Novela-Folhetim “Cambono” – XLVª Parte | Clauder Arcanjo*

Cambono Conselheiro

21/06/2015

Para Raimundo Carrero

 

Cidade pequena adora calçada e conversa fiada. Licânia não era diferente de nenhuma outra. Tinha suas veleidades, entretanto. Uma delas: nunca falava sem motivo, asseveravam as pias Filhas de Maria, a tricotarem o fio da vida alheia nas calçadas varridas pelo frescor do aracati.

Muito bem, após o retorno do esquadrão de busca a Cambono, capitaneado pelo valoroso Cabo Jacinto Gamão, correu uma ventania de fuxico brabo pelas ribeiras do Acaraú.

— O cabra virou santo!

— Dizem que come menos do que um beija-flor, mas permanece forte feito um touro.

— Quem vai lá não volta o mesmo. Olha como anda sem beber nenhuma carraspana o Zé Aguiar! Logo ele que entornava todas: um pé de cana dos diabos. Um verdadeiro milagre! E dos grandes.

— E o Cabo Jacinto? O sujeitinho anda uma moça de tão delicado. Nunca mais desceu o seu cacete de juá no lombo de seu ninguém. Sabiam?

Enfim, Cambono era assunto de igreja, de praça, de cabaré e de todas as rodas. Quer dos partidários dos pimbas-pretas, quer dos pimbas-brancas.

João Américo, sempre metido no seu paletó de vetusta racionalidade, resolveu discorrer acerca do singular fenômeno.

Antes, ele pediu uma pinga, limpou a garganta, para, em seguida, despejar a sua tonitruante e hiperbólica verborragia pseudo-acadêmica:

— O caso é digno de uma banca de Harvard. Sociologia, metida com a Filosofia, a Teologia e a Antropologia, tudo é matéria pouca para explicar o que se sucede. No entanto, vejamos, eu formulei a minha tese. Não sem antes pisar, e repisar, várias hipóteses.

De repente, calou-se, limpando, lentamente, a boca seca com o seu lenço branco de cambraia. Num longo e espichado meio minuto.

Apenas e tão somente com o fito de que a plateia reclamasse, e clamasse, a sua continuação.

— Vamos, João Américo, tira por dentro! Despeja logo, vai! — clamou, de olhos acesos e inquietos, o Paulino Marlley.

— Prevejo tempos negros no nosso amanhã. Apocalípticos tempos! — praguejava Zé Funéreo.

— Cala esta boca, filhote de coveiro! — gritou um gaiato, escondido lá no meio da mundiça.

— A morte nunca foi a pior das coisas nesta nossa vida tão Severina! — defendeu, pela trocentésima vez, Zé Funéreo.

João Américo, preocupado com o rumo da prosa, cuidou de segurá-la pelo cabresto:

— Vocês querem ou não querem saber da minha teoria camboniana?

Os curiosos deram um chega pra lá no Zé Funéreo e bradaram:

— Queremos! Lógico que nós queremos.

— Bem. Muuuuuuito bem! Como discorria antes, quando fui sumária e funereamente interrompido, as ciências, quer no terreno das Humanidades, quer no império das Exatas, foram dissecadas por mim. Melhor, palmilhadas. Com arte e engenho, diga-se, camonianamente, a bem da verdade.

— Tira por dentro, João Américo! Havia, despeja logo, vai! — protestou, a um palmo de uma crise apoplética, o Paulino Marlley.

João Américo, treinado e escolado no campo do suspense, deu duas voltas em torno de si, andou com as mãos para trás um dois passos para a esquerda e dois para a direita, voltando ao centro da assistência. Quando a curiosidade fervia, quase em ponto de ebulição, ele despejou:

— Não há em mim a menor dúvida. Temos um novo missionário em nosso sertão. No passado, existiram vários. O mais famoso, protagonista da obra-prima de Euclides da Cunha, foi Antônio Conselheiro. Pois, muito bem, Licânia entrará para a história como pátria de Cambono Conselheiro.

João Américo soltou a conclusão, deu as costas e saiu.

Um vento frito correu nas copas das carnaubeiras da praça, os benjamins despejaram suas flores amarelas sobre os presentes e, pouco depois, uma rasga-mortalha cortou os ares, com o seu agourento anúncio, rasgo de pavor e medo.

A plateia arrepiou-se. Dizem que os mais frouxos se urinaram. E os mais corajosos trincaram os dentes, correndo, mais do que depressa, no rumo de casa.

Foi uma noite longa e esquisita. Tão esquisita que ninguém compareceu ao Caneco Amassado; as putas, por conseguinte, dormiram cedo, pois não tiveram freguesia.

Na manhã seguinte, uma multidão foi vista se dirigindo à caverna de Cambono. Na sua grande maioria, aleijados, pobres e flagelados. Seres destituídos de esperança, fraquejados pelas inclemências do clima e pela falta de piedade dos mais favorecidos. Firmes sob o sol severo, a renovarem as últimas forças naquele caminhar.

Quando chegaram à caverna prometida, ajoelharam-se. Com pouco entoaram um canto gutural, mais gemido do que canto.

Meia hora depois, Cambono, portando o seu cajado, com sua aura de esperança, surgiu.

— O que traz vocês até aqui, meus irmãos? — falava numa brandura de quem se fizera abençoado.

Um a um, todos os presentes ajoelharam-se.

Uma nuvem temporã cobriu todos os presentes, ao tempo em que vários pássaros chilreavam, como se festejando a antecipação do inverno naquele árido chão.

Cambono caminhou entre eles, silenciosamente, assustado com tanto sofrimento daquele povo.

Abriu os braços, elevou as mãos para os céus e, num grito de revolta e chamamento, rogou:

— Senhor, Senhor?… Onde estás que não respondes?

A noite caiu, e uma chuva grossa lavou a todos, espécie de bênção divinal.

Com aquele batismo, Cambono se fez santo.

__________________________________

* Contato: clauderarcanjo@gmail.com