Silente*

Patricia Tenório & Raduan Nassar

15/11/2010

A Beleza está no Silêncio…

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=sZlm3x619ro

Um doce olhar([1])

 

 

Deixava-se levar no silêncio das águas rondando os ouvidos. ([2])

“… mas eu nem estava ligando pra isso, queria era o silêncio, pois estava gostando de demorar os olhos nas amoreiras de folhas novas, se destacando da paisagem pela impertinência do seu verde…”

 Umbigo do mundo – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

 

Calo-me inteira([3]) 

Para não mostrar-me em parte

Soletro aquela não-palavra que disse tudo

Porque sentida e cortada na pele

Apressando o coração

Desacelerando o cérebro

 

Envergo-me

No útero invertido

E descubro o umbigo do mundo

Quando

Nem pessoa

Nem coisa

Podem supor o que não suponho

 

“… a razão jamais é fria e sem paixão, só pensando o contrário quem não alcança na reflexão o miolo propulsor…”

 

           O lado obscuro de mim, esse derramo na arte, nos meus quadros incongruentes, feitos de colagens, abstrações, cores fortes, coaguladas, para deitar ali a alma inteira, a alma que não conheço, que me acorda com o quarto revirado à procura de algo que não sei definir. ([4]) 

          “… não que me metessem medo as unhas que ela punha nas palavras, eu também, além das caras amenas (aqui e ali quem sabe marota), sabia dar ao verbo o reverso das carrancas e das garras, sabia, incisivo como ela, morder certeiro com os dentes das idéias…”

 

Costuro tua boca([5]) 

E não deixo passar palavras vãs

Insisto na clarividência de

Te prender, possuindo alma

Encarcerando corpo

Amarro tuas mãos sangradas

Em uma viga de mármore

Retiro cada um dos teus cabelos

Lento, calmo, frio

Me lanço contra teu corpo rijo

Em facas corto tua carne

Dilacero

Restam poucos espaços

Onde me misturo

Ossos, carnes, sangue

E agora somos corpo uno.

 

          “… as coisas aqui dentro se fundiam velozmente com a febre (…) sem esquecer que a reflexão não passava da excreção totalmente enobrecida do drama da existência (…) o que fazer então com o farelo das teorias?”

 

          E como o mundo dói nos meus olhos abertos, sem cortinas no apartamento, sem cortinas para escondê-lo da minha alma, se apresentam em carne viva, a alma e o mundo, e eu não sei por que se detestam tanto, por que não fazem as pazes, por que não se tratam feito irmãos gêmeos, tão parecidos. Uma paixão imediata, como imediata deveria ser a dor que sentem um pelo outro. Nascem juntas, a paixão e a dor, ao mesmo tempo, no mesmo instante, sabendo que não podem se separar uma da outra, isso as levaria à morte, ou a submissão, que é tudo a mesma coisa. ([6])

 

          “… e já que tudo depende do contexto, que culpa tinham as palavras?”

 

          Naquela porção de instante as almas não se falavam, unas, duas, eu e meu amigo. Podíamos saber o que o outro sentia pelo arfar dos pulmões, o tamborilar em cima da mesa, palavra engasgada que não saltava aos lábios e inundava o ar. ([7])

 

          “… mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes…”

La isola – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

Daquela matéria fui feita([8]) 

Daquela matéria amada

Nem por mim

Nem por ninguém

De um nada

Me encontro

E pronto

Eu me vejo só

 

Sobre os rochedos

Nas cachoeiras

Abrindo passagens

Entre as sereias

Visgo cantante

Cor de arco íris

Que no céu acaba

Não me deixa

Potes

Toques de Midas

Apenas entardecer

E incerteza

 

Finco o pé

No âmago

No abismo

No nada

Em que me encontro

E pronto

 

Eu me vejo só

 

“… não tive escolha, fui escolhido, e, se de um lado me revelaram o destino, o destino do outro se encarregou de me revelar…”

 

          As palavras podem ser usadas contra nós mesmos. Podem ter significados diferentes. Eu, aqui, tento provar a você minha inocência, mas até que ponto sou inocente? Até que ponto a água não se transforma em vinho e o vinho em sangue e o sangue em vida?

            Pronuncio uma palavra, viro-a do avesso, ficou ressoando no que eu não pensara, e, quando pensei, ela brilhava em lilás. Você me escava dia após dia e somente se pudesse trocar de lugar comigo poderia encontrar o que deseja. O que me lembro aconteceu ou é apenas minha invenção?  Sou pergunta ou resposta de Augusto?([9]) 

          “… assumo pois o mal inteiro, já que há tanto na santidade; e depois, pilantra, se não posso ser amado, me contento fartamente em ser odiado…”

          Deito de costas para Silvio, por não mirar-lhe os olhos; neles me revelo, neles peço socorro. A terra plana e árida dos seus lábios encobre o meu pescoço, sorvendo o sangue nas mordidas. O sangue fluindo para André e eu me doo inteira no bico dos seios. ([10]) 

          “… eu disse vertendo minha bílis no sangue das palavras, sentindo que lhe abalava um par de ossos…”

          Preciso me trancar no espaço entre o tempo e o viver, quando tudo está parado, onde há somente o nada, como não sei explicar, a língua seca, o ouvido estala, olhos opacam, as mãos congelam o gesto, o ar condensa o fluxo. ([11]) 

“… a culpa melhora o homem, a culpa é um dos motores do mundo”.

 

          Ela nasceu um minuto antes. No entanto, sentia-se muito mais velha. A mãe que não tiveram. E cuidava da irmã como uma filha. Dava conselhos, queria o crescimento. Mas, quando a flor não pediu ao mato para desabrochar, a água desceu a cachoeira íngreme por entre pedras agudas, Séphora tremeu. Pensou que não mais dela precisaria, que a avó amaria mais Sahra, o céu virando ruivo, as nuvens descendo a Terra. 

          Com a espátula, cavou e cavou no centro, para ver se encontrava aquela que amara um dia. Encontrou peles, vísceras, odores.

          Recolhi os papéis, coloquei a caneta Mont Blanc, a caderneta de capa escura na pasta, decidi passar adiante nas investigações daquela existência. Aliso a pele clara, mostro-lhe o mundo lá fora. Digo

            – Você está livre.

            Levam-na pelo corredor estreito. ([12]) 

_____________________________________________

(*) Patricia Tenório & “Um copo de cólera”, de Raduan Nassar.

(1) Bal. Turquia, Alemanha , 2010 – 103 min. Drama. Roteiro e Direção – Semih Kaplanoglu. Com Erdal Besikçioglu (Yakup), Bora Altaş (Yussuf) Tülin Özen, Alev Uçarer.

(2) Trecho de As joaninhas não mentem, Patricia Tenório, 2006.

(3) Umbigo do mundo, D´Agostinho, Patricia Tenório, 2010.

(4) Trecho de A mulher pela metade, Patricia Tenório, 2009.

(5) Terror, Grãos, Patricia Tenório, 2007.

(6) Trecho de A mulher pela metade, Patricia Tenório, 2009. 

(7) Trecho de Olhos fechados, Diálogos, Patricia Tenório, 2010. 

(8) La isola, D´Agostinho, Patricia Tenório, 2010. 

(9) Trecho de A mulher pela metade, Patricia Tenório, 2009. 

(10) Trecho de A mãe do mundo, Diálogos, Patricia Tenório, 2010. 

(11) Trecho de A mulher pela metade, Patricia Tenório, 2009. 

(12) Trecho de A mulher pela metade, Patricia Tenório, 2009.