Entre “Qu’est-ce que créer?”, Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela |Patricia Tenório[1]

30/12/15 10h00

Era uma vez (mais) um final de ano. Acontece (comigo) sempre uma espécie de Epifania[2] nesses últimos dias, nessas últimas horas de um calendário gregoriano. E quão bom saber (e sentir) que essa Epifania é provocada por um Livro, por uns Versos, e a Teoria que dele emana, que ele solicita, feito um filho pedindo (urgentemente) para nascer.

Abro a primeira página de Girândola[3], d’O Poeta de Meia-Tigela Alves de Aquino. Lembro do que aprendi em uma das disciplinas (Bases da Teoria), com uma das professoras do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, a também poetisa Prof. Dra. Lucila Nogueira:

– É preciso contextualizar o objeto a ser estudado, quer seja um escritor teórico, quer seja um escritor poético ou ficcional.

O Poeta de Meia-Tigela veio a mim de uma maneira meio que por acaso, meio que por “coincidência” – e eu não acredito em coincidências. Através de e-mails de “corrente do bem” – um escritor que apresenta a outro escritor que apresenta a outro escritor… – pela Internet, e ainda não o conheço pessoalmente. E o conheço, nos seus versos, nas suas tiradas cítricas e irônicas em relação ao mercado editorial brasileiro, quando se apresenta ao final de Girândola em “O Autor”:

O Poeta de Meia-Tigela nasceu Aves de Aquilino a 08 de agosto de 1968, em Brejo Santo, Ceará. Publicou em 2008 o Memorial Bárbara de Alencar & Outros Poemas. Em 2010 o Concerto Nº 1Nico em Mim Maior para Palavra e Orquestra. Poema (1º Movimento) e, em 2011, a reedição revista, ampliada e desmelhorada do Memorial. Este não foi traduzido para várias línguas: dentre as quais o espanhol italiano francês inglês alemão russo nepalês e náuatle. Em 2011 o Concerto não ganhou o Prêmio Jabuti apesar de não ter concorrido. Nos derradeiros anos a obra d’O Poeta de Meia-Tigela tem sido aclamada pela crítica nacional e internacional com estrondoso silêncio.[4]

Volto à primeira página de Girândola. Não exatamente à primeira página, mas à Epígrafe dessa minha Epifania. E encontro Hermann Hesse com um extrato de O jogo das contas de vidro.

Foi girando cada vez mais depressa e, por fim,

girando com enorme rapidez, rebentou,

espalhando-se pelo ar qual um punhado

de estrelas cintilantes.[5]  

Seguindo o conselho da professora Lucila – e essa “corrente do bem” de um escritor “chamando” o outro (“chamar” que vem de chamamento, vocação), também podemos encontrar essa “corrente” no método que adotaremos e que elucidaremos mais adiante –, seguindo o conselho da professora, apresento o segundo objeto de pesquisa de nosso estudo (“segundo”, mas em paralelo com o “primeiro”): o escritor nascido na Alemanha em 1877, e naturalizado suíço em 1923, Hermann Hesse.

Hesse foi contista, poeta, ensaísta e “editor de importantes obras da literatura alemã”[6]. Foi declaradamente contra o nazismo, escrevendo artigos na época da ascensão da ditadura. Viajou para a Índia em 1911 e a partir dessa experiência escreveu livros considerados místicos, ou mesmo foi rotulado como o “primeiro hippie”. Entre os livros, Sidarta (1922) e O lobo da estepe (1927). Utilizaremos no presente estudo O jogo das contas de vidro (1943), obra-prima que levou Hesse a receber o Prêmio Nobel em Literatura em 1946, e que, no nosso caso, além de relacioná-lo com a Poesia de Meia-Tigela, também tentaremos relacionar com a Escrita Criativa, objeto maior de estudo em que tenho me debruçado (insaciavelmente) nesses últimos dias (meses) do ano.

30/12/15 14h10

Assim como a Poesia (Tigela) e a Ficção (Hesse) me vieram de maneira “acidental”, meio que “por acaso”, a Teoria e a Crítica vieram ao meu encontro de uma maneira (um pouco) menos acidental. Estas vieram pelas mãos de minha orientadora de Mestrado na UFPE, a artista plástica, teórica da Literatura & Intersemiose, Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.

Durante a escrita da dissertação O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, Nino me apresentou Qu’est-ce que créer?[7] (O que é criar?), do filósofo francês, nascido em 1º de dezembro de 1917, professor de filosofia no Liceu de Yaoudé e Universidades de Alger, Nantes, Abidjan e Poitiers, Jacques Rolland de Renéville.

Dividido em nove capítulos, Renéville cerca as fontes da criação por todos os ângulos possíveis e termina com um “Pastiche e Mistura” no IX Capítulo, quando “dialoga” com a obra de La Bruyère, para exemplificar e esclarecer os conceitos por nós apreendidos no transcorrer do livro. Além de nos apropriarmos de maneira “antropofágica” dessa técnica do filósofo francês, seguiremos o seu “desfiar do novelo” sobre a criação, sobre “O que é criar?”, ao mesmo tempo que tentaremos nos apropriar da técnica do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu (1963) utilizada em Birdman[8] (2014).

O filme narra a estória de Raymond Carver (Michael Keaton), um ator de filmes de heróis (Birdman) que se encontra no esquecimento de público e crítica e tenta montar um espetáculo em que protagoniza na Broadway de Nova York. O que tomamos para nosso estudo feito técnica é “como” Iñárritu narra a estória: uma sequência fílmica única, fluida, sem cortes, mas marcada pela presença de um baterista anônimo que toca uma peça de Jazz. O tempo do filme é único, linear. O nosso tempo tentará ser único, linear, um autor “chamando” outro, um texto “convocando” outro, e a nossa sequência textual “fluida”, “marcada” (apenas) pelo dia e hora do início de (cada) escrita.

30/12/15 17h35

O livro de Renéville começa estabelecendo uma relação entre o Mestre, o Escravo (ou Servo) e a Obra (Capítulo I).[9] Cada Ser Humano, ao se tornar Humano, ao galgar o degrau do Ser Animal à Civilização, se coloca em uma das duas primeiras posições acima. Ou é Mestre de outrem – dominador, possuidor, comandante –, ou é Escravo, Servo desse mesmo Mestre – o Escravo/Servo como dominado, despossuído, obediente. Mas Jacques de Renéville nos lembra: todos podem vir a se tornar Mestres e lutamos contra o maior dos Mestres, aquele inexorável, o Mestre dos Mestres: a Morte.

O filósofo afirma que a Morte é o que nos faz sair do lugar. Diante dela temos duas (e apenas duas) escolhas. Ou nos prostrarmos e imobilizarmos, “De que vale fazer alguma coisa, se iremos mesmo morrer um dia?”, ou nos erguermos e mobilizarmos, e lutarmos contra a Senhora Morte com todas as nossas forças, com “todos os átomos do corpo (e da alma) de Epicuro” através da produção, da criação da Obra.

O Mestre é aquele que possui consciência de si mesmo, enquanto o Escravo/Servo age de maneira inconsciente, levado por seu Mestre, levado pela “manada”. O Mestre prevê e provê, mas também explora e reprime o Escravo/Servo. Mas quando o Escravo/Servo consegue adquirir consciência de si, construir uma Obra com suas próprias mãos e ser “reconhecido” por seu Mestre, invertem-se os papéis, e o Escravo/Servo passa a ser Mestre do seu Mestre, e o Mestre passa a ser Escravo de seu Escravo.

            Paremos um pouco. Ouçamos a Música.

O pensamento dos parágrafos acima não pertence apenas a Renéville. Ele é originário do filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831) e apropriado, e transformado em um pensamento mais largo por Jacques Rolland de Renéville. A Morte é o Mestre Absoluto, mas também o Servo Absoluto, nos afirma Hegel/Renéville. Ela nos arranca da vida biológica, mas nos insere na vida do espírito. Ao se afastar da Natureza, ao cindir com a Natureza, o Ser Humano forja a Cultura, erige as paredes da Civilização e, ao mesmo tempo, mantém a alteridade, nasce a História. No a-Histórico, cada Ser Humano se descobriria como Mestre e Servo de si mesmo, o que nos faz lembrar de Erich Fromm no seu A Arte de Amar quando fala da Mãe e do Pai introjectados no Ser de Amor Maduro.[10]

31/12/15 10h20

Só o Homem morre; o Animal desaparece. A Verdade dessa afirmação nos faz constatar que nos alimentamos do Outro para nos “conservar”, nos alimentamos de outros animais, nos alimentamos de outros escritores, pensadores, Mestres de si mesmos.

(Jacques de) Renéville cita (Jean) Baudrillard (1929-2007) que em A Sociedade de Consumo (1970) nos apresenta os três momentos da evolução humana, do rompimento com o Caos-Natureza até chegar à Civilização-Organizada: a Lei Natural do Valor, na Renascença; a Lei Mercadológica do Valor, na Era Industrial; a Lei Estrutural, no Reinado do Código, nos dias atuais, quando o sistema “produz e reproduz os indivíduos em tanto que elementos do sistema”.[11] É quando chegamos a O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse.

Assim como a Epígrafe de Girândola, do Poeta de Meia-Tigela é dedicada a Hermann Hesse, a Epígrafe de O jogo das contas de vidro é dedicada aos “peregrinos do Oriente”. Segundo o astrólogo, músico e escritor brasileiro Waldemar Falcão que prefacia O jogo na edição utilizada no nosso estudo, “Hesse preservou na íntegra a sua rebeldia e a sua inesgotável capacidade de não se conformar com as verdades prontas e estabelecidas”.[12] Filho de pastores protestantes, Hesse caminha em direção ao Oriente, mas faz em sua última e maior obra, próximo de completar setenta anos, uma reverência e um “Pastiche e Mistura” das diversas religiões e filosofias que habitavam o seu pensamento.

O jogo é narrado em um livro dentro de um livro dentro de um livro… quando é dividido em uma Introdução (“Ensaio de introdução popular à sua história”), na “Biografia” propriamente dita de José Servo, o Mestre dos Mestres do Jogo de Avelórios, e suas “Obras póstumas”. Em um tempo (não tão) distante, 2200, existe uma sociedade fechada chamada Castália, para onde os jovens intelectuais almejam e se preparam (incansavelmente) desde a infância para ingressar. O Jogo de Avelórios é feito das contas de vidro e das disciplinas (Música, Matemática, Filosofia…) “misturadas” e ao mesmo tempo individuais. O intuito do “Jogo” – parece a nós estrangeiros de outros tempos – não é o “vencer”, mas o “aprender”, e esse “jogo do texto” que (também) foi trabalhado por Wolfgang Iser nos faz querer elevar ao infinito o movimento do jogo, numa semiose sem fim até encontrarmos o sentido, até nos preenchermos por inteiro, de maneira diferente da nossa sociedade atual, uma sociedade em que o consumo preenche de maneira provisória e descartável a alma sedenta do Ser Humano caído que apreendemos com Erich Fromm no estudo há algumas linhas citado.

“Assim como os pensadores devotos de tempos antigos representavam a vida das criaturas encaminhando-se para Deus, a variedade do mundo das aparências completa apenas na unidade divina, e só nela pensada até o fim, assim também as figuras e fórmulas do Jogo de Avelórios construíam, musicavam e filosofavam numa linguagem universal, que se fundamentava em todas as ciências e artes, num jogo livre e num anseio pela perfeição, pelo ser puro e pela plena realidade. ‘Realizar’ era uma expressão apreciada pelos jogadores, e eles sentiam que seu ato era um caminho do devir para o ser, do possível para o real.”[13]

Prometemos o estudo paralelo entre Girândola e O livro, entre Tigela e Hesse. E o segundo ilumina o primeiro quando descobrimos no volume de Poesia do autor cearense o agrupamento dos poemas explicitado no “Foguetório”, espécie de Sumário Posfaceado. “Oratórios”, “Profissão de Fé”, “Subversongs” e “As Musas Alheias”. Música, Ninfas, Astrologia, o “Sonetódromo” que salta do imaginário de Alves-de-Aquino-Poeta-de-Meia-Tigela e nos convida a um “Pastiche”, e nos induz a uma “Mistura” com “as contas de vidro” cósmicas do escritor suíço-alemão.

Astrologia

Em todo acontecente oculto lastro

há, das rotas dançantes dos cometas

Prende-nos um sutil mas sempre nastro

às esferas distantes aos planetas

Pensamos ser apenas nosso o rastro

que leva à high society ou às sarjetas

Quando as estrelas atam-nos ao mastro

do fado a nos pregar peças e petas

Vem do empíreo mais alto de alabastro

a luz que rege e faz nossas cabeças

Grande poder alcanço e aumento e alastro

porém pouco perante o agir de um astro

Por isso estamos juntos não te esqueças:

o céu o quis e o predisse Zoroastro[14]

31/12/15 13h40

Hegel em Renéville afirma que “ao criar o objeto, o escravo cria a si mesmo”.[15] Os versos de Tigela são forjados por ele e o constituem, as contas de vidro de Hesse brilham nas mãos do Mestre/Magister Ludi José Servo – um Mestre que é Servo ao mesmo tempo, assim como aquele de Nazaré afirmava sobre “quem desejar ser o maior se faça o menor dos pequeninos” –, ficando nós leitores com a missão de investigar melhor essa Obra que os constitui e os faz transcenderem a Morte, serem maiores do que a Morte passando a serem o Mestre dos Mestres de si mesmos.

No II Capítulo, “Da Obra”,[16] Renéville narra a história das necessidades humanas, daquelas mais básicas na Era da Espada, quando era preciso usar a espada como instrumento de luta para sobreviver; passamos pela Era do Ouro, ou o uso do instrumento do poder; chegamos à Era do Espírito, ou ao utilizarmos o instrumento do significado. Se erige Mestre aquele que enfrenta a Morte até o fim, ficando o Servo reservado àqueles que desistem ou permanecem humilhados em seu lugar – aprendemos com Renéville. O Mestre forja no “fogo portentor” a sua imagem e semelhança, fogo que foi analisado em A psicanálise do fogo do filósofo e poeta francês Gaston Bachelard (1884-1962).

“Para nós, que nos limitamos a psicanalisar uma camada psíquica menos profunda, mais intelectualizada, cumpre substituir o estudo dos sonhos pelo estudo do devaneio, mais especialmente, neste pequeno livro, o devaneio diante do fogo. Em nossa opinião, esse devaneio é extremamente diferente do sonho pelo próprio fato de se achar sempre mais ou menos centrado num objeto. O sonho avança linearmente, esquecendo seu caminho à medida que avança. O devaneio opera como estrela. Retorna a seu centro para emitir novos raios.”[17]

A Epígrafe de Girândola e o extrato de O jogo das contas de vidro retornam “ao centro” do nosso estudo “para emitir novos raios”. O Criador, Mestre e Servo de si mesmo – forjado no “fogo portentor” –, ao criar sua Obra, não somente “some” a diferença entre Mestre e Servo, mas, principalmente, a diferença entre Criador e Obra.

“Servo pertence à classe dos indivíduos venturosos que parecem ter nascido e ser predestinados para Castália, para a Ordem e o serviço das instituições oficiais de ensino; e, ainda que não lhe fosse desconhecida a problemática da vida espiritual, foi-lhe dado viver sem amargor pessoal a tragédia de uma vida dedicada ao espírito.”[18]

 

Bem-aventurado, o

Eu sei alguém não sei quem provavelmente uma namorada do pueritempo me escreve diariamente duas cartas de amor, acontece até agora não chegadas. Do outro lado do mundo outro alquem pensa positivissimamente em mim seu príncipe encantado, apenas ainda não coroado mas um belo dia. Sei nalgum lugar, deste lado mesmo do grão-pará, uma condecoração por honra ao mérito à minha espera há, falta ma entregarem. E se declino do nobel da paz não se deve tal pela medalha que receberei daqui a breve em atenção aos meus feitos militares porém em função de já me ter predisposto àquele nobel que mais me interessa, o de. Talvez vocês me julguem sobremodo sortudo quiçá bem-aventurado. Pode ser, alguns como eu parecem nascidos para terem tudo aquilo que nascem querendo ter. O que sei é que um pombo-correio diariamente voa à minha procura, duas cartas no bico, somente até agora nunca me encontrou[19]

 

            Ainda ouvimos aquela Música?

Investigamos a Criação e descobrimos no Capítulo III[20] de (quase) mesmo nome Renéville invocando a Intuição do filósofo e diplomata francês Henri Bergson (1859-1941), e nos lembramos do estudo que fizemos durante a nossa dissertação de Mestrado quando mergulhamos em sua Bíblia, A evolução criadora (1907).[21]

No livro de mais de quatrocentas páginas, Bergson trata da separação entre a Inteligência e a Intuição ao traçar um panorama das teorias evolucionista e criacionista, salientando a diferença do evolucionismo em Darwin – que ocorre por “variações acidentais” –, enquanto em Eimer e Lamarck seria naquele “uma influência contínua do exterior sobre o interior” e neste “a faculdade de variar em consequência do uso ou não uso dos seus órgãos”, e também a “de transmitir aos seus descendentes a variação assim adquirida”, trazendo para nós a maior das Criações, que seria a Poiesis.

Essa mesma Intuição – que é fonte de Vida, fonte de Criação –, encontramos na sequência de setas que é a Palavra de Meia-Tigela, a Poesia de Alves de Aquino apontando para a Prosa de Hermann Hesse, que por sua vez, híbrida de Teoria, nos aponta para O que é criar?, do filósofo e professor francês Jacques de Renéville.

A Palavra

Há que lidar com a Palavra

Com suma delicadeza

Permitir brote a beleza

Para além de toda trava

Tome-a como adversária

E arrisque-se por perdê-la

Cativá-la é calar (e Ela

Mostrar-se-á esposa e amásia)

Pôr-se a lutar e enfrentá-la

É acirrar sua aspereza

Mas transitar-lhe as veredas

É deixá-la ser a Fala[22]

 

“A obra do espírito, a obra da cultura e da arte, é exatamente o contrário [da História universal], significa sempre um rompimento com a escravização do tempo, uma libertação do homem da sujeira de seus instintos e da sua inércia para orbitar num novo plano, intemporal, liberto do tempo, numinoso, em tudo e por tudo anistórico e anti-histórico.”[23]

(São quatro horas da tarde. O ano em breve se encerra e eu a escrever (e transcrever) Verso, Prosa ou Teoria. Mas feito o Servo/Escravo que ao forjar uma Obra com as próprias mãos se forja, se constitui Mestre e Espírito, Liberdade e Pensamento, continuo (mais) um pouco nesta luta com as Palavras, nessa busca de Sentido.)

Jacques de Renéville lembra Platão que em A República narra a vida anterior, esse céu de Imagens primeiras, o conhecimento primeiro da Verdade a redescobrir. E compara-o a (Marcel) Proust que Em busca do Tempo Perdido encarna “o autor em um de seus personagens por homologia entre ele e seu Narrador”.[24]

            A Música muda de ritmo. Façamos uma pequena pausa.

Relacionamos essa “encarnação” de Proust em seus personagens e esse retorno às Imagens primeiras de Platão com o que descobrimos na disciplina Metodologia da Pesquisa Literária ministrada no Programa de Pós-graduação em Letras da UFPE pelo Prof. Dr. Antony C. Bezerra: o filólogo judeu alemão Erich Auerbach (1892-1957), durante a Segunda Grande Guerra Mundial, também escreve a sua Bíblia. Chama-se Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental,[25] e foi escrita no exílio do filólogo alemão em Istambul, Turquia, quando dispunha de uma parca bibliografia – o que torna sua memória ainda mais admirável. No livro de “mais de quatrocentas páginas”, Auerbach, analisando extratos de textos de Homero à Virgínia Woolf, expõe e aplica o seu conceito de Figura,[26] tema de outro livro de mesmo nome em que narra a origem do conceito na relação que os Primeiros Padres, os Pais da Igreja Católica – em especial São Paulo e Santo Agostinho de Hipona – traçaram entre figuras do Antigo Testamento, tais como Davi, Moisés, Elias…, e a figura do Cristo, aquelas como prefiguração do preenchimento perfeito realizado com a vinda do Messias, tanto há mais de dois mil anos, quanto na segunda vinda esperada para o final dos tempos.

01/01/16 15h15

(Um ano aponta para outro ano. Construímos a partir do Passado, perceptivos do Presente, em direção a um Futuro não muito distante. 2016 inicia e nossos estudos continuam na busca desse preenchimento pleno que nos traz o Sentido.)

O Capítulo IV de “O que é criar?”, “Obra e Ipseité”,[27] aborda o Criador “como aquele que se nega para se elevar em direção de um Todo Outro”.[28]  Ele sai de si – um si exterior – em busca desse Absoluto que o arrebata e o fascina – um Absoluto individual –, e o que chama o Criador a criar é ele mesmo.

Essa relação do dentro de si e fora de si do (mesmo) Criador comparamos com o conceito de Figura de Auerbach – uma “figura” do Antigo Testamento que aponta para a “figura” do Cristo no Novo Testamento e no além-Evangelhos, no além-Bíblia –, e o aproximamos do pensamento de Hegel em Renéville quando afirma que o “animal devorando outro ou copulando com outro nada mais deseja que a si”, assim como “o futuro criador, ao consumir as obras de criadores mais velhos, deseja ser criador ele mesmo”, ou seja, “fazer existir uma obra”, e esta obra “fará de si um criador”.

São os textos que apontam uns para os outros em Mimesis, de Auerbach, são os teóricos do nosso estudo que apontam uns para os outros, são o Poeta Tigela e o Prosista Hesse que apontam um para o outro num círculo sem fim, numa Girândola d’O jogo das contas de vidro.

O Fugitivo

Por que parto por que corro se a vejo?

Por que fujo se a sinto aproximar-se?

Azulo se me bate o relampejo

De pensar e se agora ela chegasse?

Eis que desapareço percevejo

Jamais ousando olhá-la face-a-face

Tão logo seu andar ouço ou farejo

Me coiso me outro à mão qualquer disfarce

– Se abalo se me mando sem porquê

É que o meu gosto é tanto por você

Que só de imaginar correspondência

Temo perder o sumo da existência

Desse amor que lhe voto sem tenência:

Para mantê-lo, sumo, pererê[29]

 

“Quero assinalar apenas que a criação espiritual é alguma coisa da qual não podemos [os castálicos] propriamente participar, como muitos pensam. Um diálogo de Platão ou uma composição coral de Heinrich Isaac e tudo o que denominamos ação do espírito, obra de arte ou espírito objetivado são fechos, resultados finais de uma luta pela purificação e libertação; são, por assim dizer, como o designas, erupções do tempo no intemporal, e, na maioria dos casos, as obras mais perfeitas são aquelas que não deixam suspeitar as lutas e os combates que as precederam.”[30]

Parece que o motivo para essas “setas” entre textos, dessa Palavra “Fugitiva” que tentamos capturar e segurar ao máximo em nossas mãos feito “pedras quentes”, o motivo parece estar na constatação que perceber, “compreender, dar sentido, constituir, falar, é usar de um significante como significado lá onde o em si é roubado, nada mais oferece que o vazio”.[31]

“A constituição é uma substituição”, continua Renéville na mesma página do parágrafo anterior. E ainda na mesma página do parágrafo anterior, de maneira saussurreana, “o significado significa ao substituir o referente com o significado, o signo em lhe substituindo sua significação”.

O mundo nos constitui, assim como na criação as relações entre signos e significações já existentes são renovadas pelo artista Criador, naquele que impinge – ao mesmo tempo que em si impinge – um sentido todo novo, uma expressão toda própria e individual de uma Obra de arte.

No Capítulo V, “As duas fontes da criação”,[32] Jacques de Renéville nos ensina que informatizar é “tratar automaticamente todas as informações que se prestam”, informação como “elemento ou sistema de elementos que podem ser transmitidos por um sinal ou um sistema de sinais”.[33] Descobrimos que é informatizável em uma Cultura “o que é automatizável”. Ou, em outras palavras, “tudo menos o essencial”.

O que pode ser imitado, reproduzido, transcendido, traduzido, transmitido, codificado, mecanizado: não faz parte do essencial. Do essencial faz parte a Criação, o ato livre “no qual o que é vem a não ser enquanto o que não é ainda vem a ser”.[34]

O Homem é aquele que nega, afirma Renéville na página 76. Mas ele só pode negar “alguma coisa”, aquilo que já existe, o que lhe impõe “uma resistência criativa”. Nós “não negamos, não esculpimos, não escrevemos nem compomos no vazio” – na mesma página 76. Então nos lembramos de uma outra obra “essencial” de Hermann Hesse, obra que nos meus 35 anos mudou inteiramente a minha vida.

Trata-se de O lobo da estepe. Escrito quando Hesse havia completado 50 anos, sobre um personagem aos 50 anos (Harry) – e eu “não acredito em coincidências” –, trata desse vazio que Renéville afirma que não podemos “negar”, que precisamos “resistir”, e superar, e transcender nos últimos instantes de um ano, nas primeiras horas de uma nova vida, de uma nova Obra que almejamos, e lutamos incessantemente para construir, ao mesmo tempo que nos construímos.

“– É para mim uma alegria, meu caro Harry, poder tê-lo um instante como hóspede. Você tem andado frequentemente desgostoso da vida e com ânsias de deixá-la, não é verdade? Tem ansiado abandonar este tempo, este mundo, esta realidade, e entrar numa outra realidade que lhe seja mais adequada, num mundo intemporal. Pois faça-o, meu amigo, eu o convido a isso. Você já sabe onde se oculta esse outro mundo, já sabe que esse outro mundo que busca é a sua própria alma. Só em seu próprio interior vive aquela outra realidade por que anseia. Nada lhe posso dar, que já não exista em você mesmo, não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível seu próprio mundo, e isso é tudo.”[35]

Criar é “pôr para fora” o que há “para dentro”. É exteriorizar até o que não sabemos existir em nós mesmos, e que só nos é possível (entre)ver ao manusear o barro, ao esculpir o mármore, ao (ins)escrever no papel, computador aquelas palavras que “me surpreendem e me ensinam meu pensamento”[36] – já dizia Maurice Merleau-Ponty em Jacques Rolland de Renéville.

Estamos tratando das “duas fontes da criação”. Descobrimos com Renéville (e com os linguistas) que toda língua possui duas funções. A função referencial, ou aquela de “transmitir sobre o objeto descrito uma informação verdadeira, objetiva”, e a função emotiva, ou aquela que transmite “sobre o objeto descrito uma impressão subjetiva”.[37]

Dois são também os tipos de pensamento.[38] O pensamento arcaico, selvagem do “princípio dos tempos” humanos, quando havia mais a necessidade de “celebrar um mistério” do que “uma verdadeira comunicação”, a necessidade de mais comunhão e “formas coletivas de participação”, em um regime totalmente “polissêmico”. O pensamento selvagem, arcaico, polissêmico não percebe nada “que não seja misturado”, ele “ordena o universo ao redor do princípio geral da analogia”, estabelece relações “entre todos os componentes do mundo” por estar mergulhado em um Todo Uno e Absoluto.

Em oposição aos signos polissêmicos de “prestação total”, encontramos os signos “monossêmicos”, ou fundados no direito romano. Os signos monossêmicos são aqueles da “inteligibilidade objetiva” e os signos polissêmicos são aqueles da “expressividade subjetiva”. Descobrimos esse “Pastiche e Mistura” de monossemia e polissemia na obra do filósofo e poeta francês anteriormente (um pouco) analisado neste estudo, Gaston Bachelard, essa “mistura” de Teoria com Poesia, Crítica e Ficção, Vida e Arte.

            Ouçamos um pouco mais de Música. Paremos um pouco mais no Espaço.

A Cultura nasce na independência do “sujeito falante” ou que gesticula: ela nasce na Escritura. E o que na mesma Cultura resiste à informatização é a Criação de Sentido, tanto aquela espontânea “no seio da polissemia vivida” quanto aquela “liberada pela escolha de combinações novas entre elementos monossêmicos e polissêmicos”. O Poeta e o Prosador “cantam”:

 Carme

Os cabelos ao vento versos livres

correndo estrada leves andarilhos

Os olhos pirilampos loucos ivres

que ofuscam cegam com seu estrib(r)ilho

A boca da menina é um rubai

trova quadra ao sabor oriental

Os seios pequeninos dois haicais

Nem Bashô conseguiu fazer igual

O ventre labirinto e desvario

no qual me entranho saio e readentro

As nádegas balada cujo envio

não se dá ao fim mas em pleno centro

Alma a essência sutil de um paracleto

em que me embebo e escrevo este soneto[39]

 

“Minha vida deveria ser um transcender, foi esse o propósito que tomei. Devia ser um progredir, de degrau em degrau, em que os espaços, um após o outro, deveriam ser trilhados e abandonados, da mesma forma como uma melodia se inicia, se desenvolve e chega ao fim, tomando e deixando tema após tema, compasso após compasso; jamais se cansa, nunca adormece, sempre alerta, sempre perfeitamente presente. Procurando relacionar isso com a experiência do ‘despertar’, notei que existem tais degraus e espaços e que o último período de cada capítulo da vida traz em si uma tonalidade de fenecimento e desejo de morrer.”[40]

Porque Criar é “exercer sua liberdade, escolher a angústia”.[41]

02/01/16 10h15

(Hoje foi o primeiro banho de mar do ano. No mar alivio a angústia de criar, ao mesmo tempo que me insiro, que mergulho por inteiro na Criação. Volto renovada aos meus escritos, pressentindo o fim, o fim que poderá ser o início de um Todo Novo.)

Renéville, no Capítulo VI, “O sentido e o som”,[42] descreve a Prosa como aquela que “usa a linguagem como um meio” e a diferencia da Poesia por ser o Prosador aquele que “se serve das palavras para ir direto às coisas”, enquanto o Poeta “se desvia das coisas ou as utiliza para servir as palavras”.[43]

Na origem dos signos, linguísticos ou não, sua função era encantatória. Entre a representação e aquilo que os signos originais representavam havia “mais que relação”, havia “identidade”. O Poeta – e o tomemos aqui como Profeta, no sentido (pre)figural de Auerbach – era aquele que “constrangia” os signos linguísticos a “serem” sua própria significação. Da mesma forma que “Deus disse ‘que a luz se faça’ e a luz se fez”, o sujeito falante, o Poeta cantante se apropria da Palavra, faz a Palavra ecoar através de suas cordas vocais, e essa Palavra “faz infinitamente melhor que exprimir a realidade, ‘ela é esta realidade’ (…)”.[44]

Descobrimos que escrever, ler em silêncio é uma maneira de transformar o mundo, lá onde “os signos criam o que significam sem material”, sem a voz que ecoa e soa através de nossas cordas vocais. A grande herança que recebemos dos antigos Gregos foi que, através do signo escrito, eles conseguiram “fazer uma só coisa do sonoro e do sentido”.[45]

            Faz tempo não ouvimos aquela mesma Música.

“Sentou-se e tocou com esmero, bem baixinho, um movimento daquela sonata de Purcell, uma das peças prediletas do Padre Jacobus. O som caía no silêncio como gotas de luz dourada, tão de leve, que não impedia de ouvir o cantarolar do velho chafariz no pátio. As vozes da graciosa música encontravam-se e cruzavam-se suaves e serenas, parcimoniosas e doces, percorriam corajosas e mansas sua doença interior através do vácuo do tempo e da efemeridade, tornavam o espaço e a hora noturna, durante a curta extensão de sua duração, imensos, da dimensão do universo. Quando José se despediu do hóspede, este mostrava um rosto mudado e iluminado e tinha lágrimas nos olhos.”[46]

 

Tetralogia da incomunicabilidade (α)

Que dizer há muito

Mas dizer sem boca

A garganta é rouca

Para tal assunto

Assunto, coitado

Que fica onde está

Nenhum verso dá

Conta do recado

Recado sisudo

Que morre na toca

A palavra é pouca

Não toca o profundo[47]

 

Na origem dos signos, emitir um som era a reação “ao contato do real”. Com o passar dos tempos, se transforma no “forjar a menor unidade vocal de uma combinatória”, com o intuito de responder “ao infinito os aspectos do mundo”.[48]  Somente com a Escritura, é possível a transformação “efetiva” e não “virtual” do Som em Sentido.

É na Escritura Ideográfica, lá nos tempos do Mesolítico, que se inaugura essa efetivação, que se inscreve essa eternização do Som em Sentido. Mas ainda a Escrita era Escrava da Imagem. A sua libertação só ocorre com o Alfabeto Fenício, entre os séculos XIII ou XII a.C..

No Alfabeto Fenício se ligava “diretamente”, sem a mediação “paralisante” de qualquer “representação”, a coisa significada por um Som à “inicial da palavra significante”. Com isso, além do que já existia, ou seja, o signo sendo “um” com a coisa significada, no signo escrito, o signo se fazia “uma só e mesma coisa do sonoro e do sentido”.[49]

A “imagem acústica” do significante, a “marca psíquica” do Som que nos ensina Saussurre, através de Renéville, (através de Tenório, (através de…)) nos foi apresentada no estudo sobre “O que é, pois, o Tempo?”, do pensador cristão e (pre)figural Agostinho de Hipona (354-430) em suas Confissões.

Em mais uma Bíblia do presente estudo, encontramos Agostinho mergulhado na questão de como pode ser medido o Tempo, ou melhor, como pode existir o Tempo se o mesmo foi criado a partir do Eterno, quando não havia Tempo, quando não havia Espaço. O Deus Todo Poderoso de Agostinho eternamente proferiu a Palavra original, e “se fez luz”, os planetas, os animais e todos os seres vivos foram criados e nomeados por sua Criatura escolhida e forjada à sua imagem e semelhança: o Homem. Essa Palavra original proferida, foi coeternamente proferida no “Verbo que se fez carne e habitou entre nós”, assim como na chama flamejante do Espírito Santo, e que está na base do conceito de Figura que vimos com Auerbach. Mas como pensar o Tempo? – continua a se perguntar o Santo de Hipona – e a pergunta ao encontrar a resposta perfaz o Mito da Criação.

Ele toma então uma Música – barro utilizado por Tigela e Hesse – e faz ressoar um acorde. O acorde ressoa em suas cordas vocais, arranha suas cordas vocais passando do (Presente do) Futuro da Expectativa através do (Presente do) Presente da Percepção até habitar a Memória do (Presente do) Passado – notem os (Presente)(s) entre parênteses para nos lembrar que, segundo Agostinho, só o que existe é Presente.

“Fixa o olhar onde desponta o amanhecer da Verdade. Supõe, por exemplo, que a voz de um corpo começa a ressoar, ecoa, continua a ecoar e cala-se. Fez-se silêncio… a voz esmoreceu… já não é voz. Era futura antes de ecoar e não podia ser medida porque ainda não existia, e agora também não é possível medi-la porque já se calou. Nesses instantes em que ressoava era comensurável, porque então existia uma coisa susceptível de ser medida. Mas mesmo nesses momentos não era estável. Ia esmorecendo e passava. Não seria por acaso esta instabilidade ou movimento o que a tornava mensurável? Com efeito, ao esmorecer, estendia-se por um espaço de tempo pretérito onde seria possível medi-la, já que o presente não tem nenhuma extensão.”[50]

Renéville nos conduz aos Pintores que introduzem uma “dimensão temporal no universo espacial de sua tela”, e aos Músicos que “introduzem como um equivalente do campo espacial na duração sonora”.[51] Além de coincidirmos essa troca de dimensões em cada arte (o temporal no espacial na Pintura, o espacial no temporal na Música) com a técnica de sequência fílmica sem cortes (e que nos dá a sensação de Tempo único, todo no Presente) utilizada por Alejandro González Iñárritu em Birdman, traçamos uma conexão com o espaço quadridimensional de Minkowski, utilizado por Albert Einstein na descoberta da sua Teoria da Relatividade, utilizado por mim na escrita da dissertação de Mestrado quando tratei do “que é, pois, o tempo?” em O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

“[…] o universo dos eventos físicos, que Minkowski chamou simplesmente de “mundo”, é por natureza quadridimensional, no sentido do espaço-tempo. Pois ele se compõe de eventos individuais, cada um dos quais descrito por quatro números: três coordenadas espaciais x, y, z e uma coordenada temporal, o valor t do tempo.”[52]

02/01/16 14h20

O VII Capítulo, “Música, Matemática e Metafísica”,[53] de O que é criar? trata da confluência dessas três disciplinas, confluência que vem desde a época de Plotino quando este afirma que “a procissão a partir do Uno, mal ela se destaca do Logos, a ele retorna, se ‘converte’ em direção ao Uno, e deve alcançar de coincidir de novo com ele, o imita em o contemplando”.[54]

Muito falamos da Música no presente estudo. Estamos mergulhados nela. Mas a Matemática e a Metafísica com a Música também se “misturam”, e as duas primeiras surgem “simultaneamente”, ou melhor, de maneira “indiscernível”, porque surgem de uma progressão contínua do signo que depende do sentido, em direção ao sentido que depende do signo.

Descobrimos que o nascimento da reflexão se faz com o nascimento do “negativo”. E mais uma vez nos lembramos de Agostinho quando em suas Confissões, Livro XIII, tratando (desta vez) sobre a Paz, pergunta como pode existir o Mal se Deus é todo Bem, se Deus permite a existência do Mal feito acreditam os Maniqueístas, e conclui que assim como a Escuridão é a ausência da Luz, o Mal é a ausência do Bem, a ausência de Deus, pois a “obra da criação é essencialmente boa”.[55] É preciso haver “algo” para que possamos negar, pois como vimos na “página 76” com Renéville, “não negamos, não esculpimos, não escrevemos nem compomos no vazio”.

As séries matemáticas, apesar de abstratas, apesar de “construídas a priori, de costas para a experiência”, se refletem na Natureza que “obedece docilmente”, porque a “Vida imita a Arte, muito mais do que a Arte imita a Vida”[56] – já nos disse Oscar Wilde no seu ensaio romanceado “A Decadência da Mentira”.

A Música e a Matemática propõem, determinam o que a Metafísica nega ou interroga – ela tem por princípio ser interrogativa. Ela não é uma tese – é antes uma hipótese. Não governa, feito os “teoremas do matemático”, mas indica, sugere, coloca sempre em questão, gera sempre dúvidas, o incerto, o “nem aqui nem lá”. A Metafísica nos parece estar nesse “entrelugar” da infinita semiose, se preenchendo e esvaziando, sugerindo e desaparecendo, que continua em movimento contínuo feito a nota de Música que ressoa nas cordas vocais de Agostinho, feito a sequência fílmica de Alejandro González Iñárritu em Birdman, feito o “jogo do texto” de Wolfgang Iser, O jogo das contas de vidro da Poesia nas “Obras póstumas de José Servo” em Hermann Hesse, a Girândola sem fim da Prosa Poética de Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela – esse jogo de “encarnações” (do autor no personagem) e “pseudônimos” (do autor nele mesmo) é também Figura (se pensarmos bem, “tudo é Figura”),  é também “proposital-intuído”.

Lamento

A nós não foi doado um ser.

Somos apenas correnteza,

Fluímos de bom grado pelas formas:

Pelo dia e a noite, a gruta e a catedral.

Por elas penetramos, incitados

Pela sede de ser.

Assim nós vamos sem repouso,

Enchendo as formas uma a uma,

Sem que nenhuma delas seja para nós

A pátria, a ventura ou a dor.

Estamos sempre a caminhar,

Somos sempre visitantes,

Não ouvimos o apelo do campo nem do arado,

Para nós não cresce o pão.

Os desígnios de Deus sobre nós nada sabemos,

Ele brinca conosco, barro em sua mão,

O barro que é mudo e tem plasticidade,

Que não sabe nem rir nem chorar:

Barro amassado, porém jamais queimado.

Ah! Quem me dera transformar-se em dura pedra!

Permanecer enfim!

É que nós aspiramos à eternidade,

Mas nossa aspiração é apenas,

Eternamente, um medroso tremor,

E não virá jamais a ser repouso em nossa via.[57]

 

“O réu foi julgado culpado Formou-se um júri para julgar os que o julgaram e estes foram julgados culpados Formou-se outro júri para julgar os que julgaram os que julgaram o réu e foram também julgados todos, culpados Então foram sendo formados júris, continuamente formados e continuamente julgando culpados os anteriores jurados até que num júri bastanto afastado daquele original que julgara o primeiro réu, alguém, um só jurado, deu por inocente o júri anterior sob seu cuidado Mas essa sentença bastou para que esse jurado fosse, por sua vez, inocentado e com ele o júri de que era jurado e com este júri os júris passados até que se resgatou o primeiro cãodenado, o réu, julgado desculpado”[58]

 03/01/16 09h40

(Há umas duas horas retornei da missa. Hoje é celebrado na Igreja Católica o dia da Epifania do Senhor. Na Igreja Primitiva – nos explica Pe. Nilo Luza no “jornalzinho-missal” –, a festa da Epifania era considerada mais importante que o Natal, por trazer o anúncio, a revelação de que o Cristo será conhecido por todos os povos, do Ocidente ao Oriente.

É sempre difícil (para mim) terminar de escrever um texto. Colocar um ponto final. Mas é preciso encerrar o número de páginas, até para que se possa “virar” mais uma página de nossas vidas, para que se possa ir em frente, continuar.)

Jacques Rolland de Renéville no XIII Capítulo[59], penúltimo capítulo de O que é criar ?, Qu’est-ce que créer?, “O eu e o outro”, Renéville trata da Obra em um triplo movimento. Ela começa com um salto para fora de si (do Criador) em direção ao Absoluto.  Em seguida trava-se (no Criador) um combate ao vazio, uma “negação” ao que já existe, pois “não se cria a partir do nada”. Até chegarmos ao retorno a si, a Criação de si mesmo como autor que a Obra permite, dá, proporciona.

Ter consciência de uma falta é o que forja o Ser Criador. Ousadamente comparamos o Criador Humano ao Criador Divino quando este, em meio à eternidade, ergue do barro a sua Criatura, Criatura feita à sua imagem e semelhança e para quem é dado também possuir o poder de criar. Na falta da Criatura, Deus criou. Na falta por algo em si, o Artista cria.

Essa falta nos atira para fora de si. Nos faz sair de um ano (2015) para outro (2016) na busca (insaciável) de ao Passado negar, ao Presente manipular o barro, para ao Futuro lançar um Ser Humano renovado. Ao deixar para trás os “nãos” da Vida, as “negações” do Mundo, vou ao encontro de textos novos – A menina do olho verde, texto ficcional de cinquenta páginas escrito em dez dias no mês de outubro de 2015, o presente estudo “forjado” nesses cinco dias de escrita (e me arrisco a “profetizar”, em vinte e cinco páginas) –, textos que me retiram do lugar, me perfazem Criadora ao mesmo tempo em que crio, relacionados com o já escrito, mas de uma maneira totalmente nova, totalmente heraclitiana desse rio que não pára nunca que é a Criação.

No artigo “Aventuras Artísticas: Incoesão e Coerência”, a minha orientadora de Mestrado, Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino distingue “coesão” e “coerência” nas obras de arte desse “Pastiche e Mistura” que é a nossa sociedade contemporânea. Ela narra que desde os dadaístas, houve a “abolição dos gêneros”, a “ democratização da arte”, mas que podemos (e devemos) ainda separar a “obra específica” – aquela “que se liga a um momento na carreira específica de um autor” – da “obra trajetória” – “que corresponde ao projeto poético de um dado artista” e engloba as “diversas fases e série de obras específicas por ele criadas ao longo de sua carreira”.

Nino nos fala também do “prazer do jogo”, essa dimensão experimental do homo ludens, do Criador, pois quando “um ser humano aprende algo, ultrapassa uma etapa, se torna mais lúcido e consciente sobre sua própria condição humana”. Podemos comparar essa reflexão de Nino com o caráter lúdico da Prosa Poética do Magister Ludi José Servo/Herman Hesse de O jogo das contas de vidro, a Palavra giratória da Girândola do Poeta de Meia-Tigela/Alves de Aquino, a experiência sublimatória nesses cinco (últimos) dias da autora que lhes escreve.

Renéville nos desperta desse nosso sonho criador, dessa nossa reflexão em círculos de autores, dessa sequência textual fluida e nos mostra que assim como os grandes poetas do século XVIII reescreveram as tragédias dos antigos gregos, a negação transformou Karl Marx no autor do Capital, o beijo ansiosamente aguardado fez Marcel Proust escrever páginas e páginas do Em busca do tempo perdido, ou possibilitou a ficcionalização da escrita de Romeu e Julieta e Noite de Reis por William Shakespeare em Shakespeare in Love (Shakespeare Apaixonado)[60] (1998).

“É porque o superego desvia nossas necessidades orgânicas de sua satisfação natural e lhes transpõe a um outro nível, ele as censura, as comprime, as sublima, que do homem surgem a arte, a literatura, a religião, a civilização”,[61] explica Renéville.

E ao chegarmos ao IX Capítulo de Qu’est-ce que créer?, às 11h09 do 03/01/2016, olhamos para trás nos perguntando se conseguimos realizar um “Pastiche e Mistura” entre O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, que por sua vez foi apontado pelas Girândola(s), de O Poeta de Meia-Tigela Alves de Aquino, que por sua vez foram apontados por Tenório e relacionados com Renéville…, ao chegarmos ao último capítulo do livro que nos serviu de base teórica, de novelo de lã que desfiamos e desfiamos de maneira (o mais possível) fluida, descobrimos uma série de entrevistas elencadas por Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino – o “inesperado bom” de Clarice Lispector – e não nos encontramos mais sós. Descobrimos nas entrevistas artistas franceses de diversas áreas, com diferentes projetos, mas semelhantes buscas, similares necessidades – até mesmo “ansiedades” – que as da autora que lhes escreve.

Em “Les secrets de la creation” – que pertence à revista Télerama n. 2175, de 18 de setembro de 1991, p. 12-26 –, um cantor (Claude Nougaro), um arquiteto (Paul Chemetov), um diretor de teatro (Patrice Chereau), um pintor (Zao Wou-Ki), um escritor (Michel Tournier), um compositor (Henri Dutilleux), um fotógrafo (Jean-Marc Tingaud), um cineasta (Jacques Doillon), e uma designer (Andree Putman) nos “relevam” – alguns não os “revelando” – os segredos de sua Criação. Alguns segredos compartilhados por mim e/ou pelo autor de Qu’est-ce que créer?: Criar é “traduzir as notas em palavras, os sons em sentidos” (Nougaro, p. 14); “cada material está em uma certa relação com os outros” (Chemetov, p. 15); “alcançar sempre descobrir sensações novas, ideias novas realizando cem vezes a mesma cena” (Chereau, p. 16); “Existem alguns momentos de milagres, mas é raro. Prefiro um trabalho contínuo e depois isso [a obra] vem pouco a pouco” (Wou-Ki, p. 18); “Para mim, é  todo o romance que é um ser vivo. Eu o educo, eu o alimento, eu obedeço às suas injunções que são às vezes terríveis” (Tournier, p. 20); “As obras às quais eu repenso com o maior prazer são aquelas em que, para me renovar, eu me impus esses riscos” (Dutilleux, p. 22); “Se eu fotografo, é para os outros… Para mim, a imagem, eu a posso ter na cabeça por anos” (Tingaud, p. 23); “Agora, o único meio de retornar a si, é recomeçar a escrever. Cada novo filme é a borracha que apaga o precedente. Mas talvez retracemos sempre o mesmo sulco, talvez nos repitamos! Se nós retornamos ao mesmo ponto, isso seria insuportável” (Doillon, p. 25); “Eu tinha naquela época o desejo de uma imensa superfície vazia – um dos primeiros lofts parisienses. E tive prazer em deixá-lo vazio. No vazio, esquecemos tudo…” (Putman, p. 26).

Os cinco dias de escrita. As vinte e cinco páginas (pro)(metidas)(fetizadas). Não repito erros (será?) antigos de publicar uma Epifania assim que escrita. Deixo o texto amadurecer para que possa transparecer (e prevalecer) o que é melhor em mim. Ou encerrando com os três Teóricos Poetas, os três Críticos Profetas que, feito os Três Reis Magos, anunciam a Epifania do Senhor para todos os povos, “peregrinos do Oriente” e do Ocidente.

“Mas suceder, ou mesmo proceder, não é resultar. A obra traduz a situação de seu autor mas em a transpondo, ela nada mais é que o conjunto de detritos de um esforço por se elevar acima de si, que fracassou, ‘um pouco mais alto’ ou ‘um pouco mais baixo’”.[62]

Um haicai

Meu sangue se esvai

(e vão as gotas no chão

compondo um haicai)[63]

 

“Depois do ardor e empenho da luta pelo seu reconhecimento, sobrevinha-lhe agora um despertar, um arrefecimento e desilusão. Achou-se no âmago de Castália, na mais alta Hierarquia, e percebeu com admirável sobriedade, quase até decepção, que era possível respirar essa tênue atmosfera, mas que ele, que a respirava agora como se nunca tivesse conhecido outra, estava sem dúvida completamente transformado. Era o fruto desse árduo período de provas que havia purificado como nenhum outro cargo, nenhum outro esforço havia feito até então.”[64]

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* Para baixar o arquivo em PDF: Entre Qu-est-ce que créer – Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela – Patricia (Gonçalves) Tenório – 301215

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(1) Patricia (Gonçalves) Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Está no prelo, a ser lançado em abril de 2016 pela editora espanhola Mundi Book Ediciones, Vinte e um / Veintiuno, uma coletânea em português e espanhol de vinte e um contos escritos entre novembro de 2011 e janeiro de 2014. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, com o anexo, o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(2)  Uma “Epifania” semelhante a essa aconteceu em http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923. Escrito em 02/01/2015. Última atualização: 25 de janeiro de 2015.

(3) TIGELA, O Poeta de Meia-. Girândola. Fortaleza, CE: Substânsia, 2015.

(4) TIGELA, o Poeta de Meia-. Op cit., p. 113, negrito nosso.

(5) HESSE, Herman apud TIGELA, o Poeta de Meia-. Op cit., p. 11.

(6) HESSE, Herman. O jogo das contas de vidro. Tradução: Lavínia A. Viotti e Flávio Vieira de Souza. Rio de Janeiro, RJ: BestBolso, 2007, p. 1.

(7) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Qu’est-ce que créer?. Paris, France: Librairie Philosophique J. Vrin, 1988 – Tradução nossa para este estudo.

(8) Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance). Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). 2014. 119 min. Estados Unidos da América. Direção: Alejandro González Iñárritu. Com Michael Keaton, Zach Galifianakis, Edward Norton, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Emma Stone, Naomi Watts.

(9) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 9-23.

(10) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6362. Escrito em 07/12/2013. Última atualização: 13 de dezembro de 2015.

(11) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 19.

(12) FALCÃO, Waldemar apud HESSE, Hermann. Op cit., p. 10.

(13) HESSE, Hermann. Op cit., p. 53.

(14) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 89.

(15) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 22.

(16) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 25-44.

(17) BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. Tradução: Paulo Neves. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, (1949 in) 2008 – (Tópicos), p. 22.

(18) HESSE, Hermann. Op cit., p. 61.

(19) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 21.

(20) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 45-64.

(21) BERGSON, Henri. A evolução criadora. Tradução: Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Ed. UNESP, (1907 in) 2010, p. 89-93.

(22) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 36.

(23) HESSE, Hermann. Op cit., p. 331, colchetes nossos.

(24) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 51.

(25) AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Vários tradutores. São Paulo: Perspectiva, (1946 in) 2011.

(26) AUERBACH, Erich. Figura. Tradução: Duda Machado. Revisão da tradução: José Marcos Macedo e Samuel Titan Jr. São Paulo: Ática, (1938 in) 1997.

(27) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 65-73.

(28) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 65.

(29) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 60.

(30) HESSE, Hermann. Op cit., p. 332, colchetes nossos.

(31) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 70.

(32) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 75-86.

(33) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 75.

(34) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 75.

(35) HESSE, Herman. O lobo da estepe. Tradução e Prefácio: Ivo Barroso. 29ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 189.

(36) MERLEAU-PONTY, Maurice apud RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 77.

(37) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 78.

(38) Os próximos dois parágrafos encontram-se em RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 78-79.

(39) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 98.

(40) HESSE, Hermann. Op cit., p. 477-478.

(41) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 85.

(42) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 87-103.

(43) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 87.

(44) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 90, itálico da edição francesa.

(45) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 87.

(46) HESSE, Hermann. Op cit., p. 379-380.

(47) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 66.

(48) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 97-98.

(49) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 98-99, itálico da edição francesa.

(50) AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução: L. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, (397 in) 2013 – (Vozes de Bolso), Livro XI, p. 286.

(51) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 101.

(52) EINSTEIN, Albert. A Teoria da Relatividade: sobre a Teoria da Relatividade especial e geral (para leigos). Tradução: Silvio Levy. Porto Alegre, RS: L&PM, (1916-1917 in) 2013, p. 68-69, itálico da tradução.

(53) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 105-116.

(54) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 107, itálico da edição francesa.

(55) AGOSTINHO, Santo. Op cit., p. 352 e 353-354.

(56) WILDE, Oscar. A Decadência da Mentira. In Obra completa. Volume único. Introdução geral e Nota editorial, Ensaio Biográfico-Crítico, Bibliografia, Cronologia da Vida e da Obra: James Laver. Tradução: Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, (1891 in) 2007, p. 1087.

(57) HESSE, Hermann. Op cit., p. 517-518.

(58) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 53. Esse trecho de Girândola intitula-se “Antikafkiana”, dentro de “Kafkiana”, que não nomeamos por questão de estilo, tendo visto que não trouxemos os títulos da Prosa de Hesse, e quisemos propositalmente “trocar de lugar” com a Poesia de Tigela.

(59) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 117-129.

(60) Shakespeare in Love. Shakespeare Apaixonado. 1998. 123 min. Estados Unidos da América e Reino Unido. Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman / Tom Stoppard. Com Gwyneth Paltrow, Joseph Fiennes, Judi Dench, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Collin Firth, Ben Affleck, entre outros.

(61) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 128.

(62) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 129.

(63) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 26.

(64) HESSE, Hermann. Op cit., p. 272-273.