“O Bartleby que nos habita ou Uma voz vinda de outro lugar” | Patricia Tenório[1]

Sábado, 12/03/2016

 

São 14h15 no Bistrô do Solar na Praça da Matriz, Centro Histórico de Porto Alegre. Conheci o Bistrô na última quinta-feira quando vim (re)ler Bartleby, o escriturário,[2] do escritor norte-americano nascido em Nova York Herman Melville (1819-1891).

A (re)leitura deste conto de Melville faz parte da elaboração e reflexão de diversos textos que precisavam ser elaborados, e ruminados, e digeridos nessa segunda semana do terceiro mês do ano – Março das águas fluidas e imaginárias do Tom (Jobim).

O texto âncora do presente estudo encontra-se em Bartleby e companhia,[3] do escritor espanhol nascido em Barcelona Enrique Vila-Matas (1948). Nesse conjunto de “fragmentos”, esse diário ou caderno de notas de rodapé, Vila-Matas forja um personagem de si mesmo à medida que, diferente da vida real,  se propõe “corcunda”, sem “sorte com as mulheres”, e, principalmente, um “escritor do Não”. Na juventude, esse QuaseWatt – como se apelida na segunda metade de Bartleby e companhia – lançou um único livro, única arma contra a opressão paterna, livro que o fez abandonar essa mesma luta e o relegou ao “mal endêmico das letras contemporâneas, a pulsão negativa ou a atração pelo nada”[4] por causa de uma simples “dedicatória ditada” pelo pai.[5]

Os bartlebys são esses “seres em que habita uma profunda negação do mundo”.[6] O nome é originário (e tomado emprestado) por QuaseWatt/Vila-Matas do conto de Melville, Bartleby, o personagem por sua vez (também) em segunda mão, apresentado e narrado por seu chefe, um advogado proeminente, conselheiro do Tribunal de Chancelaria, e que, em um belo (ou “feio”) dia, resolve solicitar um serviço ao seu recém-contratado escriturário:

“Era nessa exata posição que eu me encontrava quando chamei-o, dizendo rapidamente o que queria que ele fizesse – mais precisamente checar um pequeno documento comigo. Imagine minha surpresa, ou melhor, minha consternação, quando, sem se mover de sua privacidade, Bartleby respondeu num tom de voz singularmente suave e firme:

– Prefiro não fazer.”[7]

A resposta – ou não resposta – de Bartleby gera no “advogado proeminente”, no “QuaseWatt” de Vila-Matas, e nesta pessoa que vos escreve, o “mal endêmico das letras contemporâneas”, o mal-estar por sentir/pressentir que nada mais pode ser escrito, apesar – e principalmente – dessa urgência veemente em escrever.

(Interessante lembrar que Melville ao publicar sua obra mais conhecida, Moby Dick (1851), não alcança a popularidade dos seus textos anteriores. À medida que opta por temas mais profundos, é relegado por seus próprios leitores a ser um escritor do Não, leitores que preferiam seus “simples relatos de aventuras”.)

“Apenas da pulsão negativa, apenas do labirinto do Não pode surgir a escrita por vir”,[8] nos alivia QuaseWatt/Vila-Matas. A “escrita por vir” nos remete a O livro por vir,[9] do escritor e ensaísta francês, nascido em Quain, Saône-et-Loire, Maurice Blanchot (1907-2003).

“O livro por vir”, o Livro de Mallarmé, “numeroso” e impossível de ser escrito, é o mesmo do autor “sem livro, escritor sem escrito”: Joubert.

“Joubert teve esse dom. Nunca escreveu um livro. Apenas preparou-se para escrever um, buscando com resolução as condições justas que lhe permitiriam escrevê-lo. Depois esqueceu até mesmo esse propósito. Mais precisamente, o que ele buscava, a fonte da escrita, o espaço para escrever, a luz para circunscrever no espaço, exigiu dele, fortaleceu nele disposições que o tornaram impróprio para qualquer trabalho literário comum, ou fizeram com que o evitasse. Ele foi, assim, um dos primeiros escritores completamente modernos, preferindo o centro à esfera, sacrificando os resultados à descoberta de suas condições, e não escrevendo para acrescentar um livro a outro, mas para se tornar mestre do ponto de que lhe pareciam sair todos os livros e que, uma vez encontrado, o dispensaria de escrever.”[10]

QuaseWatt/Vila-Matas desfia o novelo de lã dos escritores do Não: além dos próprios Joubert e Melville, apresenta Robert Walser, este afirma que “escrever que não se pode escrever também é escrever”;[11] Juan Rulfo, que em Maio de 1954 começou a escrever um romance “como se alguém me ditasse o livro”,[12] e esse livro era Pedro Páramo; Felipe Alfau afirma que, ao aprender inglês, um latino feito ele perde uma das características raciais: “aceitar as coisas como elas vêm”,[13] e, ao não aceitar, o faz emudecer para sempre.

Mas nada se compara ao maior ágrafo de todos os tempos: o Senhor, escritor do Não porque nunca escreveu uma linha, o filósofo grego, nascido em Atenas, Sócrates (circa 469 a.C. – 399 a.C.).

Encontramos em Sócrates aquilo que a romancista, roteirista, poetisa, dramaturga (apesar de) francesa nascida em Saigon, Marguerite (Donnadieu) Duras (1914-1996) afirmava com assombro: “Escrever, também é não falar. É calar-se. É uivar sem ruído”.[14]

Vamos ouvir esse “uivar sem ruído” de Sócrates em outro texto a ser “elaborado, e ruminado, e digerido” neste pequeno ensaio, nesta possível escrita que não se escreve: a Teoria-Poética Uma voz vinda de outro lugar,[15]  também do escritor e ensaísta francês Maurice Blanchot.

Blanchot aborda alguns escritores do vazio: os poetas Louis-René des Forêts (1918-2000), René Char (1907-1988) e Paul Celan (1920-1970), e o filósofo, historiador das ideias, teórico social, crítico literário Michel Foucault (1926-1984). Iremos nos deter nos poetas.

Na primeira parte de seu “livro fragmentário”, Blanchot analisa poemas de Louis-René des Fôrets sob a ótica da “anacruse” – do grego anakrousis, nota ou sequência de notas que precedem o primeiro tempo forte do primeiro compasso de uma música.

“Assim, o augural da primeira ou da extrema infância provou – no primeiro compasso – um silêncio-grito, ainda animal e contudo já humano. Vai manter o emblema desse primeiro silêncio (mas era esse o primeiro? Não existia, na antecedência do não ser – a pátria ou a “mátria” vazia – uma comunicação silenciosa, a mais íntima, a mais reservada?), silêncio ao qual ele é PROMETIDO e do qual, através de um impossível desafio, ele se faz uma PROMESSA?”[16]

A “pátria/mátria” vazia de Blanchot ajuda – quando aborda “A Besta Indomável” de René Char – a desfiar mais ainda o “novelo de lã” de QuaseWatt/Vila-Matas em busca desse “escritor do Não” primordial, atávico, original Sócrates, aquele que por sua vez se aproxima com a sua não-escrita do “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” do Cristo no Evangelho Segundo São João – esse “E” que também é anacruse, um contratempo, fora do tempo, pois o Verbo é consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo no Eterno, quando os tempos ainda não haviam sido criados, essa “voz vinda” de um “outro lugar”.

Sócrates, segundo Blanchot, propõe que nos afastemos da palavra escrita, porque é na linguagem falada – e reforçamos, em especial no diálogo que é construído no momento exato em que falamos –, que “a palavra está segura de encontrar viva na presença daquele que a pronuncia uma garantia”.[17]

Eis aí uma (possível) chave para decifrar os “escritores do Não” de QuaseWatt/Vila-Matas, inaugurados em Sócrates, que por sua vez é ao mesmo tempo prefiguração e imitação do Cristo, o Verbo encarnado, “E” que está fora do Tempo por ser Eterno.

“Por trás da palavra do escrito, ninguém está presente, mas ela dá voz à ausência, assim como no oráculo onde fala o divino o próprio deus jamais está presente em sua palavra, e é a ausência de deus, então, que fala. E o oráculo, não mais que a escrita, não se justifica, não se explica, não se defende: não há diálogo com a escrita e não há diálogo com o deus. Sócrates permanece assombrado com esse silêncio que fala.”[18]

“O assombro com esse silêncio que fala”. “O silêncio: um diálogo de mil palavras”.[19] A chave para tentar decifrar o enigma de QuaseWatt/Vila-Matas, o enigma que diz “Decifra-me ou te devoro”.

“Sou meramente uma voz escrita, quase sem vida privada nem pública, sou uma voz que atira palavras que de fragmento em fragmento vão enunciando a longa história da sombra de Bartleby sobre as literaturas contemporâneas. Sou QuaseWatt, sou mero fluxo discursivo. Nunca despertei paixões, muito menos agora, que sou apenas uma voz. Sou QuaseWatt. Eu as deixo dizer, minhas palavras, mas que dizem em vão. Sou QuaseWatt e em minha vida só houve três coisas: a impossibilidade de escrever, a possibilidade de fazê-lo e a solidão física, evidentemente, que é com a qual agora sigo adiante.”[20]

São 17h35 no Bistrô do Solar na Praça da Matriz, Centro Histórico de Porto Alegre. As três horas e vinte minutos de escrita (quase) contínua acalmam (um pouco) a minh’alma de mãe saudosa dos três filhos, de mulher ausente da cidade que nasceu e (que também) ama, Recife. Mas como se eu escrevesse as últimas palavras escritas acolhidas pela paisagem azul de Porto Alegre, que bem poderia ser a paisagem azul dos Açores de QuaseWatt, onde “Aqui acabam as palavras, aqui finda o mundo que conheço…”,[21] vou fazendo desaparecer minhas letras, vou deixando transparecer minha escrita, me unindo a Beckett, QuaseWatt, Vila-Matas, Joubert, Blanchot, Sócrates…, até as palavras me abandonarem e “com isso tudo está dito”.[22]

 

P(ost) S(criptum): Apenas uma Nota Póstuma de reclamação a Vila-Matas: quando “fala” de Oscar Wilde[23] afirma que este passou os dois últimos anos de sua vida de “grande felicidade”, podendo realizar o que admirava em Platão e Aristóteles (e porque não “dizer” em Sócrates?): “a inatividade total” como “a mais nobre forma da energia”. Wilde não escreveu mais após a prisão em 1895 por homossexualidade – com excessão do poema “A balada do Cárcere de Reading” e a longa carta ao seu ex-amante Lorde Alfred Douglas De Profundis (ambos de 1897) –, não escreveu mais, não porque desejava então imprimir “a inatividade total” dos gregos antigos em sua vida, mas porque foi execrado, e punido, e expulso da comunidade literátia e intelectual da Inglaterra vitoriana. Mas lembro que eu mesma disse que Enrique Vila-Matas “forjou um personagem de si mesmo” em Bartleby e companhia, o QuaseWatt. Então  “com isso tudo está dito”. E perdoado.

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* Para baixar o arquivo em PDF: O Bartleby que nos habita ou Uma voz vinda de outro lugar – Patricia (Gonçalves) Tenório – 120316

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(1) Patricia (Gonçalves) Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem oito livros publicados (O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007),  A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (2013)) e dois no prelo (Vinte e um / Veintiuno (a ser lançado em 11 (Lisboa) e 13 (Madri) de abril de 2016) e A menina do olho verde (a ser lançado (Livraria Cultura RioMar Recife) em 28 de maio de 2016)).  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo, o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(2) MELVILLE, Herman. Bartleby, o escriturário. Tradução: Cássia Zanon. 2 ed. Porto Alegre: L&PM, (1853 in) 2008.

(3) VILA-MATAS, Enrique. Bartleby e companhia. Tradução: Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac & Naify, (2000 in) 2004.

(4) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 10.

(5) Em Políticas da escrita, Tradução: Raquel Ramalhete… [et al], Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, p. 9, o filósofo francês nascido em Argel, Argélia Jacques Rancière (1940) afirma que a escrita “é o regime errante da letra órfã cuja legitimidade nenhum pai garante, mas é também a própria textura da lei, a inscrição imutável do que a comunidade tem em comum.”

(6) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., p. 9, (2000 in) 2004, itálico da edição.

(7) MELVILLE, Herman. Op. cit., (1853 in) 2008, p. 30.

(8) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 11.

(9) BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Tradução: Leila Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, (1959 in) 2005.

(10) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (1959 in) 2005, p. 70.

(11) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 11.

(12) RULFO, Juan apud VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 14.

(13) ALFAU, Felipe apud VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 19.

(14) DURAS, Marguerite apud VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 25.

(15) BLANCHOT, Maurice. Uma voz vinda de outro lugar. Tradução: Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Rocco, (2002 in) 2011.

(16) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 45.

(17) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 53.

(18) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 55-56.

(19) Essa frase (minha?) encontra-se em “Como funciona a ficção em Se um viajante numa noite de inverno : James Wood, Italo Calvino e Patricia Tenório juntos”, vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6464. Escrito de 18/02/2016 a 21/02/2016. Última atualização: 28 de fevereiro de 2016.

(20) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 55.

(21) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 168.

(22) BECKETT, Samuel apud VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 188.

(23) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 119-121.