Dois Poemas de Emilson Zorzi*

“Giz (porque deixa marcas na mão)”

Giz, me diz
na calçada o que me trás
antes que o tempo.
pelo tempo
de feliz, traga tormento
e da tempestade,
aliás, lilás,
escreva em garrafais
o que os náufragos
deixam em garrafas e nada mais.

14/06/2015

 

As Contas de Maria

Maria não era mulher de contar história,
fazer de conta,
talvez, o máximo que podia,
era contar números,
aqueles, já íntimos que sabia de cor contar nos dedos.
Maria, além, era bordadeira,
costureira,
pregava as contas em seus vestidos
e arrematava-as com certeza de quantas deveria pregar,
conta de cabeça.
Era exímia pregadora,
da bíblia, nem se fala.
Acreditava em Deus, desde pequena,
pelos vários contos, santos,
que despejavam em seus ouvidos.
Aprendeu a acreditar,
creditava votos de fé,
como se precisasse pagar alguma conta.
Maria não fazia de conta, as contas que eram feitas por Maria,
que não se dava conta da mulher que é,
que prega,
conta,
canta
enquanto sonha, cansada.
Maria, mulher de muitos contos,
não de réis,
nem de reis,
nem de príncipes,
nem de sapos.
Maria, igual a não todas as Marias
única mão
de tantas já quantas,
filhas de Alzira
mãe de Maria e de tantas outras santas.

2006

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* Contato: epzz.zorzi@ig.com.br