“Há mal em legislar em causa própria?” | Mara Narciso*

7 de outubro de 2015

Depois que cuidei do meu pai em cadeira-de-rodas por cinco anos, ficou difícil ver alguém sendo empurrado por um cuidador. Tudo volta a minha mente, e todas as dores que passamos juntos me fazem sofrer. Desculpem, mas eu choro.

É tão fácil ser indiferente ao sofrimento do outro. Hoje eu tive a oportunidade de ver um idoso sendo maltratado por uma cuidadora. Foi na TV e ambos eram atores. O objetivo era medir o grau de indignação das pessoas que passavam e viam a cena. Quando a atriz falava com voz firme, mas de forma socialmente aceitável, que forçaria o idoso a beber água goela abaixo, ninguém se tocou. Apenas quando ela falou mais alto, fingindo que tomaria uma atitude mais forte, as pessoas olhavam e paravam. Várias pessoas choraram, e boa parte falou duro com ela, ameaçando chamar a polícia. Apenas uma mulher de Moçambique contemporizou, e, falando baixo, tentou fazê-la mudar o comportamento.

Era apenas uma encenação, mas alertou a audiência de que agora mesmo estão acontecendo maus-tratos semelhantes. Dentro de casa, velhos são torturados, humilhados, e ao mesmo tempo, quem os maltrata usufrui as suas aposentadorias. Os filhos se exasperam com a lentidão e as dificuldades dos idosos. Perdem a paciência, gritam, e até os agridem fisicamente, esquecendo quem está a sua frente.

Quanto mais avançado é um país, mais seus idosos são reverenciados, porque trazem dentro de si o conhecimento, a experiência e a tradição. Construíram o mundo que aí está, e a juventude sustenta-se sobre o que antes foi criado. Aqui no país do futuro, boa parte do saber está na juventude, que domina a tecnologia, e não mais na maturidade. Também por isso desprezam quem não sabe o que eles sabem e não faz o que eles fazem. Isso torna os jovens senhores de si, ou até mais do que isso, fazendo-os lidar com as pessoas mais velhas de forma preconceituosa, tratando-as com pouco caso, debochando das suas falhas.

Assunto chato. Quem quer ler sobre isso? Um jovem não vai ler. Mas é coisa que está à frente de todos. Hoje fui atravessar uma rua de bairro, que dá acesso da Unimontes ao centro, tendo velocidade de avenida. Estacionei, desci, e fiquei esperando meu momento de atravessar. Não há faixa e nem sinal, mas, com paciência, logo chegaria a minha vez. Um senhor, de mais de 80 anos, próximo a mim, decidiu atravessar calmamente, já que os carros se distanciaram um pouquinho. Fiquei olhando-o cortar a rua. Eu não fui, e observei o motorista do carro que chegou e teve de parar. Balançando a cabeça de forma a sugerir que o senhor era um pobre coitado, ele, impaciente, esperou o homem atravessar, mas deixava claro que o tempo dele era urgente.

Quem chega aos 60 anos no Brasil, é por lei, alguém que não pode esperar e nem andar um pouco mais, precisa estacionar mais perto do local de destino, necessita ser vacinado contra gripe, tem preferência em filas e paga meia-entrada em eventos (ainda que a lei sancionada hoje reduza a 40% o meio ingresso). Para ter esse direito, aqui em Montes Claros é preciso ir à MCTrans levando RG e comprovante de residência. Receberá a carteira e poderá usufruir desses direitos.

Num país que tem preconceito contra quem completou seis décadas, não há interesse em alardear que se chegou a essa etapa. Parece ser melhor evitar tal rótulo, mas há controvérsias. Se por um lado a pessoa procura mostrar jovialidade, por outro quer usar as regalias que lhe são facultadas. Parece estranho, mas é assim.

Já li um dia que “pintar os cabelos não é nada; atitude de verdade é não pinta-los”. Concordo. Preconceituosamente, e em parte por imposição social (nem sei até que ponto é uma escolha minha), vejo a mulher de cabelos brancos como uma pessoa de aparência frágil, que, em última análise parece que “entregou os pontos”.  Por sua vez, quem optou por não pintar os cabelos a cada 15 a 20 dias, pois eles crescem na razão de um cm por mês, sendo o crescimento maior no verão, sentem-se libertados pela coragem, e entendem que seguir a determinação social é uma escravidão.

Finalizando, escrevo o óbvio, direcionado ao rapaz ao volante, que, de biquinho, e sacudindo a cabeça desaprovou o passo lento do senhor: mantenha a sua pressa e antecipe a sua morte, porque senão ficará velho, atravessará a rua de forma arrastada, e encontrará um jovem que desaprovará a sua ousadia. Ou não?

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* Contato: yanmar@terra.com.br