Pérolas em “Amor e outros desastres” | Alexandra Lopes da Cunha*

A pérola resulta de um incômodo. Comprarei um par, adornos para os lóbulos de suas orelhas. Brincos também podem ser pequenos ou grandes incovenientes. Muitas vezes, vi mulheres retirarem-se para falar ao telefone, ou para dormir. Os usam como enfeites, imagino para iluminar o rosto, distrair o olhar de eventuais imperfeições, ou até como distração para si mesmas, como quando levam as mãos até eles para terem o que fazer com elas.

Serão pérolas porque decidi assim, apesar de haver sabido depois que simbolizam o dobro do tempo que temos de vida em comum. Hábito curioso esse de associar significados a significantes, anos de casamento simbolizados por coisas mais díspares; metais preciosos, gemas, ou também outros prosaicos como papel, palha, sem haver uma lógica. Ou há e eu não a compreendo, pois o valor dos materiais não está diretamente associado ao passar dos anos. Quinze são bodas de cristal e isso para mim é apenas vidro, que é também areia.

Acordo cedo, tento não fazer barulho para que ela não desperte. Dividimos a cama há quinze anos, acho que não saberia dormir com mais ninguém, fujo de outras camas, culpado, para vir deitar com ela porque assim prometi. Em outro quarto ressonam nossas filhas que, muitas vezes, procuram na cama dos pais o conforto e então dormimos amontoados e mal.

Pérolas verdadeiras são raras, e por isso caras. Além de resultarem de um incômodo, este, um parasita, consegue penetrar a concha do molusco obsceno e indecente, forçando-o a defender-se secretando nácar, um tipo de sílica, apenas em uma a cada dez mil tentativas. Não creio que possa pagar o preço que teriam essas pérolas ocasionadas por acidentes estatísticos, de modo que comprarei as que achar mais bonitas.

Vou pelas ruas ainda vazias, a primavera anda fria, mais que o inverno. As flores colorem os passeios por onde agora poucos se atrevem, apenas alguns velhos e casais também de velhos, braços dados, às vezes carregam na coleira algum cão, que substitui os filhos que já se foram. E vejo, diante de mim, o que serei em trinta, quarenta anos: eu, ela, e talvez um cachorro, que as meninas já terão seguido suas vidas, e eu terei cumprido minha promessa de amá-la e cuidá-la, respeitando-a todos os dias da minha vida. Promessas não podem ser desfeitas e eu não desfiz a minha, só sei o quanto me custou mantê-la, já não mais a vejo ou sei dela, desapareceu após tentar em vão que eu voltasse a amá-la. Persisti, ignorei-a, pude sentir seu desespero, depois percebi que passou a odiar-me, como isso doeu, mas sabia que era o melhor a fazer. Sou homem de palavra, nada poderia dar-lhe, arruinaria tantas vidas se desfizesse o elo que me mantém unido à mãe de meus filhos, mulher que amo e admiro, assim como ela a mim.

Sei tudo isso e me vejo ali, caminhando pelas velhas ruas desta cidade que então significará minha vida, terei palmilhado por mais tempo que outras, já haverei esquecido coisas da minha juventude, a língua que falava então e da qual haverei esquecido por completo, e estarei de braço dado com ela, a mulher que foi minha vida, e na outra mão levarei a guia de um cão talvez já tão velho quanto eu.

Sigo pela rua das joalherias, observo vitrines, me enxergo refletido nos vidros cristalinos. Já o tempo começou seu trabalho de traça devorando-me aos poucos. Contrafeito, recordo as frases que ouvi desta outra que já não me fala, do seu perfume que já não deve ser o mesmo, e não consigo deixar de lembrar dela, hoje principalmente.

Encontro o que eu queria, pérolas perfeitas e redondas, que vão fazer a alegria da mulher que deixei então dormindo no nosso leito de quinze anos.

O belo par é acomodado em uma caixa de cetim negro, embrulhada depois em papel brilhante, arrematado com um vistoso laço vermelho. A vendedora, satisfeita pela venda que lhe deve ter valido um mês todo de trabalho, foi categórica em dizer: “Sua esposa vai ficar muito feliz.” “Sim, eu sei”, respondi.

E voltei caminhando pelas ruas já não tão vazias de gente, o sol se fazia notar, mas o frio seguia em mim, então apressei o passo. Queria acordá-la com o presente no dia do nosso aniversário.

E assim fiz, dei-lhe a caixa e a rosa vermelha, viçosa, perfumada e ela ficou, como havia previsto a vendedora, muito feliz. Agradeceu-me com beijos e lágrimas. De pronto colocou as pérolas nos lóbulos de suas orelhas, enquanto eu a observava sorrindo, certo de ter feito o que era correto, mas sentindo nas entranhas o incômodo crescer.

 

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