Duas Crônicas de Mara Narciso*

“A saudade é arrumar o quarto de um filho que já morreu” (Chico Buarque)

2 de janeiro de 2016

 

É Dia de Natal. A metrópole acorda menos desvairada. Há pouco, as famílias brindavam a chegada do Menino Jesus. Em volta de uma mesa aconteceu a comunhão dos bons sentimentos. A sua vida, meu querido, está mansa e segue menos acelerada hoje, com ressaca de bom vinho. Seus netos abrem os presentes, trazendo em você a melancolia de outros natais jogados lá no passado, quase esquecidos em sua simplicidade de menino pobre, quando ganhar uma bola era um acontecimento.

Então, chega a notícia da morte do seu filho, de apenas 34 anos. É um nocaute, uma catástrofe que lhe é servida crua. Assimilá-la é, naturalmente, impossível. A sua cabeça e a sua vida se tornam um rodamoinho. Giram alucinadamente e uma máquina do tempo traz o nascimento do menino, a primeira vez em que o viu, um corpinho tão frágil, tão lindo, tão filho seu.

Nascer para viver pouco, desarrumando a ordem o deixa louco, mas é preciso providenciar, definir funeral, arrumar o corpo, velá-lo como bom cristão. Ver seu filho no caixão, entre flores, seu menino lindo, inteligente, amado, querido. Não, não e não! Quanto suplício! É uma aberração enterrar um filho. Os maus sentimentos invadem cada célula do seu corpo e rompem com cada uma delas. Uma falta de chão, um vazio, uma cabeça oca, numa desordem que altera sua percepção do universo, enquanto uma dor profunda rasga seu peito, divide seu corpo ao meio, dilacera sua alma. O sangue corre com dor e agonia, pois “se enganou de veia e se perdeu”. Os órgãos são esmagados e você se contorce. Sensações pavorosas lhe torturam e num susto vem a convicção do nunca mais.

Nada pode lhe consolar, mas ter cumprido seu papel, sendo um pai em letras maiúsculas, amigo compreensivo e de mãos dadas nas precisões, acalma. “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” (Renato Russo), e este amanhã não existirá. Você amou.

Os dias passam, o pensamento chega (na verdade ele não lhe sai da mente), e lhe dá um baque no peito, sendo urgente chorar. Chore até se sentir saciado, não segure nada, e então, farto de chorar, chore por mais meia hora. Entornar lágrimas limpa o corpo e a alma, depura o espírito, especialmente para quem pensa no infinito e acredita no eterno.

Algum remédio o conduz ao sono, mas é preciso acordar. A luz do sol traz você dos sonhos para sua realidade rasgada. Então, lhe vem a imagem dele, do menino amado, na primeira e última cena de todos os momentos do seu dia. É preciso manter a lucidez e aceitar as palavras de conforto, acumulando coragem, força e fé.  Tudo já está feito.

Eu sinto muito, mas não me atrevo a imaginar a dor que sente. Assim como encontrar uma peça de roupa ou outro objeto do filho querido, dar de cara com uma lembrança dilacera o peito mais uma vez. A sua fé, que eu sei, é grande, o ajudará a transpor os maus tempos. Viva sem limites cada estágio desse luto. Não se esconda de nenhuma etapa. Grite, esperneie, questione, maldiga e traga cada fase da vida do seu menino para sua frente. Fale tudo que precisar falar.

A dor é insuportável porque seu filho não é a sua melhor parte. Ele é você inteiro. Mas um dia, que você acredita que não chegará, uma saudade suave ocupará seu coração. Nisso eu creio.

 

“Estou em pleno domínio das minhas emoções!” (Casseta & Planeta)

8 de janeiro de 2016

 

Sentimentos e emoções se confundem e nos confundem. Tem-se falado tanto em controle, descontrole, descontrolado. Até que ponto é conveniente segurar a emoção? Outros sentimentos estão fora de moda, do mesmo modo que diversas virtudes. Há discurso e prática diferentes.

Diz o Aurélio que gratidão é a qualidade de quem é grato, um reconhecimento por um benefício recebido ou um agradecimento. Quando somem documentos ou cachorros, diz-se: gratifica-se bem. Quem faz o bem, sem olhar a quem, não deveria esperar recompensa. Especialmente quem faz caridade. Outra coisa em falta.

Em tempos de agressividade extrema, em que o bonito é pagar na mesma moeda, com o maior grau de rispidez possível, estranha-se quando o outro não revida. É desconsiderado, e muitos seguem fazendo chacota. É preciso se dar ao respeito, colocar limites. Aprendemos assim, e as redes sociais levam isso ao pé da letra. Ter um arsenal de insultos é considerado por muitos como sinal de habilidade social. Penso o oposto.

Hoje uma cliente me disse que, com uma receita feita por mim, nas mãos, foi comprar um medicamento para a tireóide. O balconista sugeriu a troca pelo medicamento genérico, e, diante da recusa dela, explicando que eu tinha pedido para que ela usasse o remédio de marca, o rapaz falou: a sua médica recebe dinheiro por fora para receitar esse remédio.

É rotina conviver com acusações levianas, especialmente se feitas por pessoas que não respeitam a si e nem aos demais, não prezam pela boa conduta e não se importam em atacar e ser atacadas. O vale tudo esquarteja a ética em praça pública. E prevalece o ditado de que chumbo trocado não dói. Meu filho Fernando assegura que quem se explica já está errado.

Reparo numa frase frequente: não estou nem aí para nada. A correção está completamente fora de moda. Há preferência pela alcunha de esperto do que de coitado. Os que gritam contra o governo federal, estadual e municipal, não são seres perfeitos. Um erro não justifica outro, assim como um erro pequeno não deverá ser ignorado, apenas por ser pequeno. Quem rouba um tostão, rouba um milhão. O crime é o mesmo: roubar. Regenerar-se, e mudar de vida é uma possibilidade, e todo erro pode ser perdoado.

“Eu ando tão a flor da pele que um beijo de novela me faz chorar” (Zeca Baleiro), e uma raiva pequena poderá fazê-lo explodir. O meu pai, Alcides Alves da Cruz contava que uma vez, num banco da cidade, durante o pico de atendimento, naquela época em que tudo era manual, diante de uma fila enorme de clientes, o gerente da agência perdeu o controle. Enfurecido chegou até o balcão, pelo lado de dentro, abriu a gaveta lotada de dinheiro, arrancou os maços de notas e jogando no público, gritou repetidas vezes: Vocês querem dinheiro, seus FDP? Vocês querem dinheiro? Pois tomem!

Naquele tempo, a psiquiatria, assim como outros ramos da medicina estava de fraldas, e pouco havia a ser feito para resgatar a vítima de um surto psicótico. Hoje, as pessoas sabem que para quase todos os males há tratamento e é possível controlar e até curar muitas doenças. Vimos pessoas com doenças mentais ser isoladas do convívio social, em manicômios, sem nenhum tratamento efetivo. Isso mudou.

A medicina melhorou, mas a conduta das pessoas nem tanto. A escola ensina e a família educa, mas ambas podem gerir o aprendizado infantil de forma harmônica, antes que seja impossível conviver. Com farpas e até mesmo pedras jogadas a rodo, alguns preferem digitar, lançar o veneno e esconder a mão. Até o próximo round. A vida digital anda assim, naquele horrível salve-se quem puder. Já esteve pior. Aos sobreviventes, dou a minha mão solidária. Chega pra cá!

 

_____________________________________________

* Contato: yanmar@terra.com.br