A Poesia de Alves de Aquino (O Poeta de Meia-Tigela) e Dércio Braúna

Miravilha – Liriai o campo dos olhos, Alves de Aquino – O Poeta de Meia-Tigela. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2015.

Contato: poetademeiatigela@yahoo.com.br

 

1-4.

PAUL KLEE OU TREVO DE QUATRO DORES

Eu-Poeta em meu Quarto leio rasgo

O que leio à luz cheia de uma lua

Que me vê mas não sabe se sou trasgo

Ou anjo asa postiça da espádua

Eu-Poeta em meu Quarto leio assombro

O que leio à luz prata de uma cheia

Lua que me lê sem saber se sou escombro

Da sombra que me assombra e que se alteia

(Da sombra uma escaleira e nesta Insetos

Aos livros enrastejam se insinuam

Transformando-se em letras alfabetos

Que rerrasgo em vão: eles não recuam)

Eu-Poeta em meu Quarto me desleio

Me rasgo e me releio, luo cheio

5-8.

EU TRAGO UMA PALAVRA ATRAVESSADA

Eu trago uma palavra atravessada

Entre os olhos a mesma que me flecha

(Aguilhão) coração sexo – uma seta

Grã – longitudinal mas cujas farpas

(Sim visto que se trata de farpada

Ságita) se me fincam dos pés à

Fronte. Palavra-áspide molesta

Inteira dentes / ela envenenada

Avonde / sepe feita só de presas

Fera que cresce e de dentro me aperta

Eu trago uma palavra engargantada

Colar de pregos sobre a minha fala

Eu trago uma palavra que me traga

E que seja talvez tu. Talvez sejas

MIRABILIA. MIRAÇÃO

Você me sorri pássaros Me diz

Bálsamos e crisântemos Me ensina

Relâmpagos Me faz sonho raiz

Plantada em nuvem Sândalo neblina

Me transpira poemas tal Hafiz

Me esculpe a face em luz ou vento Assina

Na minh’alma com tinta d’água giz

Assobia azuis sombras opalinas

Me leva a passear em seus quadris

Me perfumam seus olhos Me calcina

Sua presença seu ventre-motriz

Você me voceíza predestina

Me comunga me Francisca de assis

Me sana milagre desassassina

Aridez lavrada pela carne disto, Dércio Braúna. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2015.

 

I

No princípio era a carne.

Havia o paraíso.

Depois

(artefato monumental da carne)

veio o verbo.

VI

No princípio

(e depois,

e depois de depois,

como há de ser)

era a carne e seu aprendizado dessa lavra antiga

de lanho e corte,

de lantejo e dor,

de alimentação e desespero de existir.

IX

O deus de mim só há parido nas paredes dessa

carne aos gritos,

que sente.

A poesia também pode ser isso:

a dor com que durmo lavrado completamente.