O físico fica menor enquanto o mito cresce | Mara Narciso*

21 de agosto de 2016

O maior de todos é João Faria, celebridade cujo sobrenome não tem “s”. Os seus combustíveis são a fé sem concessões e a obsessão titânica. A natureza lhe deu bons recursos físicos, alta estatura e força, mas, desajeitado, não tem beleza e possui pouca habilidade na comunicação. É homem trabalhador e corajoso, tendo recebido, por quinhão, ritmo e tenacidade incríveis.

Tantas maneiras de ser, tantos lugares para se cair e foi dar de cara em Montes Claros. Seu avô Corinto era amigo de Indalício Narciso, proprietário da fazendinha Aliança, que é próxima da cidade. Com bom porte, João trabalhou naquela roça, rachou lenha, foi carreiro, fez trabalho braçal grosseiro e se casou com Benedita, filha de Manoel Urubu, criada ali por Picucha. Tiveram três filhos, dois meninos e uma menina. A mãe de João Faria era negra, e seu pai, José Faria, era branco. Viúvo casou-se com Nega, irmã de Picucha, e foram morar na Aliança.

João tinha tudo para ter uma existência singela, obscura, no anonimato. Mas não foi assim. Não era alfabetizado, morou anos como agregado num rancho, de portinhola exígua, que mal o cabia, ao lado de um bambuzal, no qual não fez nenhuma melhoria. Não tinha salário e recebia uma feira semanal. Tempos depois, com a indenização trabalhista, saiu da Aliança, comprou uma carroça e uma casa, e em 1977 mudou-se para o Bairro Camilo Prates. Ganhou a vida transportando ferro, sobre tração animal.

Havia uma cerca entre os quintais do seu bairro. Um dia, um chapa de caminhão vulgo Estrelinha, abusado, falou obscenidades para Benedita, sua esposa. Ela contou ao marido. João defendeu sua honra disparando com uma garrucha um tiro fatal, no peito do vizinho. Foi a julgamento, sendo absolvido pelo júri. Sidônio Paes Ferreira fez sua defesa. Até o promotor pediu a sua absolvição. Seu gesto, para os conceitos daquela época, foi considerado um serviço de limpeza social, pois o morto era temido por bater em todos, até na polícia. Após o acerto com a justiça, saiu livre para continuar a labutar vida afora. A esposa de João Faria é cega há vários anos, devido ao glaucoma, mas encontra-se adaptada a situação e faz tudo em casa.

Herdou do pai José Faria, que era caixeiro de frente do terno de catopês, o gosto e o conhecimento pelos rituais religiosos. Quando o terno ia acabar devido a um desentendimento entre o mestre e o procurador, João, aos 17 anos foi eleito por aclamação. Tornou-se Mestre do 2º Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, e esta é a sua glória, há 54 anos. O carroceiro humilde no restante do ano torna-se um ícone, um rei por curtos cinco dias, alguém festejado, assediado, fotografado à exaustão. Ressurge a cada agosto, quando se dá a transformação, e sai cidade afora comandando o terno com mão férrea.

É fácil sentir-se atraído pelos catopês. A roupagem branca, singela de mangas compridas, o capacete bordado de pedras sobre a testa, encimado com penas de pavão, e as fitas coloridas que vão da cabeça aos pés, têm uma estética privilegiada. Belos e fotogênicos os catopês atraem os olhos, o coração e as câmeras fotográficas.

Durante a festa católica, há o esquecimento da vida real, e afunda-se no mundo do sagrado, da adoração, e da fé, os quais dão forças para intermináveis batuques, cantorias e circunvoluções ritualísticas, um inusitado bailado, sob sol forte ou debaixo da lua. A incorporação espiritual é tão notável, que se pensa que o chefe dos catopês esteja em transe. Basta um som sair de sua boca, e o grupo que vai, volta e segue seus passos. João Faria canta, dança e toca o seu tambor com um fervor que comove. É um rito que não aceita mudanças. As evoluções do mestre catopê, assim como o batuque da sua caixa têm a marca da forte devoção. Vê-lo subir e descer as ruas principais da cidade impressiona, num homem encurvado aos 71 anos. Seus filhos não o seguiram. As décadas avançaram, e ele, antes alto e forte, foi perdendo o tamanho e a força, enquanto seu espírito e o mito se amplificaram. Os personagens de Montes Claros têm e fazem história, no caso dos catopês, há 177 anos.

 

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