“Girândola”* | O Poeta de Meia-Tigela**

“Foi girando cada vez mais depressa e, por fim,

girando com enorme rapidez, rebentou,

espalhando-se pelo ar qual um punhado

de estrelas cintilantes”

(Herman Hesse, O Jogo das contas de vidro)

 

Édipo assumido

 

As mulheres amigo são em número

Tal que só pensar nisso enlouqueço

Deus bem sabe o pedaço que padeço

por desejá-las todas energúmeno

 

Da primeira que amei minha mãe o útero

foi a coisa a que mais votei apreço

Eis por que sempre que posso me apresso

a voltar para lá meu lar meu númeno

 

[entrementes

eu me escondo

eu me encontro

entre ventres]

 

Eis por que busco estar em casa sempre

dormitando na fêmea no seu ventre

à forma ou ao tamanho indiferente

 

Ela tem saúde ou beribéri

madura ou moça em flor sem sombra impúbere

importa é habitar seu vão seu úbere

 

 

Bem-aventurado, o

 

Eu sei alguém não sei quem provavelmente uma namorada do pueritempo me escreve diariamente duas cartas de amor, acontece até agora não chegadas. Do outro lado do mundo outro alquem pensa positivissimamente em mim seu príncipe encantado, apenas ainda não coroado mas um belo dia. Sei nalgum lugar, deste lado mesmo do grão-pará, uma condecoração por honra ao mérito à minha espera há, falta ma entregarem. E se declino do nobel da paz não se deve tal pela medalha que receberei daqui a breve em atenção aos meus feitos militares porém em função de já me ter predisposto àquele nobel que mais me interessa, o de. Talvez vocês me julguem sobremodo sortudo quiçá bem-aventurado. Pode ser, alguns como eu parecem nascidos para terem tudo aquilo que nascem querendo ter. O que sei é que um pombo-correio diariamente voa à minha procura, duas cartas no bico, somente até agora nunca me encontrou

 

 

Mulher-Adaga

 

Olhos adentro – olhá-la é sofrer corte

O talho da navalha ou do florete

Feliz do atassalhado que o suporte –

Ao rasgo – e à mercê fique da gilete

 

Na boca a língua-lâmina fatal

Cada beijo afiado canivete

Dedos de faca afagos de punhal

Seios agudos – bicos de estilete

 

Nada que – toda gume – a desconcentre

Em posição de guarda – aguarda – sabre

Dilacerar-me – a vítima expectante

 

Arma branca a fender-me com seu ventre

Ei-la foice – cutelo que me abre à

Mulher-Adaga – perfurocortante!

 

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