Poema de Antonio Aílton*

O TROCO

encho o meu carrinho de alimentos perecíveis e livros virtuais que guardarei plastificados como posfácio lembro do Mesmo na casca semântica deste dia cinza não quero ser identificado pelas etiquetas mas aí está a minha cesta de escolhas escassas e poucas metáforas para o poema que devo dedicar à caixa do supermercado devo falar em linguagem simbólica ou cifrada para não ofendê-la ela vai rir como uma etiqueta, ela vai dar meu troco incerto e nada digo não posso deixar a vida ainda mais parca por questão de centavos não quero parecer o machão, o poeta ou o panaca consolo-me com a lembrança de um poema de Jandira Zanchi tiros na esquina mas continuo sem saber como reagir ao assalto sequer se devo reagir ou apenas seguir em frente preparo-me para fazer outra leitura dos tiros na esquina vou me deslocando sem estacionamentos com medo de perder sem dar o troco topo com um cara similar mas não sei se eu sou o produto verdadeiro um de nós deve restituir a vida do outro deve haver algum acordo, alguma coisa a ser simplesmente dita antes que entremos em pânico

Antonio Aílton

Leeorah Hursky - Fusion

(Foto: pintura de Leeorah Hursky – Fusion)

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