Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 25/09/16 | Com Elba Lins* & Bernadete Bruto**

Do grego εκφραζειν, “explicar até o fim”, ekphrasis é o fenômeno da representação verbal de uma representação visual.

Muitos são os exemplos de ekphrasis no Ocidente, tendo sua origem na descrição de Homero do escudo de Aquiles, na Ilíada, passando pelos românticos com o poeta inglês John Keats, em “Ode a uma urna grega”, manifestando-se na prosa de Fiódor Dostoievski, em O idiota, quando descreve o quadro “O corpo do Cristo morto”, de Hans Holbein, até chegarmos a O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde – objeto de minha dissertação de Mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.

O exercício do mês de setembro de 2016 do Grupo de Estudos em Escrita Criativa (Recife – PE) traz a ekphrasis para o centro, iluminando a Criação a partir de Cartões Postais. Para cada uma das participantes foi proposto escrever um conto a partir de imagens escolhidas de maneira aleatória: pinturas de Van Gogh, Millet, ou mesmo fotografias de Paris, ou do consultório do pai da psicanálise, Sigmund Freud, em Viena. O objetivo é investigar o que aquela imagem suscita na participante, o que em si provoca, que memórias, reminiscências, ou até vidas possíveis – seguindo a Poesia mais rica do que a História de Aristóteles, por aquela representar o que poderia ser, enquanto esta “apenas” o que foi.

Com vocês, apresento as ekphrasis de Elba Lins e Bernadete Bruto, no segundo mês do Grupo de Estudos em Escrita Criativa (Recife – PE).

Patricia (Gonçalves) Tenório

 

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(Foto: Gerald Zugmann, Sigmund-Freud Museum, Wien)

Da janela à frente, observo aquele divã onde ela deitou-se tantas vezes e onde durante anos tentou esvaziar todas as suas dores, vasculhando o inconsciente, procurando Símbolos, procurando significados, tentando descobrir porque seu Lado Sombra a fazia correr até a esquina mais distante e se travestir em prostituta.

Nestes momentos, ela deixava que os outros explorassem seu corpo e se dizia Uma Prostituta Sagrada cuja missão era ensinar a todos o significado do Sexo Sagrado. Depois de tudo, ela corria de volta até aquele divã, e numa enxurrada de palavras, catalogava uma a uma de suas Experiências Místicas.

Um dia ela simplesmente viajou e seu nome saiu estampado na capa dos jornais. Havia deixado somente uma carta, onde explicava sair deste mundo sem cumprir o último desejo, sem finalizar sua missão na Terra, iniciar no Sexo Sagrado, ninguém menos do que eu. Eu que nos últimos sete anos tentei, do lado de dentro daquela sala, pôr uma luz, compreender todos os significados escondidos por trás das cortinas do inconsciente daquela mulher.

Hoje, o divã está vazio, mas continua num pedestal. As lâmpadas foram retiradas, as cortinas foram arrancadas, e nunca mais poderei decifrar a alma da minha paciente.

E eu estou agora, do outro lado da janela.

 

(“O Divã Vazio” – Texto escrito a partir da observação do primeiro Cartão Postal.

Para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa

Elba Lins – Recife, 06/09/2016.)

 

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(Pablo Picasso, Museu Picasso, Barcelona)

De um lado o médico. Ele muito entende das questões do corpo, mas pouco conhece da alma humana. Por mais que tente entender aquela mulher, para ele, ela não passa de mais uma enferma, de mais um ser que se encontra no limiar entre a vida e a morte. Ele toma seu pulso fraco, segura uma mão que é vista por ele com as cores da morte. Ele somente aguarda terminar este dia, se findar esta vida e retornar para casa. Ele nem pensa em dirigir à doente umas poucas palavras de conforto… pois sabe que não há mais nenhuma esperança.

Do lado esquerdo da cama, uma dedicada freira, um pouco mais consciente das coisas do espírito, tenta chamar esta mãe de volta à vida e tenta lhe entregar uma bebida quente. Olha a mão direita que repousa junto ao peito, ainda vendo nela uma coloração de vida, um sinal de esperança. A freira usa artifícios para atraí-la, entre eles mostra-lhe o filho, o único bem que tem nesta vida.

Mas entre estas duas figuras está ela, a enferma, que agora só pensa na alma que em breve deixará o corpo frágil e voará rumo ao desconhecido.

 

(“A Enferma” – Texto escrito a partir da observação do segundo Cartão Postal.

Para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa

Elba Lins – Recife, 06/09/2016.)

 

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(Vincent van Gogh, Van Gogh Museum, Amsterdam)

Hoje só desejo estar neste pequeno quarto e amanhã despertar, com o sol batendo na  janela.

Hoje não preciso de amigos, não quero amantes, quero acordar bem cedo e lavar as mágoas, a face e a alma; colocar o chapéu de palha e sair ao sol.

Vou percorrer campos de girassóis e firmar na retina as cores do mundo para poder transpô-las para as telas de linho dispostas na varanda, à espera da luz das cores adormecidas no branco inerte das telas. Nelas vou colocar a beleza dos campos, os detalhes de todas as coisas e a dança luminosa que só eu percebo nelas.

Mesmo que me isole do mundo e me torne um louco na visão dos outros, ainda assim, surpreenderei a todos com a beleza da minha obra.

Para Vincent Van Gogh

 

(“A Luz das Cores” – Texto escrito a partir da observação do terceiro Cartão Postal.

Para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa

Elba Lins – Recife, 06/09/2016.)

 

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(Jean-Baptiste Greuze, The Frick Collection, New York)

Camilla passa a maior parte do tempo livre, brincando com seus gatos ou costurando as peças para o enxoval. Enquanto costura pensa na vida: Quais os deveres de uma esposa? O que terei que fazer na minha casa, após o casamento?

Na verdade, ela preferia ficar enrolando os novelos de lã do que desenrolar os mistérios da vida e todos os questionamentos que não cessavam de surgir na sua cabecinha de menina.

Camilla pensou, pensou, e de repente se viu aguardando silenciosamente a chegada do noivo, um fazendeiro vizinho de cerca de quarenta anos, que não era exatamente o modelo de príncipe encantado que ela vira nos livros. Depois de muito pensar, Camilla decidiu que precisava fugir para bem longe dali e procurar trabalho como ajudante de costura. Ela começa a guardar os novelos, tesouras, agulhas e todo material de costura quando sente que alguém passa as unhas no braço esquerdo… ela se assusta e imagina que é o noivo que chega à sua casa. Neste momento abre os olhos para ver o que acontecia…era Blanche, a gatinha, que lhe dá pequenos botes tentando dela arrancar um dos novelos de lã. Camilla suspira aliviada, estava sonhando. Um noivo ainda não era assunto, senão para muitos e muitos anos depois.

 

(“O sonho de Camilla” – Texto escrito a partir da observação do quarto Cartão Postal.

Para o Grupo de Estudos em Escrita Criativa

Elba Lins – Recife, 06/09/2016.)

 

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(Foto: Pierre Michaud, Paris)

 

Ele & Ela em Paris

 

Num certo mês de maio de 1976, um casal anda de mãos dadas à margem do Rio Sena.

Ela: Nem acredito, estamos em Paris! Mal ando, flutuo nessa viagem. Olho para todos os cantos que tantas vezes li nos livros e vi nos filmes. Mas o que está me agradando mais é a companhia dele! Sim, ELE! Ao meu lado, de mãos dadas. Meu Deus! Nem acredito!

Ele: Estou em Paris! Inacreditável! Valeu todo o esforço, agora vou poder aproveitar minha vida! Vim com Ela para Paris… Nos conhecemos uma vida toda, vamos poder aproveitar bastante. Não vejo a hora de ver o Túmulo de Napoleão!

O casal sai da visita ao Túmulo de Napoleão e caminham pela cidade muitos quarteirões para conhecer melhor a cidade até alcançar a Champs-Elyssés… Na longa caminhada os pensamentos surgem no passo-a-passo.

Ela: Esta é a terceira cidade que visitamos na viagem. Estou feliz! Mesmo que esteja sendo tão interessante observar as diferenças, tentar entender e ser entendida. Nada mais importa do que estar com ele! Toda noite escolhemos nossos passeios e Paris é linda, tanto de dia, quanto de noite. A chuva às vezes atrapalha um pouco. Tudo é belo nessa cidade, embora seu povo seja meio abusado. Como se fôssemos obrigados a falar sua língua e como se estivessem fazendo um grande favor para nós turistas… Ontem naquela pâtisserie quase disse algo que rimasse como Merci Beaucoup… Ha ha ha!

Ele: Estou meio gelado hoje. Deve ser o frio. Sinto um misto de carinho paternal por ela, toda encolhida nesse vento frio… Mas estou cansado hoje. Algo na sua atitude me deixa meio irritado. Sempre chamando atenção por onde passa! Precisava ontem encrencar com o padeiro? Estamos em Paris, tanta coisa para fazer divertida, diferente. Não sinto que aprecie a viagem…

Ela: Não quero fazer nada para atrapalhar nossa viagem…

Ele: Acho que devo dizer a ela… contar toda a verdade…

Caminham em direção à Torre Eiffel… Cada vez mais apressados… Pois pinguinhos de chuva começam a cair.

Ele está entusiasmado com o lugar. Ela está com medo da altura, mas não diz nada. Aproveita a visão longe, bem longe dos parapeitos, como pode, à distancia… Ele nota seu receio, se aproxima e passa o braço em sua volta e vão descendo no elevador. Muitas emoções vão se sucedendo nessa descida…

Ela: Não adianta mais! Somos muito diferentes! Não consigo nunca agradá-lo!

Ele: Não adianta mais! Mas ela está comigo há tantos anos… Não posso decepcionar…. A  quem? A TODOS…??

Chove em Paris, ele compra um guarda-chuva para protegerem-se. Ela está gelada!

Ele tem pena… Abraça para protegê-la… Ali em Paris, onde muitos vão para namorar. Na frente da Torre Eiffel, ele a beija numa amorosa forma de despedida e ela sente, suspira… e acorda!

ELA: Ufa! Ai que sonho mais medonho, meu filho! Sonhei que estávamos em Paris. Paris, imagina? E você me dava um beijo de despedida…. Ai, meu Deus! Que horror! Abrace-me, meu bem!

Ele: Calma, meu amor! Estou aqui e não vou nunca lhe deixar! Foi só um sonho ruim….

Encosta sua mulher junto ao peito, esconde dentro da coletânea de poemas franceses, que estava lendo, o impresso do e-ticket da viagem dos sonhos à Paris…

 

Deslizar em um beijo nossos dois corações confusos ,

Tu que me ensinaste, já nem lembras mais.*

 

       À George Sand de Alfred Musset                                        

           

FIN

Recife, 23 de Setembro de 2016.

Bernadete Bruto

* Glisser dans un baiser nos deux coeurs confondus,

Toi qui me l’as appris, tu ne t’en souviens plus.

 

12-img_4980 (Jean-François Millet, The Frick Collection, New York)

 

PENSAMENTO NA LUZ DA LAMPARINA

DE LUZ E SOMBRAS

SOMOS NÓS

NA LUZ

VISLUMBRE DO ROSTO SERENO

ISENTO DE PENSAMENTOS

NA SOMBRA

O PESO DA VIDA

PREOCUPAÇÕES COSTURADAS

O DESTINO  ENQUADRADO

NO QUADRADO ESCURO

NA LUZ DA LAMPARINA

DO QUADRO SERENO

NO ROSTO DAQUELA MENINA (*)

 

“Estamos no ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1872. Sou uma mãe de família. Je m’apelle Pauline. Estou aqui sentada costurando na luz da lamparina, enquanto meu filhinho dorme. Este é o melhor horário para fazer os reparos. Meu dia é muito ocupado, cozinhar, lavar, passar, arrumar, em meio aos cuidados de meu filho pequeno. Então, aproveito a noitinha para a atividade que, de certa forma, é algo que me descansa, ainda mais agora, grávida novamente! Nesses momentos fico aqui pensando…

… Há pouco era uma moçoila sonhando com a vida! Agora estou aqui com esta realização. Meus pais escolheram o Jean-François para ser meu marido. Embora não questionasse, a princípio me deu um misto de alegria e receio… Agora, depois de passados três anos, algo sobre a luz da lamparina me deixa refletindo… SEI QUE A VIDA É ASSIM. Faço meus trabalhos como boa cristã, procuro ser uma esposa obediente e trabalho para que nosso lar esteja sempre bonito e aconchegante. Mas sou casada com um pintor. Por isso não posso exigir que a casa esteja sempre impecável. Ela tem de servir ao seu dono. Assim, muitas vezes costuro para fazer companhia a Jean-François, enquanto ele pinta, eu espero a hora para poder dormir. Algumas vezes o sono bate, cochilo sobre o tecido. Outras vezes me vem um vazio do fundo da alma… onde foi parar Pauline? Aquela menina loira que lia romances, conversava com as amigas e passeava junto com os irmãos nos arredores de seu solar sonhando com a vida futura???

Estou nessa vida agora. Costuro para não dormir. O bebê ao meu lado dorme depois de um dia de traquinagem. O senhor meu marido pinta o quadro, que não posso ver antes do término. Quando ele sair para dormir ainda vou ter que limpar a sala, levar o bebê para o berço. Minhas costas doem: o novo bebê que está nas entranhas começa a dar pinotes!

O relógio toca as dez badalas. O senhor meu marido parece que está no caminho certo do trabalho pelas pinceladas que relanceio daqui do meu canto e pelo visto vai demorar ainda… Estou aqui na luz da lamparina, com um pouco de vazio… Saudades de casa? De mim? Ou será que não foi suficiente minha ceia? Doidivanas! Não tenho tempo para pensar em baboseiras! Sou uma mulher católica. Estou cumprindo a mais honrosa missão e preciso terminar estas mantas. Logo o inverno chegará, o novo rebento nascerá e é meu dever manter tudo em ordem e aconchegado.

Novamente o carrilhão soa. Onze badaladas! Jean-François levanta feliz com o término da obra. Tão feliz, mas muito cansado! Depois dos cumprimentos de boas noites retira-se para os aposentos… Agora resta-me encerrar os serviços. Arrumo a manta, levo o bebê para o bercinho com um beijo na testa, passo o pano no vestíbulo.

Por fim, pego a lamparina para ir embora passando na frente da tela recém-pintada. Estanco. Estou estupefata! Pisco os olhos. Quem é aquela senhora costurando na luz da lamparina? Não consigo reconhecer a mim naquele espelho tão fiel da própria vida e infiel a minha própria alma! Quem sabe, por isso mesmo, prontamente, sopro a lamparina e saio no escuro em direção ao meu status quo.”

Recife, 23 de Agosto de 2016.

 

Bernadete Bruto

(*) Na luz da lamparina, Bernadete Bruto.

 

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(Johannes Vermeer, The Frick Collection, New York)

Almas Gêmeas

Uma moça anda pelo corredor do museu, toc-toc-toc. Viera para a exposição de Veemer que ficaria por algumas semanas na cidade. Toc-toc-toc, passa por vários quadros, mas um, somente um, lhe chama a atenção. Uma tela onde o cavaleiro conversa com uma dama. Esta cena lhe hipnotiza…

A moça olha fixamente para a tela, como se recordasse de algo… Havia visto aquela cena? Onde? Que livro, revista ou documentário? Quem eram aquelas pessoas? O que marcava aquele mapa na parede????

A moça olhou mais um pouco. Fixamente mais e de repente, num abrir e fechar de olhos, não reconhece a cena… ELA É A PRÓPRIA CENA! Com horror descobre que está dentro do quadro!!!! Levanta-se da cadeira, tenta sair pela tela, mas há algo como um vidro que impede a sua passagem.

Corre em direção à janela, mas ela também não abre mais do que estava na pintura e o chapéu do homem impede a sua passagem..

– Tudo é imutável, meu Deus! – disse a moça – Nada posso fazer… tudo ficará igual a tela! Uma pintura não se modifica com o tempo… Olha em volta desesperada procurando uma saída para aquele mapa e reconhece todos os lugares marcados.

Oxe, aqui só estão os lugares que visitei na minha vida… ai, meu pai! Que sonho horroroso é esse? Pisca os olhos na tentativa de acordar. Nada mudou… Com os olhos rasos d’água, ela senta-se na posição pintada, ri da própria desgraça com as mãos apoiadas na mesa e pronto! Nada mais é do que a moça da pintura… congelou naquele quadro! Apenas um observador mais atento notaria que a dama holandesa de sorriso doce tem uns olhos cheios de inquietude.

Toc-toc-toc, passos de um rapaz interessado na mesma exposição. Ao ver nos jornais, corre imediatamente para o museu. Toc-toc-toc, são seus passos caminhando pela exposição. Ele pára em frente ao fatídico quadro e reencontra-se com a cena familiar.

De longe, muito longe, há séculos atrás, o autor do quadro havia pintado aquelas pessoas com toda alma que, por esse motivo, por gerações permaneceram intactas, a energia presa ao quadro. Quando elas morreram, suas almas ficaram vagando por eras e hoje, encontram finalmente um destino.

Agora o olhar da mulher sorri no entendimento para aquele homem que também lhe sorri de volta. E assim, juntos, como por encanto, de mãos dadas, saem do museu conversando sobre as obras do grande artista holandês que pintava cenas domésticas.

Penso que é assim que as almas gêmeas possam se encontrar. Vão ter muito assunto para tornar interessante a companhia, aproveitando os dias em conjunto, transformados  numa agradável convivência, e, acho até, que vão ser felizes por muito, muito e muito tempo.

Recife, 24 de Agosto de 2016.

Bernadete Bruto

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(Foto: Castro Marim, Algarve)

 

Uma Casa em Algarve

Não permita Deus que eu morra

Sem que volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o sabiá.

(Trecho de “Canção do Exílio”, Gonçalves Dias)

 

“Todo santo dia passo na frente desta casa e invento uma série de desculpas só para, quem sabe, ver a menina que habita aquela casa? Por entre a porta e janelas fechadas, espero o instante feliz, no qual ela surja.

Menina linda, olhos negros, redondos, brilhantes e brincalhões balançando meu coração. Ao longe o som daquela música… menina linda que eu adoro, menina pura como a florEngraçado… Logo aqui, em Portugal, foi me acontecer tal fato… Tudo bem, tudo bem. A canção também não é brasileira!

Demorei demais aqui na frente. Não posso ficar mais… Os donos da casa, aquele senhor com ar sisudo e sua esposa de olhar desconfiado e arredio, logo me notarão se eu permanecer. Amanhã eu volto! Na manhã seguinte, passo novamente, e começo a inventar alguma desculpa para ficar olhando aquela casa, à procura da menina, já falei do seu sorriso? Para mim não há igual! Se não fosse esta laranjeira talvez eu conseguisse ver a minha menina…

A porta se abre num rompante, começo a andar olhando em outra direção, mais na esquina olho de relance para ver quem é… Ai, é aquela senhora desconfiada olhando de um lado para o outro, com uma vassoura na mão… Mas não me nota. Varre a calçada… Amanhã eu volto.

Não pude chegar pela manhã, chego no início da tarde. A laranjeira dá uma sombra na calçada que me lembra de outras sombras do passado recente… ouço a canção: sombras,  nada mais a torturarem meu ser…

A porta se abre. O senhor sai. Da porta, a senhora desconfiada lhe acena e rapidamente a fecha. E da janela? Da janela, nesse instante, vejo movimento. Logo desanimo… É apenas a senhora na janela! A menina, não está lá! Estou em Portugal e esta não é a minha casa, embora pareça demais com a casa da minha infância… Se não fosse o laranjal, diria até que voltei no tempo. E a menina que busco? Menina pura como a flor? Perdeu-se em algum lugar no meu coração… Agora apenas vejo sombras e nada mais!”

Recife, 23 de Agosto de 2016

Bernadete Bruto

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