Um Conto e um Poema de Clauder Arcanjo*

Vigésimo conto de separação

 

— De novo, dona Angélica?!

— Sim, fui roubada novamente, seu delegado.

— Não, não é possível!… A senhora fecha a porta e as janelas antes de se deitar?

— Claro! Ora, mais; não estou tão velha assim.

A delegacia, era bem cedo da manhã, já estava lotada com os infortúnios da madrugada. O delegado Hermenegildo Fagundes Bandeira e seu auxiliar, o cabo Apolo Carnal da Silva, segregavam os casos mais graves, a fim de estabelecerem certa prioridade, na vã tentativa de darem maior, e melhor, celeridade aos registros policiais.

Dona Angélica, ciente de que seria uma das prioridades, estacionara bem ao lado da mesa do delegado e, de lá, não arredaria pé antes de ser atendida.

Delegado Hermenegildo Fagundes Bandeira, ao longo dos seus mais de vinte anos de profissão, aprendera a decodificar o semblante e os sintomas do que definira, nos seus altos estudos policialescos, como evidentes sinais da “compulsão para abrir um barraco”. Olhar esbugalhado, peito inflado, mãos crispadas, beiços em forma de bico… eram características irrefutáveis da dita síndrome compulsiva.

Hermenegildo correu os olhos pelos presentes na antessala e, sem tibieza, elencou aqueles que sofriam da síndrome por ele, há tempo, estudada.

Voltou para o seu birô e passou a relação de prioridades para o seu assistente.

— Começarei com Dona Angélica, cabo Apolo. Peça silêncio aos presentes.

— Sim, senhor.

— E não meça esforços para manter a ordem no recinto. Fui claro?

— Claríssimo, senhor delegado. Manter a ordem é comigo mesmo! — enquanto falava, cabo Apolo Carnal coçava, com satisfação, o cabo do seu velho revólver; segundo ele, muito quieto depois da “súcia de defensores dos direitos humanos que invadira as dependências da lei”.

— Sem abusos, Apolo Carnal! Sem abusos!

— Tá bom. Tá bom!.. — e cabo Apolo retirou-se, a resmungar, decepcionado.

Hermenegildo olhou para a primeira interrogada e pontuou:

— Dona Angélica, nem precisa nominar os seus dados pessoais, o seu último Boletim de Ocorrências (B.O.) ainda está sobre a mesa do nosso escriturário.

Voltou-se para o lado e determinou:

— Mude só a data para hoje, seu Nonato Gomes. E vamos ao que interessa: horário, breve relato do ocorrido e relação dos objetos levados pelos meliantes.

A denunciante pediu licença para se sentar; limpou os óculos de grau, serviu-se de um guardanapo de papel que havia sobre a grande escrivaninha, enxugando o suor da testa morena, e soltou a tramela que, até então, mantivera presa a sua língua. Começou, para desespero do delegado, com a descrição analítica e detalhada da noite, das constelações e de suas estrelas; em seguida, passou para os detalhes do vento que, segundo ela, assoviava cabreiro e caviloso lá fora, proseou sobre o ronco do filho e do neto que dormitavam no quarto ao lado; pouco depois, mergulhou profundamente, com um rigor romanesco de José de Alencar, nos detalhes da madrugada quente e de todos os seus espectros e fantasmas. Até chegar, com proficiência proustiana e memória de elefante, ao desmundo dos sonhos que completavam, fulgurantes, as suas horas de sono e vigília.

O delegado Hermenegildo Fagundes tamborilava, impaciente, seus dedos grossos sobre a caixinha de fósforos, louco para fumar um cigarro — Não poderia acendê-lo em recinto fechado, a lei não permitia —, e ver encerrado aquele proseado esticado. “Parece mais conversa de advogado amasiado do latinório” — pensava.

Quando ela deu uma pausa para enxugar uma lágrima furtiva, Dr. Hermenegildo atalhou:

— Acabou?

Nisto, um silêncio pediu passagem, instalou-se no ambiente e aboletou-se entre os três. Aquilo era pior do que o matraquear da vítima.

De repente, um choro compulsivo saiu da garganta de dona Angélica. Choro frouxo e pesaroso, igual àqueles de mãe que recebe a notícia malsã da morte de um filho.

Não ficou por isto, o baixinho Nonato Gomes, assistente do delegado, que acompanhava boquiaberto o sexto relato dos antecedentes ao crime perpetrado, fez coro com aquelas lágrimas. E o escritório do delegado transformou-se numa casa de sofridos lamentos.

Delegado Hermenegildo cuidou de estancar o rio de sofrimentos:

— Não me leve a mal, dona! Só poderemos recolher os facínoras quando a senhora chegar ao final do seu relato. Fecha-se o B.O. e, com as pistas recolhidas, sairemos em perseguição aos suspeitos.

Ela levantou os olhos grandes e, com uma névoa de inquietação nas pupilas, confidenciou:

— Acordei com ele na minha frente, seu Hermenegildo. Quando fui gritar, ele me pediu silêncio, em respeito aos que dormiam. Estava com as minhas tralhas. Disse-me que voltara da rua; prestes a passar para frente as bugigangas, viu a minha foto na tela do celular. Reconheceu-me: a senhora que havia perdido um irmão; assassinado, cruelmente, na cidade vizinha. Condoeu-se com a minha dor; afirmou que era contra os homicídios. “Roubar é uma coisa, matar é outra, caso bem diferente.” Deixou tudo nos seus cantos, deu-me os pêsames e saiu. E o que é pior, delegado, me disse que ninguém nunca mais me incomodaria. “Palavra de honrado ladrão.”

O delegado pôs os olhos em dona Angélica. Para, logo a pouco, de olhar esbugalhado, peito inflado, mãos crispadas, beiços em forma de bico… ter que ouvir:

— E como ficarei sem essas visitas ao senhor, seu delegado? Como eu ficarei, seu Hermenegildo, me diga?

 

Casa materna

 

Para Theo G. Alves

 

Na calçada, as duas cadeiras de balanço.

O casal a espiar, de mãos dadas, a noite.

Na pequena área, o espectro de vovô Sebastião.

Na sala, o ranger dos armadores, redes da infância:

Dos irmãos assombrados com os morcegos voadores.

Na cozinha, o cozido de Lídia, e o trinado do pássaro,

Preso na gaiola, a encher de alegria a quietude da cidade.

 

A casa materna habita, em espírito, dentro de mim,

Ancorada na beira da memória, nascente dos meus dias.

 

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