“Canto aceso”* | Carlos Nóbrega**

Não canto os lugares

aonde eu fui,

Eu canto o Lugar

onde eu sou –

 

E o Canto que eu canto

vejo aceso

menos pelo sol

do que por meu amor.

(Epígrafe de Canto aceso)

 

Nascimento

 

Minha mãe me deu ao sol,

Ao ardor deste deserto

            E vim com tinta em meu olho

e vim com sombra em minha alma

            E vim com febre em minha pele

e com chamas no meu lábio,

            com mais sede de palavras

do que mesmo de seu leite.

(Cartão marcador de páginas de Canto aceso)

 

Silhueta | ao Poeta de Meia-Tigela

 

Ainda temos

um rosto grosso,

os gestos toscos

de algum vaqueiro.

 

E quando andamos

numa avenida

parece ainda

que cavalgamos

entre a caatinga.

 

A nossa cara

é uma face amarga,

uma falta d’água

numa cacimba.

 

O nosso corpo

é um posar torto

para uma foto

em branco e roto.

 

_______________________________

* Contato: carlosamnobrega@hotmail.com