El buitrero* | Iacyr Anderson de Freitas**

Para Fernando Fagundes

            Durante a viagem até Leopoldina, fiquei pensando no que o telefonema de Lisboa me revelava: uma irmã do outro lado do Atlântico. Irmã unilateral, da parte de pai. Ou seja, da parte mais obscura da minha vida. E mais impressionante ainda, essa irmã, sete anos mais nova do que eu, ostentava o mesmo nome de minha mãe – Natália.

Não cheguei a conhecer meu pai. Em minha casa não havia sequer uma fotografia dele. Meus documentos não especificam seu nome. Tenho na memória aquele que minha mãe não confiou, a contragosto, com a voz sempre embargada de ódio, nas raras vezes em que eu a inquiria acerca do assunto. José Gonzalo Roca. E ponto final.

Guardo também as inúmeras vezes em que meu pai deixou de cumprir com as promessas de me levar ao jardim zoológico, ao Corcovado, ao Leblon ou à sorveteria que ficava no final de minha rua. Não tenho conta dos sábados e domingos em que o esperei, de banho tomado, com a melhor roupa, sentado inultimente no sofá da sala, olhando para uma porta que jamais se abriu para lhe dar passagem, tentando ouvir uma campainha que não tocava de jeito algum. Depois, triste, concordar com os comentários nada consoladores da natureza torpe e egoísta desse personagem chamado José Gonzalo Roca. Minha mãe empenhava todo o seu furor nesses comentários, com brilhantismo ímpar.

Não tardou muito para que qualquer assunto vinculado a meu pai fosse evitado a todo o custo. Por conta das inúmeras promessas não cumpridas, acredito que ele também tenha deixado de fazer contato com minha mãe. Ou que ela tenha se recusado a atendê-lo, não sei ao certo. Dois anos após minha formatura, fui obrigado a suportar o terrível acidente de trânsito que vitimou minha mãe. Nunca cheguei, assim, a desvendar o enigma.

Agora eu precisava apelar para a única pessoa que talvez tivesse informações confiáveis acerca de José Gonzalo Roca: Tia Lira, radicada em Leopoldina desde que se aposentou do cargo de professora de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Minha mãe, filha única, sempre me dizia que Tia Lira – ou Lirinha, como ela a chamava – não era apenas uma amiga ou companheira de serviço, já que nenhum laço de sangue as unia, era a irmã que os cartórios não lhe deram. Ambas trabalharam, durante mais de duas décadas, em departamentos distintos da UFRJ, e se encontravam quase todos os dias. A morte de minha mãe obrigou Tia Lira a lutar contra uma depressão profunda, incapacitante, que só agora dava sinais de visível declínio.

Como eu mesmo esperava, não foi nada fácil encetar a conversa com Tia Lira. Expliquei-lhe tudo: o convite encaminhado pela Casa da América Latina, minha viagem a Portugal, a surpresa do telefonema recebido de uma nova Natália – irmã desconhecida, com quem, aliás, eu deveria encontrar em Lisboa –, o falecimento de meu pai. Tentei não ocultar nenhum detalhe. Tia Lira procurava disfarçar o seu desconforto diante do assunto. De início, mostrou-se arredia, pediu desculpas, demorou a organizar as ideias. Depois, disse-me que eu deveria estar preparado para absorver o fel das verdades que minha nãe, infelizmente, não tivera tempo nem condições emocionais de me confiar. Só então, com uma voz trêmula e flutuante, Tia Lira decidiu retirar os véus do mistério que me levara até Leopoldina.

“Conheci Natália em Brasília, em 1978. Morávamos no mesmo prédio. Eu trabalhava, na época, como professora do ensino médio em duas escolas da periferia. Sua mãe era supervisora de um curso pré-vestibular situado quase ao lado do nosso prédio. Como não me adaptei muito bem ao ritmo de Brasília, alimentava o sonho de voltar para o Rio de Janeiro, cidade em que passei boa parte da minha adolescência. Sua mãe, no entanto, me parecia bastante ajustada ao ambiente da Capital. Éramos solteiras, combinávamos bem, por isso decidimos dividir o mesmo apartamento, de modo a reduzir nossas despesas, fato que ocorreu no início de 1979. Foi em meados desse ano, creio, que seu pai surgiu. Homem elegante, bonitão, quase quinze anos mais velho do que Natália, de origem espanhola, fluente em diversos idiomas, prestando serviços temporariamente no Brasil, a pedido de um departamento de pesquisa tecnológica da Aeronáutica, se não me falha a memória. Pois bem, o tal José Gonzalo Roca soube cortejar sua mãe. Ela também, é preciso que se diga, ficou bastante caída por ele, naturalmente. Com o passar dos meses, entretanto, foi percebendo a grande aura de mistério que o cercava. Em primeiro lugar, não havia como entrar em contato com ele. Por conta das muitas viagens que fazia – sempre a serviço –, cabia a ele entrar em contato com a Natália. As incógnitas a respeito dele eram muitas.

“É importante que você saiba que vivíamos, ainda, apesar das propagandas oficiais, sob plena ditadura militar. O que se chamou de Abertura, com grande entusiasmo e enorme repercussão na imprensa, não era levado muito a sério por ninguém daquele conturbado período. À direita ou à esquerda. Logo, mistérios desse tipo, do tipo que envolvia seu pai, eram comuns, corriqueiros até. Mas a coisa se complicou quando um amigo meu, daqui de Leopoldina mesmo, recém-chegado do exílio, me informou que José Gonzalo Roca era, na verdade, uma perigosa peça de ficção. Ele nunca existiu. Tratava-se de um nome falso. Seu pai foi, na verdade, um militar de alta patente, sim, mas pertencente ao exército argentino. Esteve envolvido na Operação Condor, prestou serviços no Chile e no Uruguai. Ao que tudo indicava, sua alta patente servira aos mais baixos ofícios: principalmente torturas e assassinatos. Treinado nos Estados Unidos, com carta branca para agir em diversas republiquetas da América do Sul, ele estava no Brasil sofrendo um tipo de férias forçadas. Os ventos estavam mudando. Homem astuto e inteligente, creio que ele tenha percebido, antes de seus pares, as consequências de tais alterações políticas. Era preciso encontrar um país capaz de recebê-lo, sem que, no entanto, sua verdadeira identidade fosse revelada. Quando contei tudo isso para a Natália, ela caiu em desespero. Chorou três noites seguidas, teve muitas náuseas, não conseguiu dormir direito durante quase uma semana. Depois me confidenciou que estava grávida. Grávida de dois meses. Para complicar ainda mais a situação, o argentino tivera conhecimento da gravidez, cinco dias antes da falácia acerca de José Gonzalo Roca me ser revelada. Todavia, nós não podíamos deixar que tal revelação chegasse ao conhecimento dele, não sabíamos que tipo de reação aquele homem teria. Daquele momento em diante, nossas vidas tornaram-se um só pesadelo. Você precisa compreender… Espero que você compreenda, por Deus, tais fatos não podem ser analisados assim, à distância, fora de seu contexto histórico e sentimental…”

Tia Lira fez uma pausa mais longa. Sua expressão vacilava. Com dificuldade, tentando ocultar os olhos marejados, retomou o fio da meada:

“Sua mãe chegou a procurar uma clínica de aborto. O preço era exorbitante. O local, um lixo. Um conhecido médico de Brasília, depois eleito deputado, era o dono daquela espelunca. Que a verdade seja dita… Não há outra forma de compreender aqueles dias de terror e desamparo. Sua mãe tinha medo de tudo, da reação de seu pai, da mancha de ódio e vingança que ele carregava consigo. Das milhares de pessoas que o queriam supliciado até a morte. Ele era um grande incômodo para os seus pares, por tudo o que sabia e praticara, e um estorno para os seus inimigos e opositores. Quantas dessas pessoas não poderiam se voltar contra você ou contra ela mesma, visando acertar contas com um homem que torturou e matou diversos inocentes?

“Tudo se deu muito rápido, então. Ela pediu demissão do emprego e deixou uma carta para o seu pai. Redigimos a tal carta com todo o cuidado. Coube a mim entregá-la, quando o dito-cujo, sem ter como entrar em contato com ela, me procurasse. Isso ocorreu quase uma semana depois da partida de sua mãe para Belo Horizonte. A referida carta dizia que ela sofrera um aborto, e que tal malogro a fizera refletir melhor acerca da relação que tivera com ele. Enfim, que tudo não passara de um grande erro, que ela não o amava como deveria. Logo, era melhor que o relacionamento terminasse assim, sem mais delongas, apesar dos pesares. Solicitou, ao final, que ele a perdoasse, mas que não a procurasse nunca mais, que o esquecimento seria o remédio ideal para todo aquele enorme equívoco. Contra as mentiras do senhor José Gonzalo Roca, nada melhor do que uma carta bem melodramática, ao estilo hollywoodiano – e igualmente repleta de mentiras, não é mesmo? Sua mãe voltou então para Belo Horizonte, cidade onde você nasceu.

“Fiz concurso para a Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1981. Estudei feito uma louca. Como lhe disse, era meu sonho voltar a morar no Rio. Fui aprovada e comecei a trabalhar naquele mesmo ano. Sempre mantive contatos com a sua mãe. De vez em quando, eu a visitava em Belo Horizonte. Quando tive notícia da abertura de vaga para professor na Pedagogia, avisei-a imediatamente. Ela se preparou bem e, em meados de 1984, se não me engano, tomou posse na UFRJ. Moramos juntas, de novo, durante um curto período. Depois, ela acabou alugando um apartamento a algumas quadras de onde eu morava na Tijuca.

“Acontece que, embora sua mãe não tivesse deixado qualquer rastro, qualquer notícia do seu paradeiro, quando abandonou de vez Brasília, eu não tive o mesmo cuidado. Afinal de contas, o senhor José Gonzalo Roca era, para mim, um pesadelo ancorado no passado de uma grande amiga. Foi um erro brutal, o meu. No final de uma manhã de primavera, lembro como se fosse hoje – e estamos falando de 1984 –, num belo dia de sol, por sinal, eu e sua mãe nos deparamos com ele, na saída da universidade. Estava bastante mudado: alguns quilos a menos, a barba rala e quase branca, uma boina xadrez pouco condizente com o restante do vestuário. Aproximou-se de nós, com o olhar fixo em sua mãe: ‘Quero ver meu filho, passar uma tarde com ele, pelo menos uma tarde por semana. É meu direito’. Seu rosto parecia transtornado, repleto de ódio.

“Nunca passei por um pavor tão intenso. Diante daquele homem de mil nomes, de mil disfarces, de mortes por atacado, perdi a voz. Perdi minha voz completamente. Afinal de contas, ele nos olhava, literalmente, de cima, e fazia questão de externar o seu ódio e o seu desprezo. E foi então que eu conheci um outro lado da sua mãe, até aquele momento completamente escondido sob os modos gentis e fraternos da mulher que atendia pelo nome de Natália – e que a todos cativava. Ela tornou-se uma fera, verdadeiramente agressiva diante dele. Subindo o tom ríspido com o qual o canalha nos abordara, a pequena Natália colocou o dedo em riste e proferiu todos os impropérios que lhe vieram à boca. Foi um verdadeiro espetáculo. Ela afirmou que sabia perfeitamente quem ele era, e que poderia compartilhar com o filho, sem o menor problema, a miséria que representava esse conhecimento. Disse-lhe que o rol de mentiras elaboradas pelo senhor José Gonzalo Roca – uma risível peça de ficção – não o autorizava a assumir o papel de pai. Por fim, referiu-se ao momento político brasileiro. Ela agora possuía alguns canais… Isso era blefe. Puro blefe. Um ardil tramado pelo desespero. Mas que funcionou perfeitamente, pois nunca mais tivemos qualquer notícia dele.

“Quanto a você, bem, suas inúteis esperas de sábados e domingos… Os passeios frustrados ao Corcovado, à praia, à sorveteria, ao cinema… Que posso dizer? Talvez tudo isto seja uma dolorosa extensão do blefe anterior. Seu pai nunca agendou nenhum desses passeios. Uma vez, numa das muitas visitas que fiz ao apartamento de sua mãe, vi você todo animado, com um brinquedinho nas mãos, dizendo que estava à espera de seu pai. Você deveria ter uns seis ou sete anos de idade. Talvez oito, não sei. Aquilo cortou meu coração. Cheguei a ser ríspida com a Natália. Justo ela, que sempre foi uma mãe exemplar, tão carinhosa e dedicada a você… Então ela me disse, com os olhos em brasa: ‘o ódio também se ensina, Lirinha, também é possível domesticar alguém para o ódio. Mas fique tranquila: não é este o caso aqui… Você leu o jornal que eu deixei no seu escaninho ontem?’ Tratava-se de um dos jornais de esquerda que circulavam naquele período. Bem no alto da primeira página, o anúncio de um dossiê sobre o carrasco argentino El buitrero,[1] como era conhecido o seu pai nos cárceres da América do Sul.

“Nunca fui muito boa para guardar nomes. Ainda mais assim, quando um só sujeito é tão profissional a ponto de ostentar mais de uma dezena deles. Cheguei a anotar aqueles que o jornal declarava. Por exemplo, aqui está o verdadeiro nome de seu pai: Gamaliel Bustamante Azar. Ingressou no exército argentino em 1955 e passou parte dos anos 1960 nos Estados Unidos, aprendendo técnicas específicas de combate às guerrilhas. Adotou diversos nomes: Xavier Hernández, peruano, Juan Luis Peralta, chileno, Hidalgo Martín Ferrari, mexicano etc. E olhe que o espanhol José Gonzalo Roca sequer constava da lista apresentada pelo jornal. Todavia, quando circulava pelas masmorras, todos os seus companheiros de caserna o chamavam, com extrema deferência, de El buitrero. Ali, o tal dossiê, de cada dez prisioneiros que caíam nas garras de El buitrero, apenas dois saíam vivos. Vivos, mas imprestáveis para a vida: alienados, paranóicos, com inúmeras sequelas físicas e mentais. Logo, tudo o que se sabe sobre a atuação dele nos chegou através de pessoas que não foram interrogadas ou torturadas diretamente por aquele monstro, mas que estavam em celas próximas ou tiveram companheiros de cárcere envolvidos, nos processos de reconhecimento e de acareação. Dizem, inclusive, que durante as suas sessões de tortura, no auge dos procedimentos mais sádicos, ele declamava cantos inteiros do Inferno de Dante. E ostentando um italiano impecável, veja bem. Aliás, você não deve ter apenas essa irmã em Lisboa…”

Nova pausa. Oscilando ao fundo, uma angustiante tentativa de retomar o fôlego.

“Quando as sessões de tortura contemplavam mulheres jovens e bonitas, El buitrero não perdia a viagem. Incluía no seu ritual sádico o estupro. Uma estudante chilena declarou que sua companheira de cela foi violentada várias vezes por ele. Grávida, pariu a criança na prisão, sem a mínima condição de higiene. Como queriam arrancar da parturiente a localização de um guerrilheiro chamado Pablo, até o pobre do recém-nascido foi utilizado como instrumento de coação. Ainda assim, sem sucesso. Essa estudante chilena delarou que a jovem mãe não resistiu à ira do matador de abutres. Seu corpo foi retirado da masmorra naquela mesma noite. Provavelmente lançado ao mar no dia seguinte. Era a prática dos assassinos. Quanto à criança, ao que tudo indica, foi adotada por uma família uruguaia.

“Numa das páginas internas do jornal aparecia uma fotografia antiga, incluindo diversos militares argentinos, creio que se tratava de alguma cerimônia de formatura… ou coisa parecida. O rosto de seu pai vinha demarcado, com um círculo. Eu mesma não fui capaz de reconhecê-lo. A impressão do jornal não era das melhores. Mas eu tenho uma surpresa para você… Salvei esta fotografia do incêndio particular que fizemos pouco antes de sua mãe deixar Brasília, no início de 1980, embarcando às pressas para Belo Horizonte. Queimamos tudo o que poderia indicar o relacionamento dos dois: cartas, telegramas, presentes, fotografias etc. Tudo virou cinza. Sem que sua mãe percebesse, no entanto, eu salvei esta lembrança. Por quê? Sinderamente não sei. Talvez para entregá-la ao filho da minha maior amiga, de minha verdadeira irmã, quase trinta anos depois. Não vejo outro sentido, para o que fiz naquela época.”

 

O avião começou a traçar um longo círculo no céu de Lisboa. Não descansei um só minuto durante toda a viagem. De vez em quando, retirava da agenda a fotografia que Tia Lira salvara dos escombros. Minha mãe era mesmo uma jovem muito bonita. A figura do argentino Gamaliel Bustamante Azar, quer dizer, do espanhol José Gonzalo Roca, era esse o seu personagem naquele dia, um homem alto e magro, de rosto expressivo, sorriso largo, não me saía da memória. Minha mãe e ele, de mãos dadas. Algumas árvores circundando o lago refletido ao fundo. O verde intenso da grama. Sim, eles formavam um belo casal. A aterrissagem se deu dentro do horário previsto. Ao chegar ao hotel, tentei dormir um pouco, antes que Natália viesse a meu encontro. Fui assaltado, no entanto, por um pesadelo terrível. A porta de meu quarto se abriu de repente e um senhor, com o mesmo rosto de meu pai, veio até meu leito e se apresentou, de forma bastante cordial: “Prazer, José Gonzalo Roca, a seu dispor”. Talvez eu esperasse, como a criança que ficou no sofá da antiga sala, com um brinquedo qualquer nas mãos. Em seguida, outro senhor, também com o rosto de meu pai, cumpriu o mesmo ritual de apresentação: “Prazer, Hidalgo Martín Ferrari, a seu dispor”. Não faço ideia de quantos homens cumpriram o referido ritual ao adentrar no meu quarto. Todos, naturalmente, com o mesmo rosto e a mesma cordialidade. Chamava-me a atenção, apenas, a diversidade de roupas e dos nomes. Por fim, quando o cômodo estava quase repleto, entrou um senhor todo vestido de negro, com boa parte do rosto imersa na zona de sombra do tumulto recém-formado. “Prazer, eu sou seu pai”. E estendeu-me a mão manchada de sangue.

Natália parecia nervosa. Depois de algumas indagações superficiais acerca de minha viagem e da palestra que eu deveria apresentar na Casa da América Latina, disse que meu pai, ao saber que estava com câncer no fígado, mas já em avançado processo de metástase, decidiu escrever uma longa carta de justificativa. Essa carta foi reescrita diversas vezes, sempre que a doença o permitia. A última versão, com algumas emendas, ficou pronta uma semana antes de sua morte. Entregou-me, então, o envelope lacrado, contendo meu nome como destinatário. Sua justificativa, por incrível que pareça, estava endereçada a mim. Por quê? Peguei o envelope com cuidado, conferi a letra tremida e incerta, observei o nome gravado na parte destinada à especificação do remetente. Ela olhou para as minhas mãos e disse: “Que giro… tu não te pareces muito com ele. A não ser pelas mãos. Tuas mãos denunciam. São iguais as dele. É impressionante!”

“O teu nome”, perguntei, “como se deu a escolha do teu nome? Natália foi uma bela escolha.”

“Muito obrigada. A escolha foi dele, integralmente dele. Minha mãe queria, na verdade, homenagear sua tia materna, Sophia. Assim… grafado com um imponente ph no meio. No final das contas, venceu a obstinação de meu pai.”

Natália abriu sobre a mesa o álgum de fotografias. Lá estava o mesmo rosto expressivo, agora um pouco mais triste, sem o sorriso largo de outrora. Será que aquele sorriso pertencia apenas a José Gonzalo Roca? Como seria, então o sorriso do temido El buitrero quando, declamado um canto completo do Inferno, dava por encerrado, com louvor, o seu trabalho? Com o envelope nas mãos, os olhos ainda cravados no remetente, argumentei: “Deve haver algum engano. Fala-me um pouco sobre teu pai, quer dizer, sobre Leopoldo Lunel Varela”. Era este o nome do remetente.

“Ora”, estranhou Natália, “ele era uruguaio, nascido em Montevidéu em 1935. Formou-se em Letras ainda no Uruguai, trabalhando como tradutor durante um tempo. No Brasil, obteve o diploma de contabilista e passou a atuar na área de comércio exterior, em operações de exportação de minérios, representando uma grande siderúrgica situada no Vale do Aço, em Minas Gerais… Estou certa? Esse Vale do Aço fica em Minas Gerais, não é mesmo? Falava diversas línguas, adorava declamar o Inferno de Dante. Em italiano, claro. Sabia alguns cantos de cor. Seu inglês era fluente também. Veio para Portugal em 1986, já aposentado. Conheceu minha mãe nesse mesmo ano – ela era funcionária de uma agência postal situada ao lado do prédio em que ele morava – e casaram-se no ano seguinte. Infelizmente minha mãe faleceu no final da década passada, de complicações cardíacas. Logo que soube do câncer, do avançado processo de metástase, ele me disse que possuía um filho no Brasil, de nome Luís Antônio Pereira, nascido em 1980, em Belo Horizonte. Disse-me também que esse filho se formara em Comunicação no Rio de Janeiro e que trabalhava num tradicional jornal carioca. Todos os dias, pela internet, ele acompanhava as tuas matérias e os teus artigos. Sua grande mágoa, nos últimos meses de vida, era o distanciamento existente entre vocês, motivado, segundo me contara, por um desentendimento que tivera com a tua mãe. Algo tolo, inexplicável”.

Fiz uma pequena pausa. Natália não sabia nada sobre o argentino Gamaliel Bustamante Azar, não demonstrava conhecer a história de El buitrero ou do espanhol José Gonzalo Roca. Ou das dezenas de outros nomes envolvidos no labirinto que, para a sua felicidade, chamava-se apenas Leopoldo Lunel Varela, um uruguaio talvez exemplar, trabalhador honrado, bom pai, quem sabe até um excelente marido. Natália não demonstrava saber nada a respeito de nossos outros irmãos, aqueles que o matador de abutres gerara, à força, em diversos cárceres da América do Sul. Entrar para a família, neste caso, teria um preço. Eu não poderia ficar sozinho no inferno que esse homem de mil nomes gerara em torno de si mesmo.

“De fato, há um grande equívoco aqui” – disse-lhe, devolvendo a carta –, “não sou eu o verdadeiro destinatário desta correspondência. Meu verdadeiro pai chamava-se José Gonzalo Roca. Era espanhol e mulherengo. Trocava de país como as mulheres trocam de roupa. Nascido em Sevilha, herdara de seus antepassados ciganos essa louca vontade de estar em todos os lugares do mundo, se possível ao mesmo tempo. Embora seu nome não conste do meu registro de nascimento – e em nenhum documento oficial que me identifique –, eu tive a oportunidade de conhecê-lo, no Rio de Janeiro, poucos meses após ingressar na universidade. Devo confessar, no entanto, que tal encontro não me traz boas recordações. Não houve empatia alguma. Na verdade, achei-o vulgar, um sátiro levado a nocaute pelo advento da terceira idade. Por outro lado, meu nome é extremamente comum no Brasil. Não faço idéia de quantas pessoas, registradas sob o guarda-sol banal de Luís Antônio Pereira, existem apenas na cidade do Rio de Janeiro. Ou no meu bairro. Esse fato pode ter induzido teu pai ao erro, infelizmente. Mas, olhando de outro ângulo, me fez ganhar um leitor cativo aqui em Portugal.”

Natália parecia estar em transe, os olhos fixos em minhas mãos. “Estou sem palavras, não é possível…”, pronunciou como que para si mesma, “peço-te desculpas, meu Deus, desculpas do incômodo que te causei. Como fui parva… Eu deveria…” Tratei logo de interromper seu pedido de desculpas: “Olha, essas coisas acontecem. Como meu pai era um femeeiro incorrigível, também fui induzido ao mesmo erro”. Natália sorriu ainda atordoada.

 

Ter muitos nomes é o mesmo que não ter nenhum. Eis o que pensei quando alcancei a rua, deixando para trás, entre os velhos móveis de seu apartamento, uma Natália repleta de interrogações. Domei com os olhos as luzes tênues do Chiado. Se minhas mãos guardam alguma semelhança com as mãos que fizeram a história de Gamaliel Bustamente Azar – e o olhar acusador de Natália ainda me assusta –,  creio que posso colocar este parricídio na conta de meu próprio pai. Foi por uma causa nobre. E uma morte a mais, na longa contabilidade funerária de El buitrero, não fará muita diferença. Se eu soubesse, de cor, um canto inteiro do Inferno, ou mesmo um só dos seus melhores tercetos, juro que o declamaria aqui mesmo, bem no meio desta pequena praça.

Ah, sim, em italiano, naturalmente.

 

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El buitrero. In FREITAS, Iacyr Anderson et al. Só agora vejo crescer em mim as mãos de meu pai. 1ª e única edição. Juiz de Fora, MG: Edições Pasárgada, 2010, p. 57-71.

** Iacyr Anderson Freitas (Patrocínio do Muriaé, MG/1963) é autor de vinte livros de poesia e três de ensaio literário. Detentor do título de mestre em Letras pela UFJF, publicou também o volume de contos Trinca dos traídos (Nankin/Funalfa). Sua obra está traduzida para diversas línguas. Destaque-se ainda os três volumes que reuniram sua obra poética completa: A soleira e o século (2002), Quaradouro (2007) e Primeiras letras (2007), todos editados pela Nankin/Funalfa Edições, que patrocinaram a sua mais recente obra, Viavária (2010). Pelas Edições Pasárgada publicou o livro Terra além mar (2005). Contato: iacyrand@gmail.com

(1) Buitrero (s.m.): vocábulo espanhol que significa abutreiro ou caçador de abutres.