“Compulsão agridoce”* | Antonio Aílton**

O jardim de Po Chü-yi

 

Dizem aí que Fulano é um grande poeta

que tem estilo, e até consegue imitar

a si mesmo, para conservar sua marca

Que é como Picasso depois de Les Demoiselles

Quanto a mim, sei que meu pequeno jardim

não é como o das grandes casas de portões vermelhos

dos poetas que olham desdenhosos o outro lado do bulevar

Não é como os planejados para a entrada dos grandes colégios

nem como os que embelezam ainda mais os fluxos do sol

que rebatem nas vitrines das grandes empresas

Em meu pequeno jardim, eu sei, há flores

grandes e minúsculas, coloridas e tristes, às vezzes

perfumadas

e há também flores falsas como é natural das plantas

flores enjambradas e ervas daninhas que tenho preguiça

de tirar, ou não sei como

então deixo aos poucos amigos quando vêm beber vinho

olharem e dizer: “ô, isso cresceu aí…”, e respiondo: “foi mesmo…”

Então vamos beber um pouco mais de vinho, e aponto

uma velha espreguiçadeira herdada de Po Chü-yi

poeta mais sábio que todos nós juntos, e que após ouvir

o alaúde

perguntava:

“Por que suspirar por grandes terraços, açudes

quando um pequeno jardim é tudo quanto basta?”

 

Hayao Miyazaki

 

Grande é o mundo, nós o dominaremos

com a pequenina flor salpicada de crianças

e vendavais

um bastão, uma velhinha, um carrinho quebrado

que sobrou da última guerra

Mas o espírito é como uma fagulha, um vento singelo

que sopra ainda tenro dos pés de limão

de onde nasce a primavera e as gargalhadas da infância

La vêm elas,

as pequeninas correndo pelos campos

espalhando novas sementes nos balancinhos

novas lentes para cegueira

desentranhando a catarata do meu olho

Agora vejo o que parece Totoro, quase no meio da chuva

o mundo é vasto quando estamos dentro

nós o dominamos ao nascermos sempre

e de novo

entre suas viagens e paisagens

pântanos e bolinhas de fuligem

até completarmos o ciclo de volta

para nossa mãe,

a casa

 

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AÍLTON, Antonio. Compulsão Agridoce. Prefácio: Lourival Holanda. Jundiaí, SP: Paco Editorial, 2015, p. 18 e 40.

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