Duas crônicas de Mara Narciso*

Ebulição

13 de junho de 2015

O menino é engraçadinho, pele clara, cabelos anelados, jeito de anjinho, mas só o jeito. Em todos os lugares aonde chega, embora tenha três anos, causa estranheza e sustos sequenciais. Naturalmente surge sentimento de rejeição em quem está perto. A antipatia atinge crianças e adultos. Ainda que corra de um lado ao outro com carinha sorridente, com extroversão e falta de censura próprios da idade, vai perturbando o ambiente e angariando sentimentos negativos. A velocidade da sua movimentação preocupa. A destruição que acarreta desaponta. Quem pode, tira seus pertences da frente, num gesto de proteger o que é seu. O natural é reparar a anormalidade acelerada e sem lógica, avançando em cima de tudo que encontra, quebrando, jogando no chão, numa interminável corrida ao impossível, indo e voltando sem parar.

Uma passada de olhos capta o cansaço da mãe, que, no mesmo ritmo do filho procura acompanhá-lo, cercando seus desatinos, segurando de cá, pegando no colo acolá, numa manifestação de eterno segundo lugar, pois jamais chegará antes dele. Algumas vezes chega junto. Poucos entenderão a sua luta, mesmo que compreendam que a criança tem um problema de comportamento. Raros haverão de se solidarizar. A maioria lançará pedras em direção à mãe, acusando-a de não conseguir controlar a amplidão de movimentos do filho, um corredor atípico.

Cai e se machuca de instante em instante, pelo exagero dos passos acelerados e maiores do que as pernas. Por isso mesmo desaba. Bate a cabeça nas quinas, em curto espaço de tempo. Desconhece os desníveis e perigos de cair num buraco ou numa escada. As mãos se agitam no ar, antes mesmo de alcançar o objetivo que ele nem sabe qual será. A curiosidade é do tamanho do mundo e o medo inexiste. Avança velozmente sobre tudo, numa ânsia inexplicável de experimentar a vida instantaneamente, antes que alguém o segure e o impeça de perceber com a ponta dos dedos. A sua maneira de viver em alta velocidade gera uma aventura alucinante. Para ele e sua mãe.

Pegar algo para abandoná-lo no momento seguinte, como se a conquista fosse primordial, e mantê-la, dispensável. Assim se dá a desconstrução do local em que está. Há sempre coisas para conhecer nesse mundo grande. Então, vai enlarguecendo suas fronteiras, querendo outra coisa adiante. Age como um conquistador dos sete mares, que deseja ter algo, mas tendo-o já não o quer mais e o abandona para seguir viagem. Olhando um menino assim, fica-se a imaginar o que se passa em sua mente, e como são seus pensamentos. Devem ser tão rápidos quanto a sua ação exteriorizada, e se não for muito bem olhado se acidenta grave. Até morre. Precisa ter sua mão agarrada o tempo todo.

Quando vai crescendo, e perde a graça, os poucos que lhe eram condescendentes abandonam essa postura e receitam pancada. Alguns se atrevem a sugerir esta ou aquela atitude, criticando a mãe por não bater o suficiente para domá-lo. São ingênuas e inúteis ideias. Tal menino é indomável. A medicina fala que ele tem TDAH, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, caracterizado por déficit de atenção, impulsividade e hiperatividade. Há setores da Psiquiatria que negam a sua existência, e afirmam tratar-se de criação de Indústria Farmacêutica, que, de forma imoral quer vender Ritalina (metilfenidato). Provam que isso não existe nem no Japão e nem na França. Contestada ou não, a correria perdura até entrar e avançar na puberdade. Os problemas sociais e as perdas pessoais continuam. O fracasso escolar é a norma.

Uma mulher me contou que o filho de dez anos apanhava do pai, que fazer dever era uma tortura, que na escola não escrevia nada, mas que nas provas orais tirava boa nota. Caminhava o tempo todo e mal conseguia ficar na sala de aulas. Era hostilizado pelos colegas que o provocavam, e ele revidava, chegando machucado em casa. A inteligência era acima da média, e sofria muito com os apelidos de burro, de doido, e outros. Que eu não poderia imaginar o sofrimento que era aquilo.

Engana-se. Eu sei o que é isso. Trago duas histórias, a minha experiência como mãe de filho hiperativo, que hoje tem 31 anos de idade, descrita inicialmente, e a outra. Quem não acredita nessa doença inventada para vender remédio, que traga uma solução. Eu encontrei um caminho conhecendo, amando, cuidando, compreendendo, segurando a mão, levantando bandeiras, alertando, mostrando aos outros a minha experiência. O tratamento começou aos dois anos de idade e dura até hoje. Ter um filho hiperativo é como receber uma bomba a ser detonada num momento incerto. Há tempo de gritar e se descabelar, mas o custo e o cansaço compensam.

 

Aproxima quem está longe e afasta quem está perto

20 de junho de 2015

Culpa antes creditada a televisão, há tempos a internet é acusada de acabar com a conversa na sala ou à mesa do jantar. Ou na rua e até no bar. Também a rede fez aumentar o número de escritores e reduzir o de leitores. Apenas textos curtos são lidos. Passou de um parágrafo, poucos se atrevem a ir até o fim. Cada época com seus costumes e há 20 anos foi criada a primeira rede social, ClassMates nos Estados Unidos e Canadá, para reunir colegas. Seguiram-se Friendster, MySpace (2003) e LinkedIn. Depois vieram Orkut (extinto) e Facebook em 2004. O Youtube começou em 2005 para receber vídeos e o Twitter com mensagens de 140 caracteres em 2006. O Whatsapp, propriedade do Facebook, foi criado em 2009. No Brasil, 83% dos internautas estão no Facebook e 58% no Whatsapp (dados do governo em 2015).

Desde 1993 vejo pessoas da minha família conectadas à internet, surfando e falando ser uma maravilha esta ferramenta de comunicação instantânea. Entrei em 2000 e comecei a fazer amigos virtuais no chat Terra em 2001. Estive em redes sociais das quais perdi a senha e o nome, participei do Orkut e hoje estou no Twitter, Google, Facebook e Whatsapp. Desde fevereiro de 2015 foi criado no Whatsapp o grupo Família Narciso para aproximar pessoas da segunda à quarta geração, filhos, netos e bisnetos de Petronilho Narciso. A lista telefônica da agenda migra automaticamente quando se faz o download do programa, mas para entrar no grupo é preciso solicitar ao moderador.

No momento, somos 42 e a opinião geral é de que está sendo uma agradável experiência. De cinco da manhã, – os madrugadores acordam o galo-, e até depois de meia noite os fãs do corujão estão dando notícias. Não nos afastamos completamente, mas os netos e bisnetos dos tios, já estavam meio distantes, e este grupo está propiciando conhecer melhor os primos e recriar laços de afeto e amizade. No momento não há quem more no exterior, pois quem lá esteve já voltou. As viagens para fora do país são frequentes, dado o alto número de pessoas, gerações diferentes, interesses múltiplos, o que torna a troca de informações dinâmica e útil.

No sentido norte sul há quem more no Oiapoque (Amapá) e Açailândia (Maranhão) e quem more em Florianópolis (Santa Catarina). No sentido leste oeste, há quem resida no estado de São Paulo e em Minas Gerais. Boa parte está em Montes Claros, para onde meu avô se mudou rapazinho. A comunicação a cada momento leva o grupo para vários lugares através de textos, fotos, áudios e vídeos. Nos dias mais movimentados em uma hora podem chegar dezenas de mensagens. É preciso tirar o som de aviso, senão ninguém trabalha. Apenas a luzinha fica piscando.

Melhor enviar mensagens curtas. Por escrito, é preciso ter cautela e não levar ao pé da letra. É preferível não procurar nas entrelinhas. O texto digitado não tem entonação, e pode causar mal-entendidos. O melhor é escrever com clareza, e não retrucar. Tem dado certo. Esta regra vale não só para a família de sangue como também para outros contatos. A educação e a compostura precisam valer, e o que se faz online repercute na vida real. No caso do nosso grupo familiar tem sido benéfico na alegria e na tristeza e quando o assunto pede sigilo, fala-se no reservado.

Pode-se viajar graciosamente e comer com os olhos nas fotos postadas. O curioso é que a vida dos outros parece mais interessante do que a nossa, num dado momento. Esta proximidade gera alegrias (até euforia com as conquistas alheias) e preocupação com provas, testes, exames médicos, doenças e mortes. Em todas as situações é melhor participar e repartir. A solidariedade conforta, acalenta e torna-se colo. Isso nos tem propiciado maior proximidade, afeto e aconchego. E quando a reunião é ao vivo, sente-se maior acolhida por se estar a par das informações mais importantes. Alerto para que o uso seja racional (alguém sabe o que seja isto?), para não cair no efeito colateral mais frequente da internet: afastar quem a gente ama, por falta de tempo de se olhar nos olhos, afagar os cabelos, abraçar. Tudo dividido é melhor. Especialmente pele com pele.

 

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* Contato: yanmar@terra.com.br