para depois, me deixaria peladinha. Só um carocinho. Várias sementes para voltar para terra e recomeçar o ciclo da pitangueira. Ser uma nova árvore, produzir novos frutos, tão bonitos e vermelhos como eu.

Que pena! Veio um vento, balançou os galhos e eu tão madurinha, me segurei como pude, mas escorreguei e plic! Cai na rua!  No asfalto estou ali espatifada. Não vou servir para mais nada! Não vou virar outra árvore… O ciclo foi interrompido! Parece que neste local, cada dia ficará mais difícil para qualquer semente brotar.

Uma mulher passa por mim e me olha, consegue enxergar nesse tapete cinzento.

 – Que pena! Uma pitanga tão pequena! A única neste asfalto! Perdemos a natureza…  

Diz a mulher. Sou eu que penso tudo isso, ou ela que imagina?

Caminho pela rua. Diariamente me obrigo a fazer caminhadas noturnas. Caminhadas me deixam mais calma. Parece que os pensamentos se reorganizam. Me deparo com a cena. No chão cinzento da minha rua, uma pitanga. Tão pequenininha! Tão madura! Deu água na boca! Faz algum tempo que não encontro uma… Hoje aquele pontinho vermelho, me recorda que já não é tão abundante como era na minha infância… Que vida levamos! Que civilização é esta que nos afasta da natureza? A nossa natureza esmagada no concreto, enterrando para sempre nossas esperanças de um mundo mais natural.

E continuou o caminho pensativa.

O final, quem sabe? Nem a mulher, nem a pitanga. Pode um carro passar e esmagar o resto da coitadinha. Pode, também, a chuva alagar a rua e levá-la para um canto que ainda tenha uma terra bem fresquinha e ela brote recomeçando um ciclo repetido há muito tempo atrás. Quando o homem falava guarani e pisava na terra batida. As árvores cobriam seu caminho, sombreando sua passagem como túneis verdes. A brisa soprando gostosa, naquele dia ensolarado.  Naqueles tempos, a frutinha vermelha ganhou o nome de pitanga. Ybá de fruta, pytang de vermelha…Tempos da simplicidade na vida.

Aí, chegou a civilização. O português desbravou essas terras e construiu outro mundo. Um protótipo do atual… O homem escolheu o concreto, fez da vida o cimento armado, o amianto pelo caminho e para nosso espanto, criou algo tão irreal que no final dessa história… o narrador num lamento só CHOROU PITANGAS!

 

Recife, 7 de outubro de 2016.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

20161006_074604

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Olho minha varanda, enquanto tomo o café da manhã…

Este café que já foi suco, café e agora novamente suco…

E não é que tenha deixado de amar o café, cujo sabor descobri no passado…

E sim, porque se passaram vinte e oito anos…

Mas, não estou aqui hoje, para falar de café…

O que visualizei, é que nestes vinte e oito anos, o tempo passou rápido enquanto tomo o meu café,

E já não consigo ver o mar e nem aquele navio no horizonte que dividia comigo a mesa no ritual matutino…

Hoje tirei uma foto e aquela faixa de mar não está mais ali…

Hoje ao enquadrar a máquina para a foto eu me vi num aquário, mas não de água…

Um aquário de prédios, pois enquanto eu tomava o café da manhã pelo menos sete destas torres brotaram ao meu redor…

 

(Vinte e Oito Anos, Café e Navios no Horizonte.

Escrito para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa a partir da observação da Foto 1

Elba Lins, 06.10.2017)

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(1) BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980 (in 2011)

(2) BARTHES, Roland. Op. cit., 1980 (in 2011), p. 36.