Três contos de “Vinte e um”* | Patricia Tenório**

Alice no espelho

 

Alice ainda não havia se visto no espelho. As duas perninhas sentadas, os bracinhos estendidos até as mãos tocarem as mãos.

Mas que surpresa, o gelado do espelho! O gelado das minhas mãos!

Me levantei devagar, do tamanho das pernas, meio tonta, caminhei de lá para cá. A outra Alice parecia se divertir com o passeio, pois sorria, como se fosse me contar algum segredo.

De repente, papai chegou: a porta era por onde papai chegava e mamãe saía, aprendi. Mas babá não me deixava chegar perto da porta para não me machucar.

O que mais cansava era a espera. E não ser compreendida. Quando chorava pedindo o boneco de borracha para coçar as gengivas dos dentes que teimavam em não nascer, me trocavam a fralda, me davam banho, comida, água, suco. E não adiantava chorar, não adiantava resmungar porque ninguém me entendia.

Gostava quando Pedro vinha brincar. Pedro com os cachos nos cabelos. Até que a mãe de Pedro resolveu os cortar.

– Para engrossar o fio.

Disse a mamãe. Achava bonito o falar da mamãe. Era tão explicado… Ela falava devagar, olhando nos olhos, e dava para entender só olhando para os olhos dela, prestando bem atenção.

Mas a minha boca não acompanhava a boca da mamãe. Mesmo quando me via no espelho, movia os braços, as pernas, a cabeça, mas a boca não falava as palavras da mamãe. Só saía choro e resmungava, e reclamava a dor de não entenderem os aaa, os ooo, a quase palavra que caía pelo chão.

Foi Pedro que falou primeiro, juntou primeiro o mmm e o ããã, e tia Clara chorou, tia Clara abraçava o filho como se o visse pela primeira vez. Pedro olhou para a mãe, olhou para mim e não disse mais nada. Passou o resto da tarde calado de tão assustado.

Eu fiquei muda, sozinha com as minhas palavras silenciosas. Por que elas não falavam? Por que não manifestavam o que eu sentia, o que eu pedia, meu desejo mais profundo? De tanto pedir caí no sono, ali, na sala de visitas, ali, no colo da babá.

E sonhei com um outro espaço. Onde tudo que eu tocava falava por conta própria e eu não precisava mais falar: a cadeira, o sofá, o tapete reclamava todo passo que eu dava. E o Pedro pulava de alegria, pois não ia mais assustar a tia Clara com as palavras que nem mesmo ele quis falar. As coisas por si falavam, as coisas por nós falavam e todos nos entendiam, babá, a cozinheira, tia Clara, mamãe, papai…

Acordei com o bigode de papai me dando beijo. E não sei de onde veio – vai ver foi o sofá, fofinho, bonitinho que juntou o ppp com o ááá, colocou em minha boca, para agradar o papai.

 

Clube de Suicidas

 

No princípio era para ser um clube de suicidas. Se chegava, se cadastrava, pulava do décimo terceiro andar, no décimo terceiro prédio, da avenida Treze de Maio.

Ou nos degraus da escadaria do Cristo Redentor, na frente dos trilhos, o bondinho da floresta, na Tijuca, Santa Tereza, no Palácio do Catete onde Getulio se matou.

Mas se José chegasse, se cadastrasse e pulasse, tudo assim continuaria, tudo assim permaneceria um eterno se matar. Porque José chegou com sonhos, desses que não se vendem, se dão. Desses que não se têm, se imaginam. E alguns dos suicidas, em vez de se jogar, iam lá, bem de mansinho, ouvir os sonhos de José, os sonhos que ele não sabia escrever, só falar; não sabia o porquê, só o lembrar.

E não se esquecia, nenhum dos sonhos se esvaía de sua mente criativa. Que se assustava às vezes de tanto muito pensar, por achar tão reais os personagens, senhores de si e dele mesmo. Mandavam-no caminhar todos os dias, do Flamengo até a Urca, dar comida aos macaquinhos e voltar para o seu lar. Não tinha mais o emprego, pois da noite eles fugiam, os personagens, para no dia atrapalhar, com sono e cansaço, o emprego do José.

Tinha visto de um tudo: cachorro mandando em dono e velhinho abandonado, sentado na barraquinha de coco para o neto obedecer, porque iam aparecer uns amigos em sua casa.

– Vai passear, avô! Que mico eu ter de ter um velho em minha casa…

E José viu o velhinho, sentado, abandonado na barraquinha de coco.

Mas um menino, pixotinho, bonitinho, veio em sua direção. Alisou o rosto, enrugado, tão cansado de falta de amor, respeito e também compreensão. O menino pequenino, como se adivinhando, como se acarinhando o rosto do velhinho e de José, soltou umas palavrinhas sem sentido e ao mesmo tempo tudo se esclareceu, tudo então se converteu num alegre Carnaval.

– O que perde grande é. O último será o primeiro, vovozinho e seu José. Vão contar para o mundo inteiro que o mundo continua, a vida não acabou…

… E o sonho é de quem sonha, mas também de quem acredita, e insiste, e desiste de chegar, se cadastrar, e pular do décimo terceiro prédio, da avenida Treze de Maio, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

 

Vinte e um

 

Ele perguntou o que era terça;

ela, perigosamente, não respondeu.

 

O que não se sabe sobre os terroristas é que eles levam uma vida perfeitamente normal. Se apaixonam, desiludem, se iludem com as promessas de vida eterna e dezenas de virgens flutuantes.

Oham sabia das virgens, cria nas virgens como ao próprio corpo armado, coberto com a túnica preta e o turbante branco. O que Oham não sabia era que uma das virgens atravessava o seu espaço no exato instante em que iria disparar as bombas.

– O senhor sabe quando é terça?

Ela lhe perguntou. Com tantos ao redor. Com olhos de pantera, ela perguntou. Será que sabia? Será que lhe adivinhou?

Yasmine era filha única, neta única de marajá. Ela poderia estar em casa, com as tantas amas, os muitos escravos, a pensar em nada, a não pensar. Mas para que deixar de viver a vida, experimentar a vida no seu sabor, nos aromas, no calor do mercado, o colorido das especiarias, que sabor tem o açafrão para Yasmine?

– O que tem na terça-feira?

O rapaz lhe perguntou. O rapaz de olhos vivos, mais vivos que os seus, mais vida nos lábios grossos e os dentes de marfim, o turbante branco emoldurando o rosto, a túnica preta cobrindo o corpo alto, esguio.

Ele não desconfiou que o perigo ali se achava. Naqueles dedos finos. Naquele véu de púrpura. Os olhos de pantera adentravam os olhos seus, sondavam a alma por mistérios, e ali, no centro, no âmago do espaço seu, Yasmine o desvendou, Yasmine lhe sentiu a cintura, sentiu as bombas, o disparador.

– O que tem na terça-feira?

– É o dia.

– O dia?

– Do meu aniversário.

– Quantos anos?

– Vinte e um.

– Também tenho vinte e um.

– Por que então as bombas?

– Por que então o véu de púrpura?

Yasmine ali sentou. No chão. Na calçada do mercado. Onde Oham já devia ter disparado, já devia ter se entregado à vida eterna e às virgens prometidas.

Mas as lágrimas de Yasmine o atraíram para o chão. Na calçada do mercado. Tocou a mão de Yasmine. Ela não se esquivou. E assim permaneceram, o tempo da explosão, o tempo da fuga de casa de Yasmine, do paraíso de Oham.

Porque, se quiser, se vive tantas possibilidades, muitas vidas, muitas virgens num mesmo instante, num mesmo toque, num único beijo da virgem Yasmine e do homem-bomba Oham.

 

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* Vinte e um é uma coleção de vinte e um textos inéditos escritos entre 2010 e 2013 por Patricia Tenório.

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2015) se prepara para defender a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: Um Romance Indicial, Agostiniano e Prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.  Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br